Covid pode causar aborto e parto prematuro em pacientes grávidas

A relação entre a doença e as complicações em gestantes - que fazem parte do grupo de risco - ainda carece de comprovação científica, mas já vem sendo observada na prática, conforme sugere pesquisa feita nos Estados Unidos

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Legenda: Como forma de prevenção, as visitas às mães e bebês devem ser repensadas durante a pandemia
Foto: Rodrigo Carvalho

Se para grande parte dos pacientes a Covid-19 é motivo para temer pela própria vida, para outros, a preocupação vem em dobro. Mulheres grávidas já são propensas a desenvolver sintomas graves da doença, e o diagnóstico pode estar associado, também, a partos prematuros e até abortos espontâneos.

A relação causa-efeito entre o novo coronavírus e complicações gestacionais ainda carece de evidências mais sólidas, porém, há casos que demonstram que a infecção em pacientes grávidas pode contribuir para o aumento de abortos, partos prematuros, e de crianças que nascem com restrição de crescimento, conforme explica a obstetra Liduína Rocha, presidente da Associação Cearense de Ginecologia e Obstetrícia (Socego).

"A gente ainda está vivendo a pandemia e construindo as evidências, mas parece existir uma relação de aborto espontâneo, parto prematuro, restrição de crescimento, óbito fetal intraútero, com a presença da Covid. E parece ser independente, inclusive, de a mãe ter sintomas ou não", detalha a médica obstetra.

A possibilidade foi verificada em uma pesquisa feita nos Estados Unidos e publicada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças do país. Foram analisados os casos de 600 pacientes grávidas, com idades entre 18 e 45 anos, que desenvolveram a Covid-19 entre março e agosto. O estudo aponta que as gestantes com coronavírus têm maior probabilidade de ter parto prematuro ou sofrerem um aborto espontâneo, em comparação com mulheres sem a doença.

Quando se trata de desenvolver sintomas da doença, as pacientes grávidas seguem a tendência geral da população que contrai o vírus, ou seja, cerca de 70% a 80% das gestantes infectadas são assintomáticas ou pouco sintomáticas, conforme explica a presidente da Socego.

Em casos mais leves, nota-se a perda de olfato, de paladar, além de febre baixa. Já nos quadros mais graves, surgem o desconforto respiratório grave e a diminuição da oxigenação.

"Essa diminuição é responsável pelas complicações maternas, mas também é responsável pelas complicações do feto. Hoje, pacientes grávidas com saturação abaixo de 93% são mulheres que devem ficar em hospitais gerais ou maternidades que tenham UTI de adulto disponível, pela possibilidade da necessidade de resolução da gestação", afirma.

Conforme o estudo, cerca de 12% das mulheres infectadas tiveram parto prematuro, índice superior à taxa de 10% observada na população em geral, nos Estados Unidos. A porcentagem foi ainda maior para mulheres sintomáticas: 23% delas tiveram parto prematuro. O aborto espontâneo também foi observado tanto em mulheres sintomáticas como em assintomáticas, com uma taxa geral de 2,2%.

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'Piores dias'

No caso de Verônica Cordeiro, 31, os sintomas não passaram despercebidos. No dia 28 de abril, ela estava no quarto mês de gestação quando a falta de ar, a febre, a fadiga intensa e uma tosse seca e persistente começaram a se manifestar.

"Foi terrível. Foram os piores dias que eu já tive na minha vida. Todo dia eu achava que ia morrer", lembra. Verônica é médica e trabalha em um hospital de Maranguape, mas só interrompeu a rotina após contrair o vírus. "Quando começou a pandemia, meus obstetras orientaram a parar de trabalhar, mas eu continuei. É que, a princípio, as gestantes não eram grupo de risco. Meu marido se contaminou primeiro e eu acabei pegando dele. Desde então, não voltei mais a trabalhar", conta.

Durante as duas semanas em que conviveu com os sintomas mais graves, ela chegou a passar 24 horas em observação em um hospital de Fortaleza, por conta de uma alteração no exame de d-Dímero. "O exame do d-Dímero é importante para medir a coagulabilidade, o risco de ter evento trombótico, como embolismo pulmonar, infarto agudo do miocárdio. Esses eram os riscos maiores", explica.

O tratamento de Verônica foi feito com corticoide e medicamento anticoagulante. Segundo ela, o uso da cloroquina foi descartado. "Eu tinha uma equipe me acompanhando, incluindo infectologista e cardiologista. Eles acharam que, avaliando, tinha mais risco do que benefício, e não valia a pena. A opinião do infectologista foi muito importante, porque ele não via benefício nenhum em relação ao uso da cloroquina pra mim", detalha a médica.

A recuperação correu tranquilamente, depois que os sintomas amenizaram. A aflição só retornou mais tarde, em julho, quando uma ultrassonografia revelou um derrame no coração da bebê. "A médica que fez o exame atribui ao coronavírus o fato de a bebê estar com esse derrame. Ela disse que via outras gestantes que também tiveram a Covid-19 com esse mesmo quadro", relata Verônica.

Desde então, ela passa por ultrassonografias semanais para acompanhar o quadro da filha. Felizmente, o derrame já não foi identificado no exame mais recente.

"Fui para uma cardiologista pediátrica e a orientação dela foi de que, quando a bebê nascer, que faça um ecocardiograma nela, só para ter certeza que não tem mais derrame, mesmo. Agora, o quadro é mais positivo", comemora. Hoje, aos nove meses de gestação e sem sintomas, Verônica Cordeiro permanece em casa à espera do nascimento da pequena Laís.

Vigilância

Sendo parte do grupo de risco para o coronavírus, o isolamento social e o uso de máscara quando em público já são orientações-padrão para gestantes. O que Liduína Rocha ressalta é a necessidade de que as maternidades permaneçam vigilantes, a fim de manter fluxos separados entre mulheres que têm síndrome gripal e que não têm.

Segundo ela, as visitas à mãe e ao bebê devem ser repensadas, tanto nas maternidades quanto em casa, uma vez que quando as mulheres contraem a infecção em um momento próximo ao parto ou durante o parto, e desenvolvem sintomas no puerpério, são maiores os riscos de chegarem a óbito. Por esse motivo, a paciente deve ter o mínimo de exposição.

"Esse grupo é particularmente mais suscetível a complicação, existem várias discussões sobre o porquê disso, mas esse é um dado que se repete onde quer que ele seja estudado", afirma a obstetra.

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