Médicos cearenses avaliam eficácia da hidroxicloroquina após recomendação de abandono do uso

Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu, nesta sexta-feira (17), um informe recomendando o abandono "urgente" do medicamento para qualquer fase do tratamento da Covid-19

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 16:51)

A Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu, nesta sexta-feira (17), um comunicado recomendando o abandono “urgente e necessário” da hidroxicloroquina para qualquer fase do tratamento da Covid-19.

Segundo a entidade, a medida tem como base dois estudos clínicos robustos publicados no dia 16 de julho – um realizado nos Estados Unidos/Canadá e outro na Espanha. As pesquisas avaliaram a eficácia e segurança do medicamento no tratamento de pacientes durante os primeiros dias de sintomas do novo coronavírus e encontraram ineficácia do remédio e ainda efeitos colaterais.

“Com essas evidências científicas, a SBI acompanha a orientação que está sendo dada por todas as sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da Covid-19”, reforça o informe.

Além disso, a Sociedade propõe que os agentes públicos – incluindo municípios, estados e Ministério da Saúde – “reavaliem suas orientações de tratamento, não gastando dinheiro público em métodos que são comprovadamente ineficazes e que podem causar efeitos colaterais”.

Diante da nova resolução, médicos cearenses avaliam a eficácia da hidroxicloroquina. Presidente da Sociedade Cearense de Infectologia, Guilherme Henn afirma que a entidade estadual segue o posicionamento da SBI.

“Temos resultados bastante conclusivos em relação à completa ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, seja no sentido de reduzir a carga viral do coronavírus, seja no de reduzir mortalidade”, diz. “Esses mesmos estudos, inclusive, mostram aumento de mortalidade por arritmias cardíacas nos grupos que fazem uso de hidroxicloroquina, o que reforça o fato de ela não ser utilizada nesses tratamentos”.

Nesse sentido, o infectologista lamenta que ainda existam grupos hospitalares e médicos, de maneira isolada, prescrevendo a substância dentro do que ele chama de “kits mágicos”, trazendo uma rápida cura para a doença 

“Não é assim que se trata a Covid-19, mas acompanhando diariamente o paciente, identificando precocemente que sinais de complicação podem estar acontecendo e fazendo com que os tratamentos efetivos –  basicamente o uso de corticoides para pacientes que tenham formas mais severas da doença – possam ser iniciados para aqueles que têm indicação de uso, dentro dos protocolos estabelecidos, baseados em evidências científicas”, situa.

Reforço

Professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Mônica Façanha avalia que, embora a questão envolvendo o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 sempre tenha sido permeada por polêmicas, é fato que a substância nunca se mostrou efetiva.

“O grande problema é que, como a Covid-19 é uma doença ‘benigna’ na maioria das pessoas – 80% delas ficam boas sozinhas –, muitas delas acharam que não teriam tido complicação ou piora no quadro porque tinham tomado a cloroquina. Assim, o uso desse medicamento no início foi à base do ‘desespero’. Não havia muito o que fazer para tratar a doença e existia essa possibilidade de alguma utilidade da substância”, observa.

“Mas, nessa época, não tinha nada de mais substancial para aprovar esse uso. E, à medida que o tempo está passando, a utilização do fármaco está se mostrando cada vez menos efetiva. Não sei bem como está a situação com relação a isso no interior do Ceará, onde os casos estão agora mais frequentes, mas, em Fortaleza, sinto que as pessoas estão tomando mais consciência sobre o uso do medicamento”, completa.

A opinião entra em sintonia com a de Keny Colares, médico, professor e integrante do grupo de pesquisa em virologia da Universidade de Fortaleza. Ele afirma que, no Ceará, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) passou a recomendar o uso da hidroxicloroquina logo no começo da pandemia, quando havia muito menos informações sobre o assunto do que há agora. 

Saiu uma nota técnica no dia 23 de março informando que o uso ainda era muito precoce e não havia informações robustas, mas o medicamento era utilizado em outros países. Então, para aqueles pacientes internados em estado mais grave, o médico deveria considerar utilizar ou não a hidroxicloroquina, conversando com o próprio paciente ou familiares para tomar essa decisão e tentar beneficiar o quadro”, contextualiza.

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A partir daí, o médico situa outra perspectiva da Sesa em nota emitida no dia 25 de maio. “Ali, a Secretaria retira essa recomendação porque, nesse intervalo de dois meses, já vinha surgindo uma série de estudos mostrando que não existiam benefícios, alguns mesmo dizendo que poderia haver riscos, especialmente de alterações no ritmo do coração dos pacientes”.

Desde a data, segundo ele, a orientação do órgão é a não-utilização de medicações de forma generalizada, somente levando em conta a minoria dos pacientes que estiverem apresentando manifestações mais graves da doença. “Algumas coisas podem ser feitas a nível de ambulatório e o restante, boa parte do tratamento, a nível hospitalar. Então, o uso da substância já foi banido da prescrição”, complementa Keny.

Uso associado

Por sua vez, Anastácio Queiroz, médico e professor da Universidade Federal do Ceará, afirma que nunca foi a favor da utilização isolada da hidroxicloroquina; contudo, defende o uso associado da substância com outras, a exemplo da azitromicina, vitamina D e zinco. “Tenho feito isso desde o início da doença, em março, e o resultado é espetacular”, dimensiona.

“A hidroxicloroquina é uma droga segura. Há evidências, como o trabalho do professor Didier Raoul, na França, por exemplo. E um estudo recentemente realizado em Detroit (EUA), mostra a eficiência da hidroxicloroquina associada à azitromicina”, diz.

A primeira pesquisa que o médico menciona, realizada em território francês, também apontava resultados positivos decorrentes do tratamento com hidroxicloroquina combinada ao antibiótico azitromicina. O estudo teve grande repercussão e ganhou popularidade ao ser difundido pela Fox News, nos Estados Unidos. No dia 22 de maio, contudo, o trabalho, que não havia sido publicado em revista científica, foi excluído do repositório de pesquisas medRxiv.

“Nunca preconizei, e acho que ninguém nunca preconizou, o uso do medicamento sozinho. Mas o uso associado é benéfico, baseado na experiência de milhares de médicos que estão recomendando isso. Para uso isolado, contudo, não há nenhum trabalho falando em tratamento precoce assim”, reitera.

Anastácio acredita ainda que, em pacientes graves, por exemplo, a substância realmente não deve ser utilizada, ou raramente. Ele diz que o uso deve acontecer antes do doente chegar na fase inflamatória, a mais grave. “Por isso, quero enfatizar que, num tratamento precoce, a hidroxicloroquina associada à azitromicina, zinco e vitamina D demonstra resultados muito bons”.

Guilherme Henn contrapõe essa visão. De acordo com o presidente da Sociedade Cearense de Infectologia, nos estudos que avaliam o uso da hidroxicloroquina em Covid-19, o aumento do número de óbitos nos grupos que fazem uso da substância foi especialmente evidenciado no grupo que fez associação de hidroxicloroquina com azitromicina. 

“O motivo disso é que esses dois medicamentos têm potencial de provocar arritmias. Isoladamente, esse potencial de cada um desses fármacos é pequeno, mas, quando eles são associados e colocados para serem usados em um paciente que tem uma doença pró-arrítmica – a gente sabe que o coronavírus infecta as células do coração e pode precipitar, por si só, arritmias – tem-se um prato cheio para acontecer arritmias que podem, por vezes, ser fatais”, conclui.

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