Vacinas são atualizadas para aumentar proteção e reduzir efeitos colaterais, afirma especialista

Pesquisador da Fiocruz diz que mudança na composição dos imunizantes é natural ao processo de fabricação. Medida também é adotada para reduzir custos

Legenda: Pouco mais de 20% da população brasileira completou esquema vacinal contra Covid-19
Foto: Camila Lima

O surgimento de novas variantes da Covid-19 e o rápido desenvolvimento das vacinas contra a doença têm motivado discussões quanto à atualização da composição dos imunizantes. Embora a premente necessidade de frear a pandemia tenha atraído olhares de todo o mundo para as vacinas, a atualização das mesmas não é novidade.

E, inclusive, vai muito além de um ajuste para obter melhor eficácia, endossa o pesquisador da Fiocruz, coordenador da central analítica da Fiocruz Ceará e integrante da Rede Genômica, Eduardo Ruback.

Na verdade, todas as vacinas são atualizadas e isso vem dos fabricantes. Nem sempre é só para ter uma maior eficiência no combate da doença. Às vezes, ela [vacina] tem uma super eficiência e a atualização são alguns detalhes para reduzir efeito adverso, ou para ser produzida de uma forma mais em conta, mais barata, com uma nova metodologia de produção"
Eduardo Ruback
Coordenador da central analítica da Fiocruz Ceará

Microbiologista com mestrado em virologia e doutorado em biofísica, Ruback estima que, por serem muito recentes, as principais vacinas contra Covid aplicadas no mundo serão atualizadas nos próximos seis meses.

“Isso pode levar para uma terceira dose em alguns países”, diz, lembrando que a demora para aquisição de vacinas contra Covid no Brasil tende a tornar necessária uma terceira dose, já que a circulação do coronavírus se manteve alta no País.

Enquanto isso, países como os Estados Unidos não devem demandar novas doses porque alcançaram uma boa cobertura vacinal. 

O pesquisador lembra que nem sempre há necessidade de atualização de determinadas, mas apenas de ajuste perante a dinâmica de circulação dos vírus. 

A vacina contra o H1N1, aponta, é aplicada a cada ano não somente como um reforço à vacina anterior, mas porque as pessoas vão perdendo a imunidade ao longo do tempo, enquanto outras nascem e também precisam ser protegidas. 

Somente após a análise epidemiológica de como foi a gripe no ano anterior, de quais as cepas mais circulantes, é possível definir qual imunizante será utilizado. “Nem sempre é uma atualização, às vezes é voltar para uma [vacina] mais anterior, que já havia sido usada antes”. 

Legenda: Vacinas contra Covid devem passar por atualizações nos próximos seis meses, estima especialista
Foto: Shutterstock

Reforço à imunização 

Infectologista pediatra e professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Robério Leite reforça que algumas vacinas e doenças não garantem imunidade por toda a vida. Ou seja, mesmo que o indivíduo tenha recebido o imunizante ou se contaminado com a doença, ele ainda necessita de reforço das doses para evitar uma reinfecção.  

Algumas doenças são exceções a isso, como é o caso do sarampo e da catapora. “Uma vez tendo essas doenças, você não tem mais, é proteção para a vida toda”, explica Robério. No caso das vacinas contra tais enfermidades, os cientistas utilizam um vírus enfraquecido que estimula o sistema imunológico a criar os anticorpos de proteção.  

No entanto, há outro grupo de vacinas que utilizam vírus inativados, como ocorre com todos os imunizantes disponíveis no Brasil contra a Covid-19.

Essas vacinas, em geral, têm uma capacidade menor de induzir imunidade, daí a necessidade de reforço” 
Robério Leite
Infectologista pediatra e professor da UFC

O também professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) aponta que esse reforço não é restrito aos imunizantes da Covid-19. O mesmo ocorre para a vacina do tétano, da difteria, da gripe H1N1, e da hepatite A e B, variando somente o período do reforço.  

No caso do tétano, uma nova dose é recebida a cada dez anos, isso porque o vírus não se modifica com tanta rapidez, enquanto a Influenza H1N1 precisa ser reforçada anualmente, em decorrência de sua alta capacidade de mutação.  

“A Ciência e os pesquisadores procuram desenvolver novas vacinas com maior capacidade de preservar a imunização, por um tempo mais longo. [O reforço] vai depender da capacidade do vírus de se modificar, que pode dificultar a indução de imunidade por muito tempo”.

Cenário da vacinação no Brasil

Dados do Ministério da Saúde (MS) indicam que 149.469.803 doses de imunizantes contra a Covid-19 foram aplicadas em todo o Brasil. Destas, 105.203.589 foram destinadas a primeiras doses (D1) e 44.266.214 a segundas doses (D2) ou doses únicas (DU). Considerando que a população brasileira projetada pelo IBGE nesta terça-feira (10) é de 213.449.022, é possível calcular que somente 20,73% estão com esquema vacinal completo contra o coronavírus. O Vacinômetro do MS foi atualizado pela última vez às 10h57 da última sexta-feira (6).    

No Ceará, foram aplicadas 5.952.064 doses até 17h da segunda-feira (9), segundo o Vacinômetro da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Destas, 4.105.615 foram destinadas a D1, e outras 1.846.449 a D2 e DU. Tendo o Estado população estimada em 9.187.103 pessoas, é possível afirmar que 20,09% da população cearense completou o esquema vacinal. Desempenho, portanto, semelhante ao do País.

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