Ceará amplia parceria com a China e acrescenta 92 novos produtos asiáticos ao Estado
Primeiro ano de rota entre Porto do Pecém e China movimenta painéis solares e peças automotivas.
O perfil das importações cearenses da Ásia passou por recente diversificação no início de 2026. Segundo informações do Comex Stat - plataforma do Governo Federal com dados sobre exportações e importações brasileiras -, analisados pelo Diário do Nordeste, apenas em janeiro e fevereiro deste ano, 92 novos produtos chineses, que não haviam sido importados em igual período de 2025, passaram a desembarcar no Estado.
Esse movimento é impulsionado pela consolidação do Ceará como porta de entrada estratégica para o mercado asiático no Brasil. Entre as 92 mercadorias que estrearam na pauta de importações em 2026, destacam-se itens de alto valor agregado e peso industrial.
O topo da lista é ocupado por automóveis de passageiros, que sozinhos somaram mais de US$ 7,1 milhões em valor importado.
Outros destaques incluem coques e semi coques de hulha (US$ 5,9 milhões), ácidos nucleicos, aparelhos de raios-X e maquinário pesado como bulldozers e escavadoras.
A lista de novidades é vasta e abrange desde insumos químicos e hospitalares até bens de consumo. Veja lista:
- Equipamentos médicos - Aparelhos de mecanoterapia, massagem e artigos ortopédicos.
- Indústria e construção - Tornos para metais, guindastes, perfis de ferro ou aço e material para vias férreas.
- Bens de consumo e vestuário - Aparelhos de barbear, vestuário feminino de malha, calçados para bebês e até produtos hortícolas e frutas congeladas.
A análise comparativa entre o primeiro bimestre de 2025 e o mesmo período de 2026 revela crescimentos exponenciais em categorias específicas de produtos.
O maior salto percentual foi registrado nos compostos de função carboxiamida (fungicida amplamente utilizados na agricultura para o controle de doenças foliares e de solo em diversas culturas, como soja, milho e trigo), que apresentaram uma variação positiva de 1.704,7%, saltando de US$ 90,6 mil para US$ 1,6 milhão.
Logo em seguida, os teares para fabricação de malhas e máquinas de costura industrial registraram um aumento de 1.604,1% (saindo de US$ 209.890 em 2025 para US$ 3.576.669 em 2026), enquanto as chapas e tiras de alumínio cresceram 1.577,8% no período, saltando de US$ 156.299 no passado para US$ 2.622.382, neste ano.
Nova rota da China como motor da mudança
Um dos fatores que podem ter motivado este aumento de importações é que há um ano o Porto do Pecém tornou-se a primeira parada das embarcações vindas da Ásia que utilizam a rota via Canal do Panamá.
Operada oficialmente desde abril de 2025, mas em fase de testes meses antes, essa conexão direta reduziu o tempo de viagem para cerca de 40 dias.
Além disso, a rota eliminou a necessidade dos navios contornarem a África pelo Cabo da Boa Esperança e subirem de Santos (SP) para o Nordeste. Essa mudança logística gerou um impacto imediato nos números do terminal.
Apenas esse novo percurso movimentou quase 104 mil TEUs (medida-padrão internacional de volume no transporte marítimo, baseada em um contêiner de 20 pés) em seu primeiro ano de operação. Esse volume representa cerca de 15% do total de novas cargas que passaram pelo terminal em 2025.
Além disso, foi o principal motor para o crescimento de 27% na movimentação anual do Porto do Pecém. Ao todo, o terminal saltou de 555.409 TEUs em 2024 para o recorde histórico de 706.509 TEUs no último ano.
Max Quintino, presidente do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp S.A.), credita a relevância do aumento total de movimentação a esta nova ligação com a China.
"Muito disso se deve a essa nova rota com a Ásia. Antes, uma mercadoria da China vinha para Santos, esperava uma conexão para depois chegar no Pecém. Hoje não, o primeiro porto brasileiro é o Pecém", diz Quintino.
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Pauta diversificada
A pauta de importações do Pecém também se diversificou, conforme a Logcomex (plataforma de tecnologia para o comércio exterior).
