Mesmo durante a pandemia, apadrinhamento de crianças e adolescentes em abrigos continua

Os padrinhos em potencial podem fazer o cadastro de forma online; a análise dos candidatos acontece em uma reunião por videoconferência

Escrito por Redação,

Metro
Várias crianças esperam a oportunidade de ganhar um novo lar
Legenda: Várias crianças esperam a oportunidade de ganhar um novo lar
Foto: Viviane Pinheiro

Crianças e adolescentes dos 21 abrigos de Fortaleza podem ser apadrinhados, mesmo durante a pandemia. Desde 2015, a iniciativa permite que jovens, em sua maioria os que não se enquadram nos perfis mais procurados para adoção, possam ter uma convivência familiar e comunitária. Por causa das medidas de proteção à Covid-19, o processo de cadastro para apadrinhar passou a ser feito completamente online.  

O projeto é dividido em três possibilidades: afetivo, financeiro e prestação de serviços. No afetivo o padrinho deve se comprometer em desenvolver laços, estando presente na unidade de acolhimento e integrando a rotina da criança. O financeiro atende às necessidades do acolhido, desde estudos e atividades extracurriculares, eventual tratamento médico, odontológico ou qualquer outro associado à saúde física e mental. E o último, prestação de serviços, permite atividades em que o voluntário tem conhecimento técnico, podendo ser realizado, inclusive, por pessoa jurídica. 

Segundo o defensor público Adriano Leitinho Campos, titular da 3ª Defensoria Pública da Infância e Juventude da Cidade de Fortaleza, o padrinho ou a madrinha podem escolher o perfil da criança que será agraciada, como também o tipo de apadrinhamento.  

Com a pandemia, o atendimento presencial na Defensoria Pública e no setor de apadrinhamento, localizado no Fórum Clóvis Beviláqua, passaram a acontecer em ambiente virtual. Quem se interessar pelo projeto, deve entrar em contato pelo telefone 85 3488.6002 ou por e-mail – apadrinhamento @tjce.jus.br. A análise dos candidatos acontece em uma reunião por videoconferência.  

Durante este período, os padrinhos afetivos têm permissão para levar os afilhados para casa. Essa é outra medida de proteção contra o coronavírus que possibilita a diminuição de aglomerações nas unidades e evita que a criança esteja mais exposta. “É até preferível, se a gente conseguir colocar ela em uma família, vamos conseguir uma maior segurança”, informa o defensor. 

No entanto, Adriano destaca que apadrinhar não envolve a guarda das crianças e nem está relacionado ao processo de adoção. Quando determinado, a criança deve voltar à sua rotina normal no abrigo, e para que não haja traumas, ela e o responsável serão acompanhados por psicólogos. "Há toda uma preparação na cabeça da criança e do padrinho. Ele tem que ter consciência que não poderá adotá-la, salvo se entrar no Sistema Nacional de Adoção. E não pode passar na frente de quem já está na fila”, explica. 

Porém, o defensor público ressalta que o projeto também objetiva estimular a busca pela adoção. “E a gente vem conseguindo. Eles começam a conhecer a criança e acabam solicitando a inclusão no Sistema Nacional de Adoção”. 

Relação em tempos de pandemia    

Com a continuidade do apadrinhamento durante a pandemia do novo coronavírus, as mudanças não são observadas apenas do cadastro. A solução para substituir as visitas presenciais são as vídeo chamadas ou ligações telefônicas. O que vale é não perder o contato. 

É o que faz a juíza de paz, Fernanda Cabral. Ela é voluntária da Associação Madre Paulina há sete anos e, como conquistou uma relação afetuosa com todas as crianças, não conseguiu apadrinhar apenas uma. “Quando eu comecei a frequentar a associação eu tive interesse de ser madrinha afetiva de uma criança, mas eu vi que não ia dar certo porque estava muto apegada às crianças e elas a mim. Resolvi fazer prestação de serviços e todas são minhas afilhadas”, detalha. 

A participação de Fernanda, que envolvia contação de histórias, montagem de teatrinho e aulas de artesanato, agora acontece de forma virtual. O ambiente de interação pode ter mudado, mas engana-se quem pensa que o relacionamento com os jovens sofreu alguma alteração. “Eu tenho um amor muito grande por todas as crianças. Eu converso com as adolescentes, dou esse apoio, mostro que são muito queridas e que podem ser felizes mesmo nesse contexto. Eu converso muito sobre estudos também, que é muito importante”, afirma. 

Como o apadrinhamento da juíza de paz também envolve responsabilidades materiais, ela conta que faz parte de grupos que ajudam nas doações de mantimentos para a associação e pede ajuda a um dos filhos, que é médico, para examinar as crianças quando necessário. “Eu ajudo com o que eu posso. Quero que elas tenham uma referência de vida, não quero que se sintam menores que os outros só porque estão no abrigo”, finaliza.