Igrejas do Centro mantêm público apesar de dificuldades

Edificações católicas construídas em anos de 1700 e 1800 continuam atraindo público, mesmo convivendo com questões urbanas de conservação e segurança. Templos guardam patrimônio histórico-religioso da Capital

Escrito por Thatiany Nacimento/Felipe Mesquita, metro@svm.com.br

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Legenda: Antes de ser considerada matriz, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo era uma capela que fazia referência à Nossa Senhora do Livramento, criada em 1850. Já em 1870, houve o aumento na estrutura da capela
Foto: FOTOS: CAMILA LIMA

Fazer o sinal da cruz no corpo ao passar em frente. Entrar para apreciar o patrimônio histórico-religioso, passar alguns minutos em oração ou se confessar. Ali mesmo, no meio da correria, da gritaria do comércio ambulante e do trânsito intenso, os templos religiosos centenários seguem atraindo frequentadores que, por costume, curiosidade ou afeição, fazem das igrejas do Centro de Fortaleza locais constantemente habitados. As igrejas, edificadas em anos de 1700 e 1800, narram a história da Capital e, embora no decorrer dos anos venham adaptando o funcionamento às limitações causadas pela sensação de insegurança do bairro e a dificuldade de conservação, continuam em atividade permanente no bairro.

É em uma delas que a vendedora Leônia Rodrigues passa o tempo de descanso do trabalho. Sentada. Cabeça baixa em oração. Ela conta que frequenta diariamente a pequena Igreja de São Bernardo, no encontro das ruas Senador Pompeu com Pedro Pereira. "Aqui vem muita gente que trabalha no Centro. Sempre tem movimento e fica aberta. Tem até uma missa cedo para os comerciantes", acrescenta. Para ela, a circulação no local é tranquila e os frequentadores, relata, "são pessoas que vão ao local há muitos anos".

Legenda: Construída em taipa e palha por negros nas proximidades da vila que se tornou a Praça General Tibúrcio, a Igreja do Rosário é a mais antiga de Fortaleza.

Na igreja de estilo simples, que possui três portas laterais gradeadas e duas portas principais de entrada, a estrutura física aparenta ter passado recentemente por manutenção. As portas estão pichadas. Mas, não há sinais de grande degradação. No local, que em 2018 teve altar, bancos, armários e janela depredados, além de uma quantia em dinheiro roubada durante uma madrugada, há missas diárias às 6h30. Depois, a igreja segue aberta até as 17h.

Na Igreja do Patrocínio, localizada a 500 metros da de São Bernardo, no entorno da Praça José de Alencar, as missas ocorrem quatro vezes ao dia 6h, 9h, 12h e 15h, na semana. E a presença de Raimunda Rodrigues Gomes, aposentada, é diária. Moradora de Messejana, Raimunda conta que há 25 anos frequenta a Igreja do Patrocínio. "Tinha uma amiga que me chamou para vir e desde então, eu venho todos os dias sempre às 15h". Nos fins de semana, a aposentada muda de templo, mas permanece no Centro. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus é a escolhida.

O zelador da Igreja do Patrocínio, Antônio Emídio de Oliveira, conta que, atualmente, a situação de segurança tem melhorado no local, mas ainda não é ideal. "A gente abre às 6 horas e já tem gente esperando. É muito frequentada, mas tem horário que fica muito deserto. Com essa obra na Praça (José de Alencar), ficou mais deserto ainda", reforça. A igreja segue conservada e, segundo ele, há três anos conta com cercas de segurança acima das grades que circundam a edificação.

Legenda: Construída em 1854 em material de taipa, a Igreja São Bernardo foi destruída por uma forte chuva.

Na Igreja do Carmo, o público é bastante diversificado: tem moradores do bairro que mantêm a tradição, visitantes de outras áreas da Capital, comerciantes e também turistas. No local, após arrombamentos, brigas e assaltos, em 2017, na reforma que revitalizou a edificação, foram instaladas grades, que passaram a ser fechadas à noite. A missionária da Comunidade Shalom, que atua na igreja, Márcia Gabriele, avalia que o local atrai bastante frequentadores, sobretudo, às sextas-feiras. Ela destaca que, além das celebrações, são realizados acolhimentos, como escutas, que também aproximam o público. Em relação ao funcionamento das igrejas no Centro, ela opina que "houve um processo histórico de valorização das igrejas, mas isso deixou de acontecer. Agora, é que estão retornando a ser o centro da construção de valores e voltam a ser valorizadas".

