Qual o legado que a Copa do Mundo deixa para a população da Capital?

Muito se planejou em infraestrutura. Contudo, algumas obras que foram aprovadas ainda seguem em execução

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Entre os equipamentos entregues, melhorando a fluidez do trânsito, estão as Avenidas Alberto Craveiro e Paulino Rocha. Já a Avenida Dr. Silas Munguba está com 10% de execução, com prazo de conclusão ao final de 2014
Foto: FOTO: KIKO SILVA

A Copa do Mundo no Brasil termina hoje. Foram 30 dias de muita bola em campo e coração na mão. Para as cidades-sede, em particular, um gostinho a mais: a invasão de turistas de todo o mundo nesses locais deixou a festa ainda mais bonita e animada e, para isso, tivemos que nos preparar. Com o fim do Mundial, muito se especulou sobre o legado deixado para nosso benefício. Mas afinal, o que realmente fica de bom? É isso que a série de reportagens do Diário do Nordeste, com início na edição de hoje, tenta apontar.

No que diz respeito à infraestrutura da cidade, planejamento não faltou. Muito do que foi esperado, no entanto, não ficou pronto a tempo de receber a demanda do período. Entre as obras entregues sob a responsabilidade da Prefeitura de Fortaleza, estão as avenidas Alberto Craveiro e Paulino Rocha, ambas de acesso à Arena Castelão, a rotatória no entorno do estádio, o túnel Jornalista Demócrito Dummar e o túnel Barros Pinho, na Avenida Santos Dumont com a Via Expressa.

Quem se utiliza dos novos equipamentos afirma sentir a diferença na cidade. Fã do cantor britânico Paul McCartney e já tendo viajado às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo para acompanhá-lo, a administradora Cristina Fontenele, 50, jamais imaginou que o seu maior ídolo pudesse vir a Fortaleza para um dos shows da turnê. Isso foi possível devido à inauguração da Arena Castelão, a primeira do País a ficar pronta para a Copa do Mundo de 2014. "Além de importantes campeonatos de futebol, agora temos a chance de receber mais eventos internacionais como esse. Isso também estimula o turismo na cidade, e com o antigo Castelão isso não seria possível", analisa.

No trajeto diário para o trabalho, o gestor de tecnologia Vanduy Queiroz, 30, afirma ter deixado de rodar pela Avenida Paulino Rocha, sua principal via de acesso, por conta das imperfeições. Ele diz que preferiu mudar a rota, mesmo tendo que aumentar em 5 Km seu percurso total, para fugir de buracos e grandes engarrafamentos. "Além da malha viária ser muito ruim, chegava a ficar parado cerca de 20 minutos em frente ao Castelão por causa da rotatória".

Agora, diz ele, a situação é bem melhor. Com a via e a rotatória reformadas, além do reforço do túnel, voltou a passar pelo local e se mostra satisfeito com o resultado. "Fiz o teste assim que liberaram e está fantástico. Na ida ao trabalho, passo pela rotatória e na volta pelo túnel e em nenhum caso pego congestionamento". Contudo, Vanduy lamenta que aquele tenha sido apenas um dos diversos pontos críticos da cidade a ser reformado. "Foram poucos locais levados em consideração, mas de qualquer forma, já é um ganho para nós", comenta.

Ganho

Para o gestor executivo da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), Roberto Resende, apesar de alguns trabalhos ainda estarem em andamento, o que foi entregue à população é um grande ganho para a cidade. Ele esclarece que todas as obras foram realizadas pensando na cidade, que já haviam sido planejadas previamente e apenas foram inseridas na Matriz de Responsabilidade da Copa do Mundo.

Nas vias já entregues, segundo o secretário, serão implantados até o fim do ano os primeiros corredores exclusivos para ônibus, os Bus Rapid Transport (BRTs). "Serão os dois primeiros, de nove que planejamos fazer nos próximos três anos. Serão 130 Km de corredores exclusivos", avisa.

Conclusão

Ainda de acordo com o secretário, todas as obras remanescentes ficarão prontas até o final de 2015. São elas o BRT da Avenida Silas Munguba (antiga Dedé Brasil); o túnel da Avenida Padre Antônio Tomás sob a Via Expressa; o viaduto da Raul Barbosa com a Murillo Borges; o túnel longitudinal sob a Via Expressa, entre as avenidas Santos Dumont e Padre Antônio Tomás; o túnel da Avenida Alberto Sá sob a Via Expressa, além do Complexo da Parangaba, que compreende obras para ligação direta das Avenidas Silas Munguba e Professor Gomes Brasil.

"Para isso, vamos fazer dois viadutos, um na Osório de Paiva, outro na Germano Frank e alças de acesso, para agilizar a mobilidade na Parangaba", ressalta o secretário.

