Casa Transformar incentiva profissionalização para transexuais

Atualmente, o abrigo é morada para sete mulheres trans, além do casal fundador, formado pela cantora Nik Hot e seu marido, o cabeleireiro Davy Lima. Eles esperam ampliar as chances de inserção no mercado de trabalho

Legenda: A proposta da casa recém-criada, é dar oportunidade e oferecer cursos para transexuais acolhidos
Foto: FOTO: HELENE SANTOS

Do portão para fora, um "outro mundo". Do lado de dentro, um porto seguro. As moradoras da Casa Transformar, abrigo para transexuais no bairro Siqueira, assim descrevem o espaço onde se sentem livres para serem quem são - para algumas, pela primeira vez.

O espaço é, antes de tudo, lar para a cantora Nik Hot, 23, e seu marido, o cabeleireiro Davy Lima. O casal abrigou uma travesti pela primeira vez em 2017, mas a morada só veio a se tornar casa de acolhimento há quatro meses. Agora, a proposta é oferecer oportunidades para que mulheres e homens trans possam se profissionalizar.

"Algumas pessoas já entraram em contato. Uma menina está com interesse em trazer um curso de design de sobrancelhas, outra está tentando trazer um curso de inglês. A gente já tem aulão de lambada toda semana", pontua Nik Hot, fundadora da Casa Transformar. Ela destaca que o objetivo é "conseguir mais e mais, para que não seja só um local onde as pessoas venham, durmam, acordem, comam e durmam de novo. Eu quero que as meninas tenham ocupação, se profissionalizem, e quanto mais atividades eu puder incluir, eu vou fazer".

Ao todo, nove pessoas dividem a moradia que se mantém exclusivamente através de doações esporádicas e do bazar realizado na Casa. O dinheiro arrecadado com as vendas de peças de roupas, calçados e brinquedos seminovos ou usados é utilizado para a alimentação e outras demandas.

"A gente faz o bazar de segunda a sexta-feira, das 11h às 16h. Também aceitamos doações de alimentos não perecíveis e eletrodomésticos", diz Nik. Segundo ela, ainda resta uma vaga na residência para acolher qualquer pessoa da comunidade LGBTQI+ em situação de vulnerabilidade ou exclusão familiar e social. Para entrar em contato, a fundadora indica o perfil @casatransformar, no Instagram, através das mensagens privadas.

Divulgação

O projeto ganhou atenção após uma publicação na rede social, onde uma vaga de acolhimento era anunciada. "Eu fiz a postagem e deixei o celular de lado. Aí ele passou a tarde toda fazendo barulho, achei até que estava com problema. Quando fui ver, tinha mais de mil seguidores novos, e muita gente divulgando a vaga", revela Nik Hot.

A cantora se estabeleceu como a primeira funkeira travesti do Ceará em agosto de 2018, e equilibra a carreira artística com o dia a dia da Casa. "Sempre quis cantar, mas nunca tive incentivo. Todo mundo achava que era impossível. Mas quando eu falei pro meu marido, ele já conseguiu produtor, me levou pro estúdio pra gravar. Eu espero que os LGBTs cada vez mais entrem na música, não só no funk, mas em todos os outros estilos, porque o lugar do LGBT é onde ele quiser estar", afirma.

Para a bailarina Sasha Bloom, 25, a Casa Transformar foi uma oportunidade de autodescoberta. Em contato com a arte e a música, ela se sente livre, e enxerga as demais moradoras como irmãs. "Eu morava no bairro São Vicente, perto daqui. Fui expulsa de casa por ser eu mesma. Morava com minha mãe, meu pai e meu irmão, e sempre fui a esquecida por ser afeminada. Aqui, eu me sinto realizada como pessoa", declara.

Uma experiência similar foi vivida por Emily Alves, 21. Antes, ela temia passar pela transição por associar a transexualidade à uma figura marginalizada. "Mas a Nik e as meninas me mostraram uma visão totalmente diferente", afirma.

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