Enquanto em 2024 o foco era o aço galvanizado, em 2025 o destaque absoluto foram as células fotovoltaicas (painéis solares). Outras mercadorias relevantes incluem peças automotivas, coque de petróleo e insumos que seguem via cabotagem para alimentar a indústria de Manaus.
Já em 2026, considerando os dois primeiros meses do ano, ganha relevância importação de unidades de ar-condicionado.
Daniel Rose, diretor-presidente da APM Terminals (operadora o terminal de contêineres no Cipp), ressalta que "essa linha muda a maneira que a carga chega ao Brasil. Isso reduziu um pouco a pressão em Santos e melhorou (a movimentação) aqui".
Ele explica ainda que o volume é sustentado tanto pelo consumo regional, com o Polo Automotivo do Ceará (Pace), em Horizonte, quanto por conexões para o Norte.
"Esta linha traz muita carga, que chega aqui, faz um transbordo e é levada em um navio para Manaus. Ou seja, este é um navio de muito volume".
Ceará como hub logístico
Para especialistas, o protagonismo cearense é reflexo de sua localização estratégica e infraestrutura.
João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que a rota "fortalece a posição do Ceará como um importante hub logístico e industrial e reduz custos operacionais".
Segundo ele, a agilidade na chegada de insumos tecnológicos tende a "diminuir preços (custos) e prazos tanto para a indústria local como para consumidores finais".
Um outro aspecto apontado por ele é a viabilidade maior da exportação de produtos perecíveis como frutas e castanha de caju pela redução do período do percurso.
Helmuth Hofstatter, CEO da Logcomex, ressalta que a previsibilidade logística é o fator crítico desse mercado. Ele explica que quando há concentração de fluxos em poucos portos, qualquer atraso pode gerar impactos relevantes nas cadeias produtivas.
"O que vemos é que a diversificação de rotas e pontos de entrada de mercadorias no país (como o caso do Pecém) tende a trazer mais segurança operacional para as empresas. Ao mesmo tempo, para que esse movimento se consolide, é fundamental que as regiões portuárias desenvolvam infraestrutura, mão de obra qualificada e condições para atrair operações industriais e logísticas para perto desses hubs”, reforça.
Saiba por quais portos a rota passa ao sair da China e chegar no Pecém
- Mundra (Índia)
- Singapura (Singapura)
- Yantian, Ningbo, Xangai, Qingdao (China)
- Busan (Coreia do Sul)
- Cristobal (Panamá)
- Caucedo (República Dominicana)
Atração de empresas e sinais de novos negócios
O novo dinamismo já apresenta resultados práticos na economia local. O diretor-presidente da APM Terminals aponta que a planta automobilística em Horizonte já opera utilizando essa linha para o recebimento de componentes.
Além disso, o professor Mário França destaca duas potencialidades que se abrem para a economia do Estado.
"A primeira da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) ser vista como mais vantajosa para empresas que desejam importar matérias primas da Ásia tornando-se assim mais competitiva. Já a segunda, é relacionada a favorecer mais investimento chinês em energias renováveis que é um setor que já vem trazendo um maior dinamismo para a economia cearense", comenta.
Dados do Ipece confirmam essa tendência: a China foi o principal país de origem das importações cearenses em 2025, totalizando US$ 880,2 milhões (32,2% de participação).
Impacto no e-commerce e frete
A nova dinâmica portuária favorece diretamente o e-commerce ao reduzir o tempo de trânsito da mercadoria.
Embora as fontes consultadas confirmem a redução de custos e prazos para o consumidor final devido à maior velocidade de chegada dos produtos, não há uma estimativa percentual exata da queda do valor do frete.
O especialista em comércio exterior e CEO da JM Negócios Internacionais, Augusto Fernandes, afirma que a redução em até 30 dias no tempo de recebimento da carga impacta diretamente na economia em frete. Porém, ele afirma que as guerras no mundo têm feito o valor do frete marítimo quadruplicar.
Além disso, ele comenta que apenas o seu escritório aumentou em 53% as importações em 2025, com relação a 2024, ligado a esta nova rota e que, neste ano, ele busca um resultado igualmente expressivo.
Sobre os produtos mais transportados, ele lista uma gama de produtos de varejo, eletrodomésticos, utilidades, maquinários, matéria-primas para a indústria e tecidos.