Cearenses e estrangeiros relatam vivências entre trocas de cultura

Moradores da Capital que nasceram em outros países e cearenses que formaram famílias no exterior revelam suas trajetórias e escolhas, tendo em comum o Ceará — seja o Estado ponto de partida ou destino final

Embora sejam diversos por si só, os genes cearenses se misturam e se traduzem em novas origens a cada nativo que se muda para longe do Estado, e a cada estrangeiro que forma família na Terra da Luz.
Uma pesquisa inédita de mapeamento genético no país revela que os genes nórdicos são predominantes na origem de onde o cearense descende. O resultado foi apontado pela “GPS-DNA Origins Ceará”, que analisou as amostras de saliva de 160 cearenses, de todas as regiões do Estado e de várias etnias.

E a mistura dos povos é um movimento permanente, a exemplo do italiano Giuseppe Pagano, que mora na Capital desde 2005 e formou família. “Gostei muito do clima, da cidade e dos negócios daqui. Achei que dava para fazer bons negócios, então me mudei no ano seguinte”, narra o administrador de imóveis, com sotaque forte. Aos 52 anos, Giuseppe tem dois filhos, ambos nascidos no Ceará. “Eu vim pra cá sozinho, mas formei duas famílias. Fui casado, me separei, tive uma filha. Agora estou casado novamente, e tenho outro filho. Minha esposa é cearense”, diz.

No que diz respeito às diferenças culturais, ele enfatiza que não tem o hábito de sair sozinho com amigos, ou frequentar bares. Para ele, cada fim de semana é sinônimo de tempo com a família; nesses momentos, juntam-se duas ou mais famílias para compartilharem refeições.

Aos filhos, ele passa adiante uma tradição específica de comemorações que mantém consigo desde os anos na Itália. “Na tradição italiana, fazemos uma festa dupla. Uma, é no dia do santo. Por exemplo, meu filho se chama Gabriel. No dia de São Gabriel, a gente faz uma festinha, e no aniversário dele também. Giuseppe é José, então fazemos uma festa no dia de São José. Comemoramos os dias dos santos”, explica. E não esquece de enfatizar a culinária: “fazemos massa dia sim, dia não. Espaguete, rigatoni, tudo que achar no mercado!”, brinca.

As visitas à sua terra natal foram reduzidas, segundo ele, conforme a família foi crescendo. Hoje, Giuseppe se organiza para levar os filhos e a esposa à Itália a cada dois anos. Mas o contato com seus próprios pais e os amigos é mantido através de frequentes chamadas de vídeo – a prática não foi novidade durante a pandemia, e, para ele, é uma maneira de se manter próximo.

“No Ceará, não tive problema pra adaptar a cultura. Aqui, temos família. A família da minha esposa é muito tradicional, e eles também prezam por estar juntos, se verem muito, fazerem festas juntos. Eu encontrei essa família sólida, forte, aqui”, afirma.

‘Mistura’

Para a cearense Katia Ferreira, de 40 anos, o caminho de Fortaleza até a cidade de Londres, na Inglaterra, onde vive, começou em 2013 através de uma interação online. Pela Internet, ela conheceu Miguel, britânico filho de portugueses. Ele veio ao Ceará para passar férias em 2012, e os dois passaram a namorar. 

“Fui a Londres em 2013 para visitar e aproveitar a oportunidade para aprender inglês. Passei seis meses, e foi o tempo em que decidimos ficar juntos. Voltei para Fortaleza e pesquisei tudo que precisava para conseguir um visto, organizamos toda a documentação. Nos casamos em maio de 2014, e nosso primeiro filho nasceu no fim desse mesmo mês”, revela Katia.

Hoje, a rotina na Inglaterra é dedicada à casa e aos filhos: Lucas, de 6 anos, Matthias, 4, e Tobias, de apenas um mês, todos nascidos na capital britânica. “A mistura aqui em casa é de Brasil e Portugal. Há hábitos ingleses porque, afinal, vivemos aqui. As crianças têm o contato e vivenciam a cultura inglesa através da escola, mas em casa seguimos nossas raízes”, destaca. A cearense detalha, ainda, que embora as conversas em português sejam constantes em casa, os filhos não aprenderam o idioma.

“Eles não se interessaram, e eu deixei bem livre nesse começo. Eles sabem nomes de coisas e entendem muito, porém respondem em inglês. Eu não quis impor o bilinguismo enquanto são tão novos, mas quero investir quando estiverem um pouco maiores. Afinal, tenho minha família no Brasil, além da família do meu marido em Portugal, e queremos que exista a comunicação entre eles”, diz Katia.

Cearense de coração

Já o jovem de origem chinesa, Marcelo Fong, de 33 anos, conta que se sente um cearense de coração. Nascido em uma família que chegou ao Brasil em 1945, escapando dos terrores da Segunda Guerra Mundial, Marcelo diz que foi no Ceará que sentiu uma ligação com o local. “Nossa família veio para o Ceará, em específico para Fortaleza, no ano de 1993. Eu tinha nessa época 4 anos, e minha família já residia em Recife. Então eu digo que me sinto um cearense de coração”, conta.

A família, que veio para o Estado com o intuito de expandir o seu restaurante de comida chinesa, já está enraizada na Capital. Hoje, Marcelo tem uma sobrinha de 18 anos, nascida no Ceará, filha de seu irmão; já a irmã do jovem é casada com um cearense. 

Quando se trata do choque entre culturas tão distintas quanto a chinesa e a brasileira, Marcelo diz que não se sentiu tão afetado por isso, já que seus pais também nunca foram tão rígidos com regras. “Sobre essa mistura de costumes, eu posso dizer que eu sou um ponto bem fora da curva, porque meus pais sempre foram muito tranquilos sobre rigidez, regras. Eu posso dizer que eles também são brasileiros, já que vieram pra cá muito cedo”, explica. 

O choque para o jovem talvez não seja tão significativo, mas para os seus avós, que trouxeram a família para essas terras, foi bem diferente, conforme descreve Julia Fong Yin, de 66 anos, mãe de Marcelo. “Pros meus pais teve muita diferença, porque é outra língua, e eles vieram sem saber falar nada em português. Tudo era diferente, comida, roupa, maneira de ser, tudo. Era muito diferente”. 

Julia Fong lembra que um dos maiores desafios de seus pais foi matricular os filhos em uma escola, já que não compreendiam o português e precisaram se adaptar da forma que puderam. “Minha mãe e meu pai se viraram para colocar a gente nos colégios. Difícil foi aprender a falar o português primeiro”, relembra, citando ainda com afetos os primeiros momentos como recém-chegada ao país. 

O resultado de anos de esforços da família que veio tentar a vida no Brasil, encontrando acolhimento no Nordeste, é a franquia de restaurantes de comida chinesa se expandindo por toda a região, especialmente em Fortaleza, que os Fong agora chamam de lar.

Em movimento contrário, saindo do Ceará, Ana Catarina Smith, 22, tem como lar o estado de Minnesota, nos Estados Unidos. A cearense conheceu o estadunidense Cody Michael Smith durante um intercâmbio, mas precisou voltar ao Brasil. O namoro continuou a distância até a jovem ir novamente aos EUA para cursar faculdade. Hoje, é casada com Cody, e é mãe de Sarah Grace, de cinco meses.

“A gente optou por não falar duas línguas diferentes com ela. Claro que eu vou ensinar algumas palavras e expressões pra ela poder se comunicar com minha família brasileira, mas a língua falada na nossa casa é estritamente inglês”, explica Catarina.

Segundo ela, no dia a dia, não há uma mistura entre a cultura estadunidense e a do Ceará, uma vez que a jovem já havia se adaptado aos hábitos locais. Ela se dedica à casa e à bebê enquanto o marido trabalha fora, de quarta-feira a sábado. Do Ceará, a saudade se torna mais forte quando lembra das comidas juninas. “Canjica, bolo de milho, “pratinho”, dá até água na boca! Fora isso, eu diria que sinto falta dos meus amigos da escola”.


Assuntos Relacionados


Redação 02 de Agosto de 2020