A natureza do 'ser urbano'

Foto: FOTO: DAHIANA ARAÚJO

Eu cresci no lado Oeste de Fortaleza, nem sempre havia dinheiro para o transporte coletivo no trajeto casa-escola-casa. O caminhar era a saída, mas também a sorte: de ter contato com a concretude da urbe bem no Centro da cidade - onde ficava o Colégio Champagnat - e ainda contemplar a natureza enraizada nos canteiros de avenidas, nas calçadas de vizinhanças.

Era a sorte de olhar devagar o mundo gigante entre prédios e plantas. Sentir brisa forte e vento leve sacudir terra em mim antes de trancar-me em casa numa disputa desigual, entre irmãos, pelo videogame coletivo. Aquele caminhar, hoje bem menos frequente, fincou memória em mim. Fez-se ritual na mente. Nunca era tarde demais para quem tinha todo o tempo do mundo, o meio da rua (sempre) de braços abertos.

Pois bem. Logo cedo, aprendi: a cidade é, naturalmente, espaço concreto. Mas é também composição abstrata, afetiva e, sim, orgânica. Paisagens naturais e olhares revestidos de pau e pedra se misturam às graças, saudades e solidões dos aglomerados.

E quando a gente faz memória, tudo se une para compor a imagem da cidade que habita em nós. A (memória) que tenho em mim guarda as mudas entre grades da Praça da Bandeira de tempos atrás. Mas vivas, crescentes. Mais além, um muro cinza que, não fosse um cacho de flores derreado em si, passaria despercebido pela Av. Francisco Sá de 20 e tantos anos atrás.

São ainda memórias as casas do território proibido da movimentada Av. Sargento Hermínio, que já separava Bairro Ellery e Monte Castelo, tendo o São Gerardo, a caminho da Parquelândia, onde as casas imensas cultivavam rosas mais sortidas e coloridas, prontas a enfeitar a coroa de flores para a dança do fim de ano da escola central, de onde fui aprendiz nos idos de mil novecentos e noventa e poucos.

Foi grande aventura cruzar os quatro bairros de bicicleta, às escondidas, para catar nas calçadas, sob o sol das duas da tarde, pedaços de plantas para compor figurinos de atividades e festas da escola. Natureza ainda viva em mim. Tempo presente, vivo na rotina de lembrar, dono da verdade . Talvez.

Mas a paisagem hodierna - agora que o tempo correu pra nós, pra mim - nos abre grandes questões, como aquelas entre as quais nos perguntamos como manter viva a fortaleza orgânica que também é natural da urbe. A nossa natureza, ainda que urbana, é de organismos vivos, pulsantes. Pisar o chão, grama verde. Carrapichos ainda plenos nos jardins desgastados de um Polo de Lazer, que se pregam nas calças como verdadeiros alertas para nos dizerem que a flora pulsa, entre as pedras dos logradouros e, sim, faz parte de nós. Aonde quer que possamos chegar.

Nesses tempos de contrastes, entre vidas e mortes - de gente, de verde, de bichos - já não sabemos para onde podem nos levar essas estradas que nos obrigam a deixar para trás (para nunca mais) a natureza de um "ser urbano". Porque ser urbano, metropolitano, não é romper todos os laços com as terras-mãe, águas-mãe, verdes-mãe. Pode ser construir elos, criar arquiteturas que sejam raízes infinitas a ligarem (tantas) naturezas de todas as ordens.

Assim, memórias de suspiros, revoluções, transformações de vários aspectos se traduzem na arquitetura que é sistêmica, maquínica; subjetiva e até sentimental. Mas é urgente ter e ser natural também. Cultivar paisagens híbridas, de cinzas e verdes. Entretanto, nas ruas de Fortaleza, nossas janelas têm sido as metáforas dos nossos olhares, que ora se abrem, ora se fecham. Nos escondem trancados para fugirmos das verdades que nos arrancam pedaços. Nos arrancam inteiros. Nos desmatam.

 


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