A esperança no sorriso

Legenda: Enquanto chegavam ambulâncias com novos pacientes por Covid-19, deixavam o hospital de retaguarda veículos funerários
Foto: Foto: Helene Santos

Do silêncio ao som discreto da porta automática. Dona Flor deixava o hospital numa cadeira de rodas, quietinha, com um quase sorriso na boca, acompanhada da filha, com um quase choro nos olhos. A idosa talvez não se chame Flor - muito provavelmente não, inclusive -, mas o nome me veio pronto, imposição na cabeça de gente que faz da escrita uma teimosia quase diária. E tudo ali era quase, meio, talvez, quem sabe. Pouco se sabe. Testemunha do desabrochar para uma nova vida, eu não diria uma palavra. No prédio em frente, todavia, outra senhora aplaudia, e gritava, e chorava, e tornava a aplaudir, agarrada à tela da janela alta, enquanto vovó Flor ia se distanciando metro a metro do desafio de sobreviver à grave Covid-19, doença causada pelo vírus Sars-CoV-2.

Depois das palmas, o ambiente voltou a emudecer na região hospitalar da Rua Rocha Lima, Aldeota. Por ali haveria de ser um dia comum noutros tempos. Não em 2020, não em maio, não na última sexta-feira. O Hospital Leonardo Da Vinci, antes desativado, passou a ser uma das principais unidades de Saúde para receber e tratar pessoas de todos os tipos, alturas, narizes, cores, credos, classes sociais e sonhos, com comprovação ou sintomas graves para o novo coronavírus.

O ar suspenso, as perguntas por fazer, as respostas desnecessárias e o medo em frente ao prédio que, naquela data, abrigava 155 pessoas em leitos de enfermaria ou UTI. Fiquei entre uma calçada e outra por cerca de duas horas, com duas máscaras e distância supostamente segura para quem estivesse por ali, como Tainá e Aldeci, sentados num banco de cimento sombreado. Eram filhos do Seu Carlos, 66, que não resistiu ao avanço da doença nos pulmões. Os irmãos carregavam a tristeza da perda e o descontentamento com a falta de informação. O idoso, sempre ativo e brincalhão, havia sido internado na UPA de Messejana dez dias antes, antes de ter o Da Vinci como última morada.

Ao lado da porta principal, um jovem insistia por notícias da irmã de 30 anos em tratamento na unidade médica especializada. Recebeu um saco com os pertences da guria - roupas, escova e pasta de dente -, mas nem um sinal do estado de saúde dela. Foi embora com um número de telefone da assistência social.

Peso

A chegada e saída de ambulâncias e carros funerários cismavam Antônio, responsável por serviços gerais no condomínio da esquina. "Fico triste. Fico, cara", disse o trabalhador, com máscara de proteção e olhos fixos nos homens responsáveis por transportar corpos sucumbidos, enquanto vestiam capas, tocas e luvas especiais. Desceram com um caixão vazio, entraram pelo acesso lateral, voltaram com mais uma vítima, jogaram os equipamentos de proteção no lixo e partiram, cumprindo um cuidadoso e repetitivo ritual.

Logo atrás, dois profissionais de saúde empurravam uma maca vazia usada para mais uma transferência. Reinstalaram na ambulância, entraram e partiram. Não tardou para chegar outro veículo de emergência com mais um paciente. Antônio balançava a cabeça. "Na quarta foram