"Já estamos preparados na UFC para enfrentar uma grande crise", afirma reitor

Cândido Albuquerque fala de obstáculos financeiros e cortes de gastos e ressalta que apoio aos estudantes vulneráveis e manutenção da qualidade do ensino são prioridades

Legenda: Reitor confirmou os cortes de verbas já iniciados pelo MEC e que 2021 será ainda pior
Foto: Thiago Gadelha

A pandemia de Covid-19 evidenciou e agravou diversos problemas históricos da educação pública. Se em 2019 a Universidade Federal do Ceará (UFC) registrou cortes orçamentários, com a perda, por exemplo, de centenas de bolsas de pesquisa e extensão, para 2021 a perspectiva não é animadora, em razão do impacto da pandemia da Covid-19. Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o reitor da UFC, Cândido Albuquerque, que completa um ano de gestão neste mês, confirmou que os cortes de verbas já foram iniciados pelo Ministério da Educação, e que o cenário de crise deve se agravar em 2021.

Que balanço faz desse primeiro ano de gestão?

Foi possível realizar grandes obras e implementar uma série de propostas, apesar de ter sido um ano extremamente desafiador e difícil já na nossa chegada. O grande problema é que recebemos a Universidade com muitas obras paralisadas. Temos um campus em Itapajé construído e fechado há três anos. A UFC precisava passar por uma modernização, e a administração superior se propôs a vocacionar a Universidade para a pesquisa, inovação e empreendedorismo. Fizemos um convênio com a Universidade de Nankai, na China, que integra projetos nossos na área de inteligência artificial. Estamos inaugurando agora o Condomínio de Empreendedorismo e Inovação, e teremos uma unidade da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) na Universidade. Medidas que deram outra visibilidade à UFC. Além desses desafios, precisamos conviver com a pandemia. Mas foi super importante verificar que a universidade se mobilizou, entendeu nosso chamamento para a necessidade de pesquisas aplicadas com impacto social. O mundo inteiro teve prejuízos, mas os nossos foram minimizados, exatamente pela disposição e compreensão de que não era bom paralisar, suspender calendário. Todas as universidades que fizeram isso estão pagando um preço muito caro. Mantivemos, e durante 90 dias disponibilizamos vários cursos, tutoriais, programas de reciclagem e conhecimento na área virtual, o que capacitou nossa comunidade para atividades remotas. Inclusive algumas disciplinas práticas estão sendo feitas a distância.

Quanto ao Campus de Itapajé, que o senhor citou, quando será finalizado?

Estamos redimensionando os cursos para atender à vocação e às necessidades da região, que precisa, por exemplo, formar professores. Isso precisa ser atendido. Sexta (15), vamos nos reunir com autoridades locais, para definir quais cursos vamos implementar lá. Depois disso, vamos inaugurar concursos que atendam a anseios da região, e colocar o campus para funcionar no primeiro semestre de 2021. Reduzimos custos na Universidade, com a venda de carros e o uso de energia solar, por exemplo, e isso permitiu que fizéssemos um investimento de R$ 20 milhões, que deve ser anunciado em breve, para concluir o campus e também obras que estão paradas há seis ou sete anos. Vamos concluir três laboratórios que estão parados.

No contexto da pandemia, qual foi a contribuição da UFC?

A Universidade apoiou fundamentalmente o Governo do Estado e a Prefeitura. Além de emprestarmos alguns equipamentos, como respiradores, camas e leitos hospitalares completos, e nosso Complexo Hospitalar ter trabalhado intensamente no combate à Covid-19, nós desenvolvemos o Elmo, capacete de respiração assistida, em conjunto com a Universidade de Fortaleza, a Fiec, o Senai, a Esmaltec, a Funcap. Construímos em três meses um equipamento que já está salvando vidas e que terá aplicação para o resto da existência. Foi uma criação absolutamente cearense, com um grande significado social. Desenvolvemos plataformas, pesquisas. Do ponto de vista do combate à pandemia, a UFC teve uma participação fundamental.

O que a UFC fez e o que pretende fazer para minimizar os impactos aos estudantes mais vulneráveis?

Durante esse período, desenvolvemos a maior ação de inclusão digital da história da UFC. Além de implantar sistema de Wi-Fi nas residências universitárias, distribuímos 6 mil chips de alta velocidade para os estudantes e um auxílio digital, para que pudessem comprar seus próprios equipamentos. Se não fosse a pandemia, essa ação iria demorar. E ela não vale apenas para a pandemia: inclui o aluno vulnerável para a vida. Estamos habilitando o aluno para que ele tenha igualdade e competitividade no mercado de trabalho. Nesse período, por exemplo, criamos um programa que simula um microscópio. Isso é fundamental, porque o aluno sai da universidade, mas a leva com ele para casa.

As aulas remotas requerem preparo. Os docentes e discentes estavam prontos?

A primeira coisa que fizemos foi uma pesquisa para conhecermos nossa realidade. Nossa comunidade já estava conectada, mas alguns alunos vulneráveis tinham conexão de má qualidade. Tivemos a preocupação de melhorar essa conectividade, para que o aluno pudesse acompanhar as atividades remotas. Fizemos um planejamento, que está sendo executado desde 20 de julho, para terminar o semestre 2020.1. Analisamos quais atividades poderíamos fazer inteiramente remotas, quais as híbridas e quais teremos de fazer obrigatoriamente de forma presencial. E demos a liberdade aos nossos professores, para cada um apresentar seu planejamento para terminar o semestre, considerando as características da sua disciplina e de seus alunos. É isso que representa o Plano Pedagógico Emergencial: a conclusão do semestre com segurança, reduzindo o máximo possível de prejuízos da pandemia. Tivemos pouquíssimos casos de trancamentos, menos de 100, e um número assustador de novas matrículas e turmas. Isso mostra que a comunidade está acreditando na conclusão do semestre.

Diante dessa pandemia, como ficará, então, o calendário da instituição?

O semestre 2020.1 vai terminar em outubro, porque temos algumas áreas com atividades presenciais mais fortes. Estamos permitindo que o professor conclua o semestre de maneira satisfatória. Entre novembro e dezembro, começamos o 2020.2, após um pequeno período de férias, para os professores se organizarem e planejarem. E vai até março ou abril do ano que vem. Só vamos regularizar o ano letivo em 2022. Até porque temos o Enem e o Sisu: não dá para começar o semestre 2020.2 sem termos os alunos. Mas vamos reduzir muito os prejuízos que essa pandemia poderia causar.

Além da pandemia, sua gestão enfrentou cortes de verbas e bolsas. A crise sanitária deve intensificar essas perdas?

Sabemos que será um ano muito difícil. A grande dificuldade da pandemia não passou: os efeitos econômicos serão ainda mais amargos a partir de outubro ou novembro. É aí que vamos sentir. O Estado está arrecadando pouco, os municípios estão em dificuldade, e a União vai ter de socorrer. Vai faltar dinheiro. Já estamos preparados na UFC para enfrentar uma grande crise. Já fizemos muitos ajustes e estamos fazendo outros. Semana passada, o Ministério (da Educação) já cortou parte do nosso orçamento para 2021, foi um corte significativo. E é só o começo: outros virão. É um cenário difícil, temos de saber administrar os recursos, para a qualidade da universidade não cair e para que os alunos vulneráveis continuem sendo amparados.

Por outro lado, esse cenário pode deixar algum legado para o futuro da UFC?

A pandemia nos mostrou que a Universidade é capaz de superar dificuldades, que tem uma capacidade de pesquisa muito maior do que imaginava. Que nós temos como fazer boas pesquisas, empreendedorismo, inovar. A grande lição é que a UFC se reinventou, as pessoas se sentiram mais capazes. E esse será o grande legado. Isso despertou na comunidade uma capacidade que estava latente, e agora está exposta. Você ver a Universidade produzir ciência como estávamos produzindo durante a pandemia, tendo aulas a distância, inclusive práticas; novas plataformas sendo criadas, professores que passaram a ter habilidade em lidar com a área virtual que não tinham antes; é a grande lição que fica. Isso vai ser fundamental pra gente enfrentar as dificuldades do ano que vêm sem deixar cair a qualidade do nosso ensino, da pesquisa e da extensão.

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