“Sentimos o racismo antes de saber quem somos”, declara moradora da periferia de Fortaleza

A professora Elissânia Oliveira, 32, nasceu e cresceu no bairro Moura Brasil, e hoje vive e leciona no Bom Jardim – duas das localidades mais pobres da capital cearense

Mulher negra Elissania professora
Legenda: A professora Elissânia Oliveira, 32, fala da vivência do preconceito de quem é preto e mora na priferia
Foto: REPRODUÇÃO

Não é “mimimi”, “modinha” nem “vitimismo”. É violência psicológica, física e institucional diária. É morte todo dia, motivada por uma só razão, nem sempre tão simples: a cor da pele. “E a questão é que a classe branca não tem nos escutado”, dispara a professora de História e Sociologia Elissânia Oliveira, 32, nascida e criada no Moura Brasil, um dos bairros mais pobres de Fortaleza.

Com a repercussão das mortes de João Pedro, no Rio de Janeiro; e George Floyd, nos EUA; a noção de que o povo preto não tem sido ouvido é reforçada, na opinião da cearense. “Com mais negros nas universidades, em movimentos sociais e nas redes sociais, a sociedade está acessando mais o que estamos falando. Mas veja como o George Floyd morreu. O que isso quer dizer? As frases dele foram ignoradas e ele foi sufocado até o último sopro. Não nos escutam”, desabafa Elissânia.

A professora destaca ainda a influência que a estrutura sólida e perversa da discriminação tem nesse cenário. “O racismo é algo que a gente sente antes de saber quem é, antes de se pensar enquanto ser preto. Na infância mesmo você começa a ser apontado como algo negativo que nem sabe o que significa. Até dentro da periferia, lugar que tem cor negra, a gente vivencia essa violência, diante de uma conjuntura que nega a nossa negritude, diz que não existimos”, desabafa.

“É bom salientar: racismo é cotidiano. Não é um episódio, um fenômeno, um tropeço. É um corpo visível, marcado, e você passa a vida inteira por isso.”

Para Elissânia, uma das maiores dificuldades de se enfrentar o problema – não nos EUA ou no Rio, mas aqui mesmo, no Ceará – é reconhecer que ele existe. “Ainda hoje se divulga a não existência de negros na construção da população cearense. É uma pergunta constante que escutamos: ‘de onde você é?’ As pessoas esperam que você responda que é da Bahia, do Rio de Janeiro, não daqui. Você nunca é um preto cearense. Ser preto aqui é nascer num lugar que apaga sua identidade”, descreve.

Esse “apagamento”, aliás, violenta de dentro para fora, como explica a professora. “Quando você se reconhece negro, começa a buscar as motivações pro preconceito que tá sofrendo. Mas tem quem vá sofrer a vida toda sem saber as razões, que ficam escondidas atrás da sutilezas do cotidiano. Estudar História me trouxe esses porquês – e isso não me deixou mais leve. Mas é mais confortável lutar contra os motivos sabendo quais são”.

A violência é algo com que “pessoas negras em todos os espaços vão sofrer”, mas que “bate mais na periferia porque lá é onde tem mais negros”, segundo avalia a moradora do Grande Bom Jardim. “Sou professora e vejo se repetirem coisas que aconteceram na minha época de escola. As mesmas chacotas, as mesmas piadas racistas, a mesma postura de professores e gestores de que ‘é só não ligar’. Essa é a perspectiva de racismo cotidiano”.

“O ódio histórico que sentem é da continuidade das nossas vidas: do nosso sorriso negro, da nossa religião, da nossa cultura, do orgulho. Nunca vão perdoar os negros por sentirem orgulho da própria pele.”

Esperança, para ela, não é algo que conte – resistência, sim. “Passamos pelo sequestro do povo africano, pela escravidão, por leis que dificultavam oportunidades e acesso. Temos sobrevivido ao genocídio, a um projeto de Estado colonial que quer nos matar e explorar. Não sei se existe uma esperança de que a gente vai conseguir acabar com isso, mas que a gente vai resistir e sobreviver, vai”, sentencia.

 

 

 

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