Fortaleza precisa de planejamento adequado

Viadutos, túneis, novas avenidas e investimentos em mobilidade para o transporte público. Com obras ainda em andamento, o legado da Copa para a cidade de Fortaleza tende a crescer até o próximo ano. No entanto, segundo apontam especialistas, a capital carece de um melhor planejamento para os trabalhos. Além disso, o lançamento de recursos não generalizados acaba beneficiando apenas uma parcela da população local.

Para o arquiteto e urbanista, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Renato Pequeno, em termos de infraestrutura para a cidade após a Copa, não se pode falar em um desenvolvimento, se visto no aspecto sócio-espacial, pois este se desdobra em justiça social e melhoria da qualidade de vida, o que não teria sido direcionado a Fortaleza como um todo.

"Afinal o que foi executado? Obras pontuais como a reforma do Estádio Castelão e articulações entre o mesmo e alguns bairros e setores, via de regra os mesmos que costumam ser beneficiados com obras de infraestrutura urbana", comenta.

De acordo com o especialista, as obras realizadas eram necessárias, uma vez que a cidade necessita de um plano de mobilidade urbana. No entanto, pondera ele, o grande impacto negativo das ações está em, mais uma vez, não investir em outros setores da cidade com bem mais prioridades. "Fez-se opção por um evento em detrimento de outras necessidades", acredita.

Considerando se tratar de uma capital, um polo metropolitano e que detém diversas disparidades, o urbanista reforça a necessidade de planejamento para Fortaleza, com investimento, por parte da gestão municipal, na reconstrução do corpo técnico, além da necessidade de se adequar aos novos procedimentos em se tratando de planejamento dialogado com a sociedade. "Só assim, é possível fazer escolhas entre o que deve e o que não deve ser feito. Só assim é possível indicar em que ordem as intervenções seriam implementadas", avalia.

Sobre o legado para a cidade, Renato Pequeno comenta haver apenas para os proprietários de imóveis próximos às áreas onde as obras foram realizadas, ou as que ainda vão ser. "Os estudos demonstram a valorização imobiliária do entorno do Castelão. A implantação do VLT tende a valorizar algumas áreas, assim como atrair novos investimentos. A Parangaba é um bom exemplo", destaca.

Mobilidade

O professor avalia que, com as obras realizadas, ao reforçar alguns bairros como alvo de investimentos, os quais são alvos preferenciais da verticalização, o que era para trazer mais mobilidade pode prejudicar. "Se há ganhos, são pontuais e com curtíssimo prazo de vencimento", afirma o professor.

Na visão do presidente do Conselho Regional de Engenharia do Ceará (Crea-CE), Victor Frota Pinto, apesar de não haver um adequado planejamento da Capital, é inegável dizer que as obras aprovadas trouxeram significativas contribuições para a melhoria da cidade.

Para ele, a Copa do Mundo foi um importante pretexto que objetivou alavancar recursos financeiros para obras necessárias para Fortaleza, ficando, quando todas concluídas, um legado de significativa melhoria.

"As obras são concebidas pontualmente, sempre aproveitando oportunidades de linhas de financiamento decorrentes de incentivos financeiros do governo federal ou de bancos. A cidade se embelezou, com meio-fios pintados, calçadas, canteiros centrais e avenidas refeitas, logicamente as de acesso ao estádio e à zona hoteleira. É positiva a realização do campeonato mundial, ficando demonstrado que existindo boa vontade política e ações governamentais, as coisas acontecem", comenta.

Obras a serem entregues

BRT Av. Silas Munguba

Obras: 10%
Extensão: 6 km
Investimento: R$ 28,4 milhões
Previsão de término: julho de 2015
Responsável: Prefeitura de Fortaleza

Túnel da Av. Padre Antônio Tomaz com via expressa

Previsão de início: agosto de 2014
Investimento: R$ 11,2 milhões
Previsão de término: final de 2015
Responsável: Prefeitura de Fortaleza

Viaduto e rotatória da Raul Barbosa com Murilo Borges

Previsão de início: agosto de 2014
Investimento: R$ 52,8 milhões
Previsão de término: final de 2015
Responsável: Prefeitura de Fortaleza

Túnel longitudinal sob a Via expressa

Previsão de início: janeiro de 2015
Investimento: R$ 18 milhões
Previsão de término: final de 2015
Responsável: Prefeitura de Fortaleza

Túnel av. Alberto sá sob a Via expressa

Previsão de início: janeiro de 2015
Investimento: R$ 20,9 milhões
Previsão de término: final de 2015
Responsável: Prefeitura de Fortaleza

VLT PARANGABA /MUCURIPE

Obras: 50%
Investimento: R$ 276,9 milhões
Não há previsão de conclusão
Responsável: Governo do Estado do Ceará
Estações do metrofor padre cícero e Juscelino Kubitschek
Obras: 51%
Investimento: R$ 38 milhões
Previsão de término: final de 2014
Responsável: Governo do Estado do Ceará

Renato Bezerra
Repórter