Qualificação de médicos é desafio para o uso do cannabis medicinal

As expectativas, o panorama atual e as origens do uso da planta no tratamento de doenças como a epilepsia foram debatidos, no 1º Seminário de Terapêutica e legislação sobre cannabis medicinal

Legenda: Rodrigo Bardon mantém o cultivo da cannabis em casa há dois anos
Foto: Foto: ISANELLE NASCIMENTO

Sobram opiniões e falta difusão de conhecimento sobre o uso da cannabis para o tratamento de doenças crônicas, como o autismo e a epilepsia. Apesar de cercada por tabu, um dos principais desafios para a aceitação do uso terapêutico da planta é a falta de informações em meio à própria comunidade médica.

O contato com profissionais da Medicina é o primeiro passo do processo de obtenção legal da cannabis para fins terapêuticos e, segundo especialistas, já representa um dos primeiros obstáculos do percurso marcado pela burocratização.

O assunto foi um dos temas do 1º Seminário de Terapêutica e Legislação sobre cannabis medicinal, que ocorreu, ontem (17), no auditório da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). O evento foi organizado pelo Conselho Estadual de Saúde do Ceará (Cesau).

"A gente tem vivido um momento de polarização em relação às drogas, de modo geral. Tem gente que defende a abstinência como algo bom, e o uso como algo ruim. Isso tem dificultado discussões como a da cannabis medicinal", explica André Tavares, psiquiatra e assessor da Secretaria Executiva de Saúde Mental da Sesa. Segundo ele, tal polarização fez com que os profissionais da saúde se distanciassem muito do assunto.

Capacitação

"Temos então dois pontos que a gente precisa trabalhar: a qualificação desses profissionais de saúde, não só para a prescrição em casos necessários, mas também para informar os pacientes; e a capacitação da própria população sobre o que quer dizer esse uso medicinal", destaca. A opinião é compartilhada pelo neurocirurgião funcional Pedro Pierro, prescritor de cannabis medicinal que atua na cidade de São Paulo.

Ele diz que o primeiro estudo sobre canabidiol - uma das substâncias da planta - e epilepsia foi feito no Brasil, na década de 1980, envolvendo duas universidades brasileiras e uma estrangeira. "Mesmo assim, até hoje, não existe essa matéria obrigatória nos cursos de Medicina, de graduação", lamenta Pierro.

Ele avalia que a falta de informação por parte dos médicos acerca desse tratamento é a principal carência a ser suprida em relação à abordagem terapêutica. "Precisaria existir essa matéria na graduação, e que houvesse cursos de especialização na área. Existem no Brasil, mas são poucos. [Essa carência] Só pode ser por conta do tabu, porque falta de evidência científica não é", pondera.

O neurocirurgião, que também foi palestrante no seminário, defende que o principal objetivo é passar adiante o histórico do tema e os conhecimentos pertinentes ao público. "A gente passou do momento do: por que usar? O mundo inteiro já usa. Agora, a gente está no momento do: por que não vamos usar?".

Processo

Para conseguir a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importação ou cultivo da cannabis medicinal, é preciso de uma receita médica, que só pode ser prescrita por neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras. Então, o paciente dá entrada com o pedido na Anvisa. Uma vez aprovado, terá de arcar com o preço do produto: um frasco do óleo de canabidiol, por exemplo, pode custar até R$ 2 mil.

O primeiro brasileiro adulto a conseguir a autorização para cultivar a planta em casa, em 2017, foi o cearense Rodrigo Bardon, funcionário público do TJCE. A autorização veio como um grande alívio para Bardon, que dependia da cannabis para aliviar as dores frequentes que começaram após um acidente em 2005.

Aos 21 anos de idade, ele fraturou a coluna e perdeu os movimentos de toda a região do corpo abaixo dos ombros. "Estamos atrás de posicionamentos, pessoas que se manifestem publicamente. Você é a favor ou contra o uso medicinal? Há pacientes precisando", diz.

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Redação 29 de Setembro de 2020