Itaoca ´imprensada´ por bairros circunvizinhos
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Redação
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Moradores denunciam que o local está abandonado. Faltam espaços de integração, como praças e igrejas
"Aqui era Pirocaia, Estrada do Gado e Cocorote. Era também Itaoca, mas depois que criaram o Montese, o pessoal só chama de Montese". A frase do morador Francisco Cícero de Oliveira, 59, resume bem a situação da Itaoca. O pequenino bairro de aproximadamente 15 mil habitantes é pouco reconhecido, especialmente por aqueles que lá residem. Difícil é encontrar um morador que diga ser da Itaoca, todos são do Montese, Serrinha ou da Parangaba.
Por estar situado entre esses três bairros, o local também é chamado pela comunidade de "paramotoquinha". O dilema em torno dos seus limites é tão grande, que até mesmo as correspondências são confusas.
"É horrível, minha conta de telefone vem Itaoca e a de luz vem Montese. Não sei ao certo o que é, só sei que moro por aqui", responde a dona de casa Edileuza do Vale, 42, que há 10 anos mora na Rua Equador. Até o carteiro brinca com as delimitações. Ao ser questionado se ali era Itaoca, de prontidão ele responde: "Pode ser. Mas, se quiser, pode ser também Montese, Serrinha, você escolhe".
Abandono
Para o taxista Antônio Custódio da Silva, 64, é um bairro bom de se morar. Porém, conta com alguns problemas, como a insegurança e as ruas que estão completamente esburacadas. "É um bairro bom, mas está totalmente abandonado", lamenta. O morador reclama que não existe policiamento. Há menos de um mês, relata seu Antônio, sua esposa foi assaltada na Rua Almirante Rubim, praticamente na porta de sua residência.
Morar na Itaoca significa também estar acostumado com aviões passando dia e noite bem próximo às residências. A diarista Maria Josefa dos Santos, 48, sabe bem o que é isso. Ela conta que quando foi morar no bairro, na Rua 15 de Novembro, o barulho era tão grande, que teve que se mudar. A falta de espaços de lazer, contudo, é um dos quesitos que mais deixa a desejar.
Moradores reclamam que faltam praças, igrejas e locais de entretenimento à população, especialmente para os jovens, que sem muitas oportunidades acabam ingressando no mundo das drogas. Faltam também agência bancária, farmácia e hospital.
De acordo com a Secretaria Executiva Regional (SER IV), os únicos equipamentos que o bairro possui é um Centro de Saúde - Ocelo Pinheiro; e a Escola Carolina Sucupira. Para os moradores, a opção que resta é o vizinho Montese, que funciona como principal ponto de apoio, especialmente para o comércio.
Conflito
Outro equipamento com bairro indefinido é a Escola de Ensino Médio e Fundamental João Matos, localizada na Rua Almirante Rubim. A diretora da unidade, Sandra Coelho, diz que este é um conflito constante. Inclusive, acrescenta a educadora, a correspondência vem tanto Montese como Itaoca. Confusões a parte com os limites, ela frisa que trata-se de um bairro residencial onde o comércio tem se desenvolvido bastante, prova disso é que vários alunos acabam ingressando no comércio. "É um misto de bairro residencial e comercial", explica.
Entretanto, o que mais Sandra sente falta é de uma Praça Poliesportiva que sirva de atrativo tanto para os 1.050 alunos da Escola João Matos como para os jovens da comunidade.
"Precisa investir mais no atendimento aos jovens. É uma questão até de prevenção, para tirar a juventude das drogas". A diretora acrescenta que faltam políticas de paz não só na Itaoca, mas em toda Cidade. Não é um bairro tão intranquilo como outro, com violência tão acirrada, mas a violência está presente. Em 2009, um estudante foi assassinado na volta para casa, após tentativa de assalto.
ALERTA
Via férrea corta metade do bairro
Uma característica marcante da Itaoca é a via férrea, que corta praticamente metade do bairro. Várias ruas levam ao trilho. O problema, no entanto, é a falta de cancelas alertando a chegada do trem. Moradores se queixam dos riscos e relatam que acidentes são comuns.
"Esse trilho é um perigo. Tem alguns lugares da Cidade que quando o trem vem, tem aquelas cancelas de segurança, mas aqui nunca teve. Vez por outra acontece acidente", conta a dona de casa Edileuza do Vale, 42, que mora na Rua Equador, ao lado da via férrea. O trem corta ainda as Ruas Elcias Lopes, Peru, Livino de Carvalho, Antônio Fiuza, Outono, Colômbia, Júlio Verne, Germano Frank e Guará.
Passado
A história do bairro conta com lendas famosas, como a do cão da Itaoca. O historiador Raimundo Ximenes diz que o mito surgiu na década de 1940, narrada pelo jornalista Oseias Martins, publicada nos jornais Correio do Ceará, Unitário e na rádio. "Foi uma celeuma danada. Teve até romaria para a Itaoca. Todo mundo queria saber o que estava acontecendo por lá".
De acordo com a lenda, no beco da Itaoca, na casa de número 202, aparecia um cão com espeto na mão. A confusão foi tão grande, que o jornalista teve que mudar de cidade, foi parar na Amazônia. O beco é célebre, era lá que localizava-se a principal fonte de água da Pirocaia. "Era a melhor água da Cidade. De lá era distribuía para toda a Cidade, através de uma carroça. Isso antes do advento da Cagece", destaca Ximenes.
O bairro foi também sede da empresa de ônibus Tabajara. Naquela época, todas as linhas eram batizadas com nome de índio. Sem saber precisar a data exata do surgimento do bairro, o historiador Raimundo Ximenes diz que trata-se de um bairro muito antigo, um dos primeiros fundados na Cidade. "Quando cheguei aqui, ainda em 1946, a Itaoca já existia. É um bairro muito antigo. Morou muita gente importante aqui".
Entre eles, major Espinheiro. Foi na casa dele que apareceu o famoso cão da Itaoca. Passaram por lá ainda o advogado Romeu Coelho Martins, que de julho a outubro de 1946, foi prefeito de Fortaleza. Hoje, em homenagem a sua pessoa, um beco leva seu nome. "Antigamente não tinha rua, era tudo beco".
Aldenor Rabelo Maia, proprietário da empresa Tabajara, foi um dos desbravadores do bairro. Onde hoje existem casas e comércios, antigamente era só mato. Moradores importantes tinha sítios que usavam para diversão. Hoje, no entanto, o bairro não tem nada. Foi engolido pelo vizinho Montese, que cresceu e ganhou status. Como possui território pequeno, é um bairro que não está em evidência, representa apenas a história da Fortaleza provinciana.
Abandono
Bom
A vizinhança é um dos poucos pontos positivos do bairro, apontados pelos moradores. Devido a sua pequena extensão e população, grande parte tem como ponto de apoio bairros vizinhos como o Montese, onde o comércio se desenvolveu mais rapidamente, ganhando status
Mau
Faltam espaços de lazer. O bairro não conta com praças, nem igrejas. Além disso, populares reclamam da insegurança e das crateras espalhadas na malha viária. Um fato, no entanto, chama atenção; Grande parte dos moradores não admite morar na Itaoca, mas sim em bairros vizinhos, mais desenvolvidos
LUANA LIMA
REPÓRTER
"Aqui era Pirocaia, Estrada do Gado e Cocorote. Era também Itaoca, mas depois que criaram o Montese, o pessoal só chama de Montese". A frase do morador Francisco Cícero de Oliveira, 59, resume bem a situação da Itaoca. O pequenino bairro de aproximadamente 15 mil habitantes é pouco reconhecido, especialmente por aqueles que lá residem. Difícil é encontrar um morador que diga ser da Itaoca, todos são do Montese, Serrinha ou da Parangaba.
Por estar situado entre esses três bairros, o local também é chamado pela comunidade de "paramotoquinha". O dilema em torno dos seus limites é tão grande, que até mesmo as correspondências são confusas.
"É horrível, minha conta de telefone vem Itaoca e a de luz vem Montese. Não sei ao certo o que é, só sei que moro por aqui", responde a dona de casa Edileuza do Vale, 42, que há 10 anos mora na Rua Equador. Até o carteiro brinca com as delimitações. Ao ser questionado se ali era Itaoca, de prontidão ele responde: "Pode ser. Mas, se quiser, pode ser também Montese, Serrinha, você escolhe".
Abandono
Para o taxista Antônio Custódio da Silva, 64, é um bairro bom de se morar. Porém, conta com alguns problemas, como a insegurança e as ruas que estão completamente esburacadas. "É um bairro bom, mas está totalmente abandonado", lamenta. O morador reclama que não existe policiamento. Há menos de um mês, relata seu Antônio, sua esposa foi assaltada na Rua Almirante Rubim, praticamente na porta de sua residência.
Morar na Itaoca significa também estar acostumado com aviões passando dia e noite bem próximo às residências. A diarista Maria Josefa dos Santos, 48, sabe bem o que é isso. Ela conta que quando foi morar no bairro, na Rua 15 de Novembro, o barulho era tão grande, que teve que se mudar. A falta de espaços de lazer, contudo, é um dos quesitos que mais deixa a desejar.
Moradores reclamam que faltam praças, igrejas e locais de entretenimento à população, especialmente para os jovens, que sem muitas oportunidades acabam ingressando no mundo das drogas. Faltam também agência bancária, farmácia e hospital.
De acordo com a Secretaria Executiva Regional (SER IV), os únicos equipamentos que o bairro possui é um Centro de Saúde - Ocelo Pinheiro; e a Escola Carolina Sucupira. Para os moradores, a opção que resta é o vizinho Montese, que funciona como principal ponto de apoio, especialmente para o comércio.
Conflito
Outro equipamento com bairro indefinido é a Escola de Ensino Médio e Fundamental João Matos, localizada na Rua Almirante Rubim. A diretora da unidade, Sandra Coelho, diz que este é um conflito constante. Inclusive, acrescenta a educadora, a correspondência vem tanto Montese como Itaoca. Confusões a parte com os limites, ela frisa que trata-se de um bairro residencial onde o comércio tem se desenvolvido bastante, prova disso é que vários alunos acabam ingressando no comércio. "É um misto de bairro residencial e comercial", explica.
Entretanto, o que mais Sandra sente falta é de uma Praça Poliesportiva que sirva de atrativo tanto para os 1.050 alunos da Escola João Matos como para os jovens da comunidade.
"Precisa investir mais no atendimento aos jovens. É uma questão até de prevenção, para tirar a juventude das drogas". A diretora acrescenta que faltam políticas de paz não só na Itaoca, mas em toda Cidade. Não é um bairro tão intranquilo como outro, com violência tão acirrada, mas a violência está presente. Em 2009, um estudante foi assassinado na volta para casa, após tentativa de assalto.
ALERTA
Via férrea corta metade do bairro
Uma característica marcante da Itaoca é a via férrea, que corta praticamente metade do bairro. Várias ruas levam ao trilho. O problema, no entanto, é a falta de cancelas alertando a chegada do trem. Moradores se queixam dos riscos e relatam que acidentes são comuns.
"Esse trilho é um perigo. Tem alguns lugares da Cidade que quando o trem vem, tem aquelas cancelas de segurança, mas aqui nunca teve. Vez por outra acontece acidente", conta a dona de casa Edileuza do Vale, 42, que mora na Rua Equador, ao lado da via férrea. O trem corta ainda as Ruas Elcias Lopes, Peru, Livino de Carvalho, Antônio Fiuza, Outono, Colômbia, Júlio Verne, Germano Frank e Guará.
Passado
A história do bairro conta com lendas famosas, como a do cão da Itaoca. O historiador Raimundo Ximenes diz que o mito surgiu na década de 1940, narrada pelo jornalista Oseias Martins, publicada nos jornais Correio do Ceará, Unitário e na rádio. "Foi uma celeuma danada. Teve até romaria para a Itaoca. Todo mundo queria saber o que estava acontecendo por lá".
De acordo com a lenda, no beco da Itaoca, na casa de número 202, aparecia um cão com espeto na mão. A confusão foi tão grande, que o jornalista teve que mudar de cidade, foi parar na Amazônia. O beco é célebre, era lá que localizava-se a principal fonte de água da Pirocaia. "Era a melhor água da Cidade. De lá era distribuía para toda a Cidade, através de uma carroça. Isso antes do advento da Cagece", destaca Ximenes.
O bairro foi também sede da empresa de ônibus Tabajara. Naquela época, todas as linhas eram batizadas com nome de índio. Sem saber precisar a data exata do surgimento do bairro, o historiador Raimundo Ximenes diz que trata-se de um bairro muito antigo, um dos primeiros fundados na Cidade. "Quando cheguei aqui, ainda em 1946, a Itaoca já existia. É um bairro muito antigo. Morou muita gente importante aqui".
Entre eles, major Espinheiro. Foi na casa dele que apareceu o famoso cão da Itaoca. Passaram por lá ainda o advogado Romeu Coelho Martins, que de julho a outubro de 1946, foi prefeito de Fortaleza. Hoje, em homenagem a sua pessoa, um beco leva seu nome. "Antigamente não tinha rua, era tudo beco".
Aldenor Rabelo Maia, proprietário da empresa Tabajara, foi um dos desbravadores do bairro. Onde hoje existem casas e comércios, antigamente era só mato. Moradores importantes tinha sítios que usavam para diversão. Hoje, no entanto, o bairro não tem nada. Foi engolido pelo vizinho Montese, que cresceu e ganhou status. Como possui território pequeno, é um bairro que não está em evidência, representa apenas a história da Fortaleza provinciana.
Abandono
Bom
A vizinhança é um dos poucos pontos positivos do bairro, apontados pelos moradores. Devido a sua pequena extensão e população, grande parte tem como ponto de apoio bairros vizinhos como o Montese, onde o comércio se desenvolveu mais rapidamente, ganhando status
Mau
Faltam espaços de lazer. O bairro não conta com praças, nem igrejas. Além disso, populares reclamam da insegurança e das crateras espalhadas na malha viária. Um fato, no entanto, chama atenção; Grande parte dos moradores não admite morar na Itaoca, mas sim em bairros vizinhos, mais desenvolvidos
LUANA LIMA
REPÓRTER