Diante de indicadores para flexibilização, Capital tem aglomerações no 1º dia de retomada econômica

Para que o Governo do Estado continue com o plano de reabertura, quatro critérios de saúde devem ser avaliados semanalmente. Especialistas avaliam retorno e apontam para respeito da população ou retorno ao lockdown

Legenda: Intensa movimentação de pessoas foi registrada em Fortaleza, durante primeiro dia de reabertura
Foto: José Leomar

Com 50.504 casos confirmados de Covid-19 e 3.188 óbitos provocados pela doença, até a última atualização feita ontem pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) às 14h53, o Ceará iniciou nessa segunda-feira (1º) a flexibilização do isolamento social, alinhado à retomada econômica do Estado, com o retorno das atividades de setores do comércio, construção civil e serviços. No entanto, o que se viu pelas ruas foi mais do que a volta ao trabalho, mas desrespeito ao uso de máscara, aglomerações em espaços públicos e até engarrafamento.

O Diário do Nordeste esteve em ruas do Centro da Capital, nos terminais Antônio Bezerra, Siqueira, Papicu e Parangaba, além de ruas deste bairro durante o dia de ontem, a fim de acompanhar a movimentação das pessoas durante o primeiro dia da flexibilização. De acordo com o Governo do Estado, cerca de 67 mil trabalhadores de 17 setores diferentes da economia voltaram às atividades. Este primeiro momento de transição dura até o dia 7 de junho, mas depende de quatro indicadores de saúde para continuar evoluindo: ocupação de leitos de UTI, internações, número de óbitos e questão territorial.

Conforme a plataforma digital IntegraSUS, a ocupação de leitos de UTI nessa segunda-feira (1º) era de 84,7%; a meta é manter o indicador abaixo de 85%. Já nos critérios de óbitos, por exemplo, é preciso que o número de registros tenha tendência de redução durante 14 dias. A promessa da gestão estadual é que, se os números não preencherem esses quesitos, pode ser necessário determinar a suspensão do plano, mas isso depende da adesão da população às medidas propostas.

Relatos

Angélica Araújo, 43, que trabalha no setor de cobranças de uma empresa no Centro, percebeu, nessa segunda, diferença na quantidade de pessoas nas ruas. Nas últimas semanas, o seu caminho para o trabalho era tranquilo e sem muita gente. Ontem, a situação foi outra. Ela relata que viu pessoas nas praças conversando e sem máscara, engarrafamentos em vias de grande circulação e até mesmo filas em uma loja de calçados.

De que adiantou todo esse tempo (de quarentena) pra agora, de repente, começar essa loucura? Não são só pessoas que estão trabalhando que estão na rua

Ela teme que a reabertura aumente o número de casos confirmados de Covid-19 no Ceará, uma vez que já chegou a perder quatro pessoas próximas em decorrência da infecção. Para Angélica, quem fura o isolamento social não tem noção da gravidade da doença.

"Isso coloca em risco pessoas que tão saindo de casa por necessidade", opina.

Trabalhando normalmente desde o início da pandemia, Aline Lima, 33, achou positiva a volta dos ônibus metropolitanos, que retornaram às atividades ontem, assim como metrô e VLTs. Como não pôde trabalhar em casa, em Maracanaú, ela precisava chegar em Fortaleza através de caronas ou dormia na casa de parentes que moravam mais próximos do seu trabalho no Hospital das Clínicas.

Mas a rota do ônibus que precisa pegar mudou sem aviso prévio. O coletivo que ia até o Centro precisou parar no terminal da Parangaba. Aline teve de seguir o resto do caminho de metrô e gastou o valor de duas passagens. Apesar disso, viu pessoas respeitando a obrigatoriedade de máscaras nos dois meios de transporte.

"Acho que há duas ou três semanas era como se estivesse saindo em um domingo, quando não tem carro nenhum na rua. Hoje peguei até um engarrafamento na Avenida Eduardo Girão", disse o advogado Heráclito Gomes, 30. Ele conta que sempre precisava ir até o trabalho para resolver pequenos problemas e utilizar equipamentos, mas percebeu a mudança no trânsito nessa segunda-feira. O receio de Heráclito, porém, continua, pois a volta às atividades pode "gerar um novo pico de transmissões".

Análise

Na visão da infectologista Terezinha Leitão, do Hospital São José, a flexibilização do isolamento social requeria um processo mais bem delineado, pois Fortaleza saiu de um "lockdown" para o período de reabertura da economia. "Seria necessário pelo menos uns 10 dias para que a gente pudesse recuperar o fôlego. A gente viu a procura por atendimentos diminuir nesses últimos dias, porém é necessário observar a ocupação de leitos de UTI, que teve uma leve baixa, mas ainda temos um percentual alto", avalia.

De acordo com a médica, é preciso ter muita atenção neste momento, pois "quando bairros como o Meireles registraram casos crescentes, depois veio uma estabilização. Em seguida, a curva epidemiológica voltou a subir junto com a disseminação para os outros bairros", lembra a especialista, ao passo que ressalta as medidas efetivas no combate à pandemia.

"Já temos um percentual menor em trabalho, o que é extremamente importante. O uso da máscara em todos os ambientes foi e é fator determinante, já que há um risco de transmissão menor", enumera Terezinha Leitão.

Meta

Para o epidemiologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Luciano Pamplona, é preciso analisar o número de casos, a ocupação dos leitos e a quantidade de óbitos.

O que esperamos é o aumento dos dois primeiros fatores, porém o número de mortes deve decair, tendo em vista que, teoricamente, aumentamos a capacidade de atenção aos pacientes nos hospitais

Conforme o pesquisador, foi realizada uma estimativa pela Secretaria da Saúde e, caso ela seja superada para mais, "naturalmente teremos o lockdown de volta, o que não é a expectativa. O que esperamos é que as pessoas cumpram o isolamento e o distanciamento propostos pelo Governo".



Redação 15 de Julho de 2020