Covid-19: Hospital é autuado por enviar amostras de coronavírus por entregador de aplicativo

O caso aconteceu em uma unidade privada de Fortaleza, cujo nome não foi revelado pela Secretaria de Saúde do Ceará

Legenda: Serviço de entrega por aplicativo foi utilizado, de forma irregular, por hospital particular de Fortaleza
Foto: Kid Júnior

Ainda em fevereiro (20/02), a Secretaria de Saúde do Ceará, através da Secretaria de Vigilância e Regulação Sanitária do Estado, fiscalizou um hospital privado de Fortaleza devido a denúncias sobre irregularidades no transporte de amostras biológicas da Covid-19. De acordo com a pasta, que não informou o nome da unidade de saúde investigada, o material enviado era da possível variante do coronavírus e foi feito por um entregador de aplicativo que não sabia o que estava transportando.

Segundo a secretária-executiva de Vigilância e Regulação Sanitária do Ceará, Magda Almeida, o entregador afirmou que “não tinha conhecimento do conteúdo que realizava entrega, desconhecendo  a possibilidade de ser de risco biológico o material que iria transporta”. E que, inclusive, já havia feito entregas de alimentos nas entradas do hospital.

O hospital privado foi autuado. A Vigilância Sanitária aguarda a defesa da unidade de saúde privada, que pode ser multada. No caso de reincidência, a multa dobra e o estabelecimento pode ter o alvará cassado.

Riscos

As amostras, se não acondicionadas corretamente, apresentam o risco de contaminar a caixa térmica.  Por isso, segundo Caroline Gurgel, epidemiologista, virologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), quando se trabalha com material de risco biológico, como é o caso, ele obrigatoriamente precisa ser transportado por um recipiente hermeticamente fechado e por alguém treinado e devidamente equipado com roupas de proteção. “Nas caixas onde armazenamos as amostras são também anexadas as informações do vírus e do paciente da qual foi retirada a amostra, para que seja possível analisar o caso com cuidado”, explica. 

A professora da UFC, que também passou cinco anos coletando e analisando amostras para vírus respiratórios, afirmou que “é inconcebível” que materiais biológicos da possível nova variante da Covid-19 sejam transportadas em caixas utilizadas para também transportar comidas. Segundo ela, é uma falha muito grave do hospital, caso seja comprovado a denúncia.

A própria rotina de trabalho desses motoboys não permite que após cada entrega eles troquem de roupa e higienizem as caixas. Segundo relata o entregador de aplicativo, Osvaldo Gomes, “é um desrespeito que o hospital teve com a vida do entregador, pois normalmente não sabemos o que estamos entregando. É impossível que após cada entrega a gente volte para casa, troque de roupa e higienize as caixas”. Ele acrescenta que, no máximo, os entregadores utilizam álcool em gel nas mãos.

“Temos um problema que é própria caixa que pode ter sido contaminada e ter contaminado o alimento. E a possibilidade de o próprio entregador ter sido contaminado e transmitir o vírus. Então assim, não tem como você unir os dois serviços, ou você transporta material biológico e assim fica definido o seu papel ou você escolhe entregar alimentos para população”, conclui Caroline.

A Secretaria de Vigilância afirmou que ainda não é possível dimensionar o papel dessa atividade denunciada na cadeia de transmissão da Covid-19 em Fortaleza. Em seu perfil pessoal, Magda Almeida, afirmou que “O trabalhador é o menos culpado, mas com certeza será o mais prejudicado. Não sabia nem o que estava transportando! Fez só a entrega que foi devolvida”.

Mas eu não sei como eu peguei.. Eu nem saí de casa.... Lockdown não serve... Só pedi comida em casa... Entrega de...

Publicado por Magda Almeida em Sábado, 6 de março de 2021

Autuação

Existe uma série de procedimentos recomendados para que o transporte de materiais biológicos, porém, o hospital privado descumpriu três destes, de acordo com a Secretaria de Vigilância e Regulação Sanitária do Estado. Foram eles:

  1. Transporte de amostras biológicas sem diagrama de classificação de riscoplicado ao transporte de material biológico humano de acordo comas diretrizes da Organização Mundial de Saúde (diferindo da RDC 20 ANVISA de 2004);
  2. Terceirizar transporte de amostras biológicas (categoria B) em empresas não licenciadas junto ao órgão de vigilância sanitária local competente;
  3. Prestador de serviço de transporte de amostras biológicas terceirizado sem infraestrutura, conhecimento e treinamento adequado para desempenhar satisfatoriamente o transporte de material biológico.
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