Minha professora de vida

Hoje, Dia do Professor, também é o dia em que dona Wany, a primeira professora de muitos nessa Fortaleza, celebra seus 68 anos de vida e a sua vocação nas salas de aula da vida

Foto: Foto: Natinho Rodrigues

O cheiro é inconfundível. Café forte, puro, ainda fumegando. Um afago para quem nem mesmo conseguiu acordar. Na periferia de Fortaleza, o cheiro parece o mesmo de casa em casa, mas eu conheceria o café dela em qualquer lugar. Está em pé desde os primeiros raios de sol. É só o início da jornada árdua de trabalho.

Vamos a pé, ela nunca pôde ter um carro e o ônibus nem chega no bairro. A parada mais próxima fica há dez quarteirões, na Avenida Pontes Vieira. Ela me guia por ruas estreitas, ainda com calçamento. Pedras pontudas desenham o caminho até chegar ao Canal do Lagamar. Margeamos a comunidade, ela me levando pela mão, eu tentando disfarçar o cheiro forte, imaginando como é morar ali. Com o tempo a gente acostuma. Pulamos poças de lama, no caminho esgoto a céu aberto. Naquela época eu nem sabia que era um problema muito maior do que minhas perninhas conseguiam pular. O cheiro se entranha pelas narinas, mas a comunidade é viva, pulsante. Há mais pessoas que carros convivendo entre moscas e córregos fétidos. Na rua, são as pessoas que mandam.

Chegamos à primeira escola do dia. As carteiras são pequenas, com lascas soltas de madeira, que um dia foram coloridas. Nas paredes, desenhos desbotados dão boas-vindas às crianças da escola pública da Aerolândia.

Fico lá observando sem muito entender, enquanto a professora segura a mão dos pequenos, ensinando o bê-a-ba com paciência e perseverança.

Não há tempo para almoço. Eu também sou pequena e preciso ir para outra escola. Tenho mais sorte, estudo de graça em uma escola particular, no São João do Tauape. As carteiras são de um azul celeste apaziguador e a turma da Mônica está viva segurando letras que se confundem nas paredes. Minha vez de estudar é o segundo turno de trabalho dela. A sala é colorida com cartazes em cartolina e isopor feitos pela professora dedicada. E foi ela mesma quem pegou na minha mão desenhando formas arredondadas em cadernos de caligrafia. Primeiro desenhos, depois letras, sílabas, palavras, que um dia viriam a ser o meu instrumento de trabalho. Eu só pensava na coxinha do recreio, ela via além.

Mas aquela professora ainda teria uma terceira missão no dia: ensinar adultos o que eu tinha o privilégio de aprender aos 4 e 5 anos. Também caminhávamos para chegar à escola em uma comunidade que ladeia a Avenida Raul Barbosa. Paredes remendadas com cimento à mostra, estudantes de chinela de dedo e olheiras profundas. Acompanhando a jornada noturna, vi a obstinada professora ter que impedir uma aluna de jogar uma bomba, a velha rasga-lata, na sala de aula.

Por vezes era professora e também mãe daqueles que não tiveram a chance de se educar no tempo certo.

Ali a situação era mais delicada, mas nunca desistiu. Mesmo os mais dispersos demonstravam respeito por aquela mulher. Minha professora na escola e na vida. Minha mãezinha.

Às 23h, em casa, sentava comigo na mesa. De um lado ensinando meus deveres, do outro cumprindo os dela: corrigir tarefas, elaborar provas, se dedicar ao dever de não privar suas crianças do direito de ter educação.

Dona Wany foi a primeira professora de muitos nessa Fortaleza. Uma mulher com tamanha vocação que nasceu hoje, há 68 anos, no dia do professor. O salário baixo a obrigou a ter três empregos para que também sua filha pudesse se dedicar unicamente a escola. 

Me comove tamanha dedicação na contramão do mínimo reconhecimento. A vida dela foi educar contra todos os obstáculos. Hoje aposentada, cumpriu sua missão. Por onde passa encontra alunos saudosos, muitos agradecidos. Reacende em mim a esperança de que saibamos valorizar quem nos ensinou a ser quem somos: nossos professores.

Tenho sorte. Ainda hoje convivo com minha professora, minha mãezinha. Ela me ensina eternamente. Inclusive a fazer aquele café forte, que continua fumegando na nossa cozinha.

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