Atividades de impacto além do econômico se expandem no Estado

Exemplos de empreendedorismo social já podem ser vistos na Capital e no interior, com ações que vão desde a adoção de medidas para a garantia de um retorno social até a criação de espaços positivos de convivência

Escrito por Renato Bezerra, renato.bezerra@diariodonordeste.com.br

Metro
Legenda: Priscilla Veras, CEO da Muda Meu Mundo, trabalha com foco na cadeia produtiva de alimentação
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA

Gerar impactos de forma sustentável. Produzir bens e serviços em benefício a uma sociedade, mas sem ter o lucro como único ou principal meio propulsor. Essas são premissas do Empreendedorismo Social, atividade que se destaca na promoção de transformações, seja pela geração de capital social e inclusão, passando pela resolução de problemas em áreas como educação, segurança ou meio ambiente; ou mesmo na criação de ambientes positivos e saudáveis. No Ceará, iniciativas assim vêm ganhando destaque.

Sob boa parte destes princípios, nasceu o Muda Meu Mundo, negócio de impacto social, econômico e ambiental, que atua desde 2016 com foco na cadeia produtiva de alimentação. Entre os principais objetivos, segundo explica Priscilla Veras - uma das fundadoras do projeto - está no tornar alimentos livres de agrotóxicos acessíveis às pessoas, além de dar mais oportunidades financeiras aos produtores.

"Para isso, desenvolvemos uma metodologia em que a gente treina agricultores familiares, faz um processo de certificação e depois escoa a produção deles fazendo com que recebam um preço justo, para fazer com que eles saiam da pobreza pelo próprio esforço", conta.

O impacto econômico verificado entre os cerca de 200 produtores que já passaram pelo negócio, diz Priscilla, é o aumento da renda deles de no mínimo 50% em um ano. Já a transformação ambiental, explica ela, passa pelo reflorestamento de até 20% das áreas dos produtores.

"Além disso, em termos de impacto social, temos muito forte o trabalho com as mulheres e os jovens de permanência na agricultura, de as mulheres conseguirem se sentir profissionais da agricultura e do processamento de alimentos agroecológicos. Existe o trabalho coletivo do grupo onde um fiscaliza o outro, então eles acabam criando redes entre eles", comenta.

O consumidor, ainda conforme a empreendedora, também acaba sendo beneficiado, adquirindo produtos orgânicos por valores mais acessíveis em relação aos de mercado. A produção acompanhada pelo Muda Meu Mundo é comercializada em feiras realizadas todos os sábados, na Praça das Flores, na Capital. "É um espaço onde os agricultores vão estar para tirar dúvidas, para que você converse, saiba de onde está vindo seu produto, ao mesmo tempo em que a gente abre as portas para empreendedores locais exporem seus produtos", explica Priscilla Veras.

Marca

Mãos habilidosas na construção de uma arte legitimamente regional: o artesanato. Mas o dom do fazer não era, por si só, suficiente. Para garantia das vendas, era preciso criar a ponte entre artesãos e consumidores, aprimorar a técnica, trabalhar a autogestão. Para suprir essas e outras necessidades, nasceu o projeto Fia Oficina de Artesãos, que desde o ano de 2015 atua junto a profissionais de Sobral, visando manter viva a tradição do ofício, além de potencializar a rentabilidade dos grupos.

Segundo explica a design e empresária Celina Hissa, fundadora do projeto, além de uma capacitação para produção de peças mais elaboradas, as artesãs foram orientadas na produção de uma marca e na melhoria de sua comunicação. "No momento que o grupo passa a ter uma marca, que tem uma história para contar, esse grupo também pode vender seus produtos diretamente para uma loja multimarca com o preço final mais justo".

Legenda: A designer Celina Hissa idealizou o Fia Oficina de Artesãs, que capacita grupos de Sobral
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA

A premissa da iniciativa passa, ainda, conforme acrescenta, pelo pensamento em grupo e na busca por soluções justas. Nesse contexto, um financiamento coletivo foi realizado para impulsionar o trabalho das profissionais.

"A ideia foi convidar as pessoas para comprarem em outubro seus presentes de Natal, recebendo dois meses depois um produto com um preço justo, de design. Era bom para quem comprava e para quem fazia. O dinheiro entrou para comprar material, fazer a produção. A gente sabe que a logística de estoque é uma dificuldade para o artesão, e isso foi algo superpositivo", diz.

Vivência

Melhorar a convivência urbana é o viés de atuação da Estar Urbano, empresa de impacto criada pelas arquitetas Laura Rios e Liana Feingold, com execução de projetos há seis anos na capital cearense. A ideia é transformar de forma criativa e afetiva espaços de convivência comum, como ruas, calçadas, praças e canteiros, através da colaboração entre pessoas e empresas.

Entre os impactos para a cidade, segundo aponta Laura Rios, está a ocupação de espaços considerados vazios urbanos, por meio de intervenções como praças itinerantes, Parklet's - ocupações de vagas de estacionamento - além de micro-oásis - minipraças ocupadas em esquinas, pensando esses espaços, também, como política pública.

Segundo esclarece Liana, as intervenções podem ser realizadas em qualquer área da cidade, sempre ouvindo e interagindo com o público no entendimento das principais necessidades. "Quando falamos de ruas ocupadas a gente fala de segurança pública, trazemos saúde mental. A gente vem trazendo outras correlações, que não só a arquitetura diretamente, mas que seja algo positivo para todos a partir desse convívio que um equipamento atrai, mas que quem faz acontecer são as pessoas".

Legenda: O Parklet é um conceito trazido pelas arquitetas Laura Rios e Liana Feingold através da Estar Urbano
Foto: FOTO: KID JÚNIOR