Oficina monta os judas com garrafas PET
A malhação dos judas, no Sábado de Aleluia, requer o prévio trabalho artesanal de montagem dos bonecos
Montar o judas para enforcá-lo e queimá-lo no Sábado de Aleluia, é uma tradição que já ultrapassa um século. O teólogo, escultor e artesão Sérgio Marques, relembrando os idos de 1880, armou uma oficina de artesanato, ontem à tarde, na Pracinha da Gentilândia, para ensinar a criar judas a partir de material reciclado. Este é o 17º ano em que Sérgio repassa seu conhecimento na confecção de bonecos. Ecologicamente correto e atento à política, ele está sempre à procura de material de trabalho que não agrida a natureza e sempre retrata o presidente da República em seu trabalho. Este ano ele usou garrafas PET e fita de arquear, que é aquela usada para fechar grandes pacotes e já é feita a partir da reciclagem de garrafas PET.
Segundo o artesão, desde que começou a fazer judas, os presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique foram retratados. Desta vez é o presidente Lula, com faixa presidencial e boné de campanha política, que ornamenta a oficina improvisada, pendurado numa frondosa mangueira da Pracinha da Gentilândia.
A oficina para montar judas é um projeto proposto pela Flexos Artes, aprovado na categoria Tradicional Popular do Edital de Incentivo à Cultura da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet), da Prefeitura Municipal de Fortaleza.
Didaticamente, Sérgio Marques criou um folheto com a montagem passo a passo do boneco. Um diagrama com as garrafas PET de medidas diferentes, necessárias para a armação do “esqueleto” do judas. Para dar mobilidade ao boneco, a fita de arquear é usada como enlace interno das garrafas.
Para a montagem, são usadas 19 garrafas PET e dez metros de fita de arquear. As garrafas, por sua variedade de formas e tamanhos, permitem construir bonecos de muitos volumes e proporções. Uma moldagem plástica rica em detalhes, elasticidade e possibilidades de movimentos.
Resgate histórico
Sérgio Marques explica que, no livro ´Memórias de Gustavo Barroso´, são narradas queimas de judas da década de 1880, em mais de um século de tradição. Ali mesmo, na Gentilândia, na Rua Marechal Deodoro, conhecida popularmente como Rua da Cachorra Magra, os fortalezenses do século XIX já montavam judas. Os pobres faziam bonecos pequenos e os abastados os montavam grandes e bem vestidos.
O artesão explica que é seu desejo manter viva esta tradição, por isso hoje, às 16h, começa o Festival de Judas naquela praça. Às 18h, sai o resultado do boneco vencedor e, às 19h, preleção, julgamento, leitura do testamento e queima dos judas.
Como o material dos bonecos libera carbono na queima, Sérgio recomenda aos brincantes que plantem uma árvore para compensar a diversão.
Amaury Cândido
Repórter