Pobretion: o menino que não tinha o que comer hoje passa tudo no débito graças à Internet

Com mais de um milhão de seguidores, Antonio Jefferson Azevedo, 23 anos, aposta no humor e em personagens da periferia em seus conteúdos digitais

Pobretion
Legenda: Antonio Jefferson Azevedo, para os amigos mais íntimos Duff, para os mais de um milhão de seguidores: Pobretion.
Foto: Fabiane de Paula

Quando se visita o perfil de Pobretion no Instagram, que possui mais de um milhão de seguidores e 145 mil inscritos no YouTube, é difícil imaginar que aquele jovem teve que lidar tão cedo com frustrações e dificuldades. É quase incabível também pensar que o rapaz da periferia que estrelou comercial no intervalo do programa de maior audiência do País, o BBB, tenha conhecido a fome de perto.

A história de Pobretion é contada na série de matérias que Diário do Nordeste publica sobre mercado de criadores de conteúdos e sobre influenciadores digitais da periferia de Fortaleza. Até sábado (5), vamos divulgar, a cada dia, o perfil de um influencer e mostrar como eles chegaram ao sucesso nas redes sociais.

Desde 2013 ele tentava deslanchar uma carreira como youtuber e produtor de conteúdo, mas nunca conseguia. Enquanto não realizava o sonho, ele ia tentando sobreviver e ajudar nas contas de casa. Vendia aromatizante de carro, o que ele chama de "cheirinho", nos sinais de Fortaleza, às vezes até em Pacajus, “porque lá era o ‘gera’ (vendia bastante), os sinais lá eram fortes, era cruel só o sol, mas ganhava um dinheirinho bom por dia”, explica.

Relembrar o início sofrido não foi tão simples. Tão natural como a passagem do tempo durante a entrevista foi a substituição das piadas e risos do jovem pelas lágrimas em frente às câmeras. Por alguns minutos de silêncio, em que ele tentava retomar a descontração de sempre, os sentimentos não permitiram, e o pranto foi rolando livremente, como se tivesse sido guardado por tempo demais.

“É porque a pessoa lembra, foi foda minha vida no começo”, disse Antonio Jefferson Azevedo de 23 anos, para os amigos mais íntimos Duff, para seus seguidores: Pobretion. 

“Minha vida foi muito complicada, muito sofrida. Minha mãe cuidava da gente sozinha e eu via a necessidade que nós passávamos, às vezes a gente não tinha o que comer. Minha tia que levava comida para gente”, explica o humorista e influenciador. 
Pobretion

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Legenda: A personagem Dufina, interpretada por Pobretion.
Foto: Fabiane de Paula

Adeus inesperado

No começo de 2019, Pobretion conheceu o seu amigo, Talmon Lima, que o ajudava nas gravações e idéias. Foi inclusive Talmon que criou a personagem Duffina, interpretada por Jefferson. A parceria dos dois começou a render bons frutos, os vídeos humorísticos começaram a ter visualizações, o perfil de Pobretion foi ganhando seguidores. Parecia que finalmente ele ia realizar os sonhos. "Estava dando certo para mim, meus vídeos começaram a estourar". Foi quando, a sua primeira e principal fã faleceu: sua mãe, Edna Azevedo.

“A pessoa perder a mãe é a pior dor que tem, eu fiquei muito mal, fiquei dois meses sem gravar nada, fiquei mal demais. Minha mãe era tipo eu, todo canto que íamos era frescando no meio do mundo, perder a mãe foi a pior dor que senti”. 
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Recomeço

Mesmo com a dor constante, ele relata que foi graças aos amigos que ele retornou a fazer seus vídeos de humor. Ao aceitar o convite para participar do La Casa Duz Vetin - série de baixo orçamento feito por ele e outros jovens da periferia - ele ganhou visibilidade.

Na produção, eles adaptaram a série espanhola “La Casa de Papel”, da Netflix. O roteiro passa a ter as gírias das favelas fortalezenses. Eles também rebatizaram os personagens, que no original tinham nomes de países, para os nomes de bairros da periferia de Fortaleza. “Nós viramos uma nova família”.

O apoio dos amigos e os vídeos que ele produzia na internet, que trazem sempre bastante humor, o ajudaram a viver o luto e lidar com a saudade constante de sua mãe. As noites em que ele passou "chorando e pensando na vida", foram trocadas por alegrias, e ele passou a lembrar de sua "mãe só nos momentos bons".

Pobretion se tornou uma figura conhecida não apenas na periferia de Fortaleza em que morava, como na cidade, e agora também de outros locais do País. Nos últimos dois meses ele estava em Guarujá, município de São Paulo, junto com seus três melhores amigos: Talmon Lima, Everton Cássio e Rodolfo Rodrigues. 

Os quatro foram convidados a fazer parte da Mansão Maromba, espaço de criação e formação para criadores de conteúdo da internet morarem.

"Ele [Toguro], me chamou para ir para lá. Mas tava muito difícil, todo mundo da minha família estava sem trabalhar devido à pandemia, faltava dinheiro. Ele me perguntou o que eu precisava para ir para lá, e disse ser a estabilidade da minha família nesse tempo, e é claro, levar meus amigos comigo", finaliza.

No período em que passou em Guarujá, ele criou um canal do YouTube, que já tem 145 mil inscritos. Pobretion, inclusive, já aguarda a sua primeira plaquinha - em comemoração aos mais de 100 mil inscritos- chegar.

Suporte 

A internet se tornou a principal forma de trabalho e mecanismo para transformar não apenas sua realidade mas a de sua família e também aqueles de sua comunidade. As más lembranças de sua vida são resgatadas sempre que o influencer planeja uma ação social na periferia, pois através de suas memórias e das suas vivências, ele sabe como contribuir. No final do ano passado, ele fez uma ação beneficente no bairro onde cresceu.

“Todo mundo ficou com sua cesta básica e ganhou roupa para passar o Natal. Lembro que em vários fins de ano eu fiquei em casa, ia dormir cedo para passar logo, porque eu não tinha roupa nova. Eu via todo mundo com suas roupinhas, e eu não tinha. E com a pandemia, a galera estava passando dificuldade. Enquanto eu entregava as cestas, eles diziam que aquilo ia salvar eles em casa", conta.

Para a posteridade, o seu conselho vem, dos aprendizados da vida: “não tenham pressa, eu comecei em 2013, e só fui dar certo em 2019, sempre que vou dormir agradeço a Deus, porque mudou minha vida de verdade mesmo. Hoje eu consigo tudo que eu queria e que minha mãe não tinha condições. Graças à Internet”.





 

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