Dentre todos os templos católicos de Fortaleza, o mais antigo, datado de 1753, é a Igreja do Rosário. No local, de estilo barroco, o fluxo é constante, justamente, por esse diferencial. A igreja é aberta de 7h às 16h de terça a sexta. E atrai curiosos e também um público cativo. Todas as tardes, há um terço organizado de forma improvisada por quem costuma frequentar o local. "Tem muitos turistas, gente de fora, mas também é uma igreja que absolve pessoas bem humildes. Não que gente mais rica não venha, mas a gente nota que tem muita gente simples que gosta de vir aqui", avalia o engenheiro Francisco Zelmo dos Santos, frequentador das celebrações há 50 anos.

De acordo com ele, a tradição teve início quando ainda era criança e se deslocava até o Centro junto aos pais para fazer compras. Ele era levado às missas e desde então criou o hábito. Vai todos os dias à Igreja do Rosário. "Aqui, é um pedacinho do céu pra mim. Não digo isso com fanatismo não. Porque fanatismo faz é mal. Digo porque aqui sempre foi um refúgio", garante.

Situação crítica

Dentre as quatro igrejas visitadas pela reportagem, a do Rosário, é a que tem mais sinais de necessidade de reformas, além de acumular mais queixas quanto à segurança. Em 2019, o cofre da igreja foi levado em uma ação criminosa. Na avaliação do padre Clairton Alexandrino, pároco da Catedral de Fortaleza, de modo geral, as igrejas do Centro ainda padecem com a insegurança, mas a mais afetada é a do Rosário. "O problema é o seguinte, a inconstância por parte do Poder Público. Porque no tempo do Natal há um reforço. Mas depois é no dia a dia que as pessoas sentem. O fato é que o ideal é que tivesse segurança sempre presente, como, por exemplo, na Coração de Jesus, com uma base móvel, mas não tem", relata.Ele acrescenta que há alguns anos tenta um diálogo com o poder público para ajudar na preservação da Igreja do Rosário, mas não obtém resposta.

"Há muita promessa e devemos considerar que algumas dessas igrejas do Centro, muitas vezes, não têm renda". Em 2019, conta o padre, foi preciso ele doar dinheiro para pintar as paredes e recuperar algumas estruturas internas. Isto porque, segundo ele, a parte detrás da Igreja é utilizada como mictório por transeuntes do Centro e com o acúmulo de água da chuva o líquido invadiu a igreja e provocou infiltrações no piso.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (Secultfor) e com a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) sobre o diálogo em relação à preservação da Igreja do Rosário. A Pasta municipal disse que não ia se posicionar porque a Igreja do Rosário não tem tombamento municipal, só estadual. Já a Secult não enviou, até o fechamento desta edição, o posicionamento.

Memória da cidade

Ao tempo em que as igrejas perpetuam ritos religiosos, carregam múltiplos sentidos para além do sagrado. Os templos contam histórias do processo civilizatório de Fortaleza: da formação, quando a cidade foi traçada ao redor do Riacho Pajeú, até a evolução do espaço urbano com a construção do Forte de Nossa Senhora da Assunção. Segundo o arquiteto e urbanista Romeu Duarte, os edifícios católicos viram a Capital nascer e ser tomada pelo crescimento territorial.

"A igreja do Rosário fica numa área onde, até o fim do século XIX, era considerada a própria Fortaleza. A do Carmo tem pinturas parietais feitas pelo mesmo artista que emprestou seu trabalho para o Theatro José de Alencar. A existência desses templos, como também a igreja do Patrocínio e de São Bernardo se confunde com a história da nossa terra porque surgiram quando a cidade ia se formando", ressalta.

Legenda: Situada nas proximidades da Praça Marquês de Herval, atual Praça José de Alencar, a Igreja do Patrocínio foi fundada em 1851 e elevada à categoria de paróquia em 1879

A Igreja do Rosário, dentre as quatro percorridas pela reportagem, é a única tombada no âmbito estadual. A do Patrocínio é tombada provisoriamente pelo Município. A de São Bernardo e do Carmo não possuem título de preservação. "O tombamento pode prover recursos necessários aos trabalhos de conservação e restauração para que o edifício possa subsistir, isto é, possa durar muito mais. Além disso, propicia a utilização de recursos públicos para recuperação desses imóveis que transcendem a sua condição de templos católicos", explica.

Caso os templos não obtenham o registro de patrimônio histórico, Romeu Duarte opina que os custos para as reformas estruturais podem partir da própria instituição. "O que vai acontecer é que a Arquidiocese de Fortaleza, que é a proprietária das igrejas, vai tirar dos seus cofres os recursos necessários para fazer os trabalhos de recuperação que os imóveis reclamaram".

Igrejas centenárias tentam permanecer em funcionamento no Centro, driblando a insegurança e problemas estruturais. Templos guardam a memória de Fortaleza e continuam recebendo os mais diversos visitantes; desde fiéis moradores até turistas