Imunizar gestantes com vacinas diferentes é viável no Ceará? Veja a opinião de especialistas

Vacinação desse grupo foi suspensa pelo Ministério da Saúde no último mês de maio após efeitos adversos relacionados à AstraZeneca. Orientação segue somente para mulheres com comorbidades ou após o puerpério

Mulher grávida
Legenda: No Ceará, seis em cada dez óbitos de gestantes e puérperas atualmente decorrem de complicações da Covid-19
Foto: Camila Lima

Por causa de efeitos adversos relacionados à vacina produzida pela farmacêutica AstraZeneca com a Universidade de Oxford e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Ministério da Saúde decidiu, em maio, suspender a vacinação de gestantes e puérperas contra a Covid-19, recomendando o procedimento somente em casos de comorbidades associadas — com doses da CoronaVac ou da Pfizer — ou após o puerpério (período de 45 dias após o parto).

Desde então, gestores públicos e sociedade científica têm se reunido constantemente para avaliar os riscos e os benefícios da vacinação e modificar estratégias a fim de garantir a esse grupo a imunização completa contra a doença. Nesta terça-feira (29), em resposta ao problema, a prefeitura do Rio de Janeiro autorizou gestantes que tomaram a primeira dose de vacina da AstraZeneca a complementarem o esquema vacinal com doses da vacina da Pfizer.

No Ceará, ainda não há consenso sobre isso. No entanto, a tendência é seguir a estratégia do Rio, segundo a obstetra Liduína Rocha, integrante do Coletivo Rebento de Médicos em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS (Sistema Único de Saúde) e presidente do Comitê Estadual de Prevenção ao Óbito Materno, Fetal e Infantil da Secretaria da Saúde (Sesa).

“Em função do aumento significativo da mortalidade materna no Brasil”, justifica a obstetra. Só no Estado, ela diz, seis em cada dez óbitos de gestantes e puérperas atualmente decorrem de complicações da Covid-19. “Mudando completamente a série histórica, quando [antes] as causas [de morte] eram [próprias] da gravidez, como hipertensão e hemorragia”, explica.

A especialista pondera ainda que “a vacinação foi suspensa em função de um evento que está descrito na bula [da vacina] como possível, mas que tem probabilidade de 0,0004%, ou seja, uma chance em 250 mil [nascidos vivos]”.

Contudo, continua, “os estados entendem que, em função dos riscos que gestantes e puérperas sofrem, devem continuar [a vacinar] com outros imunizantes”.

O presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Leonardo Alcântara, também defende que, havendo disponibilidade de doses, o esquema vacinal de gestantes e puérperas seja complementado com uma vacina diferente. 

“A vacina da Pfizer tem eficácia superior à da AstraZeneca. E, apesar de não termos conclusões acerca dessa mudança de esquema, aparentemente, a eficácia vacinal, quando você combina as duas vacinas, passando da Astra pra Pfizer, é superior à eficácia fazendo somente AstraZeneca”, opina o presidente.

Segunda dose

A obstetra Nathalia Posso, 36, que está no nono mês de uma gestação e deveria tomar a segunda dose da AstraZeneca no início deste mês de julho, não se sente segura se não completar o esquema vacinal no tempo previsto. 

“A imunidade só é adquirida com a segunda dose. Apesar de a primeira ser muito eficaz, a gente só tem imunidade mesmo com a segunda”, afirma. E, segundo ela, enquanto a gestão pública não decide algo a respeito, “fica uma insegurança, uma incerteza” para as gestantes. “Outra coisa importante é que, quando as duas doses são realizadas durante a gestação, a gente tem o benefício da passagem de anticorpos pro bebê, via placentária ou aleitamento. Então, o ideal era que as duas doses fossem na gestação, mesmo com vacinas diferentes”.

Além disso, a médica comenta que, nesse momento, é preciso optar pelo que salvar mais.

É melhor tomar a vacina e diminuir o risco de contrair uma doença potencialmente grave e que pode levar ao óbito materno e fetal do que ficar com receio [dos eventos adversos]”
Nathalia Posso
Obstetra

Discussão nacional

Um fórum virtual promovido na noite desta terça-feira (29) pelo Ministério da Saúde discutiu com especialistas a imunização de gestantes e lactantes contra a Covid-19. Na ocasião, a atual secretária extraordinária de enfrentamento à pandemia, Rosana Leite de Melo, destacou o aumento de partos prematuros devido à pandemia e a diminuição das consultas pré-natal. 

Além disso, Melo ouviu da sociedade científica os prós e os contras de uma complementação da vacinação desse grupo com outro imunizante e, nesse caso, qual seria o ideal.

Dentre as opiniões, foi comentado que todas as vacinas que estão autorizadas no Brasil atualmente podem ser utilizadas. Contudo, havendo disponibilidade de outro imunizante, seria melhor evitar, nesse grupo, vacinas com vetor viral, como a da AstraZeneca.

Devido ao fato de que há pouco estudo científico sobre a segurança das vacinas contra a Covid-19 em gestantes e puérperas, no fórum, o pediatra e infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e integrante do Comitê Técnico que assessora o Programa Nacional de Imunizações (PNI), disse que as recomendações ministeriais “merecem revisões constantes”.

Casos e óbitos no Brasil

De acordo com o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Arnaldo de Medeiros, o número de registros de gestantes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Brasil desde o início da pandemia, em 2020, até hoje, já ultrapassa 73,9 mil. Desses, os casos de SRAG provocados por Covid-19 correspondem a 12,2 mil, com pouco mais de mil óbitos.

O gestor apresentou também o perfil das gestantes que mais são acometidas e que morrem pela Covid-19. Segundo ele, em 2021, a maior parte dos casos foi entre mulheres de 20 a 29 anos de idade (3,9 mil), pardas (4,2 mil), no terceiro trimestre da gravidez (5,6 mil). Já os óbitos prevaleceram na faixa etária de 30 a 39 anos (401), mas também em mulheres pardas (378) e no terceiro trimestre gestacional (422).

Eventos adversos

De maneira geral, entre 18 de janeiro deste ano até o último 23 de maio, o Ministério da Saúde havia registrado 74.563 eventos adversos pós-vacinação contra a Covid-19, sendo 70,1 mil não graves e 4,4 mil graves. Em gestantes, ainda segundo o Ministério, foram 415 efeitos não graves e 24 efeitos graves.

Vacinação no Ceará

Segundo o painel de transparência da vacinação no Ceará, até esta terça-feira (29), 3,1 mil gestantes e 636 puérperas haviam sido imunizadas contra a Covid-19.

O Diário do Nordeste solicitou à Sesa apenas o quantitativo de gestantes vacinadas em primeira dose com a AstraZeneca, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve retorno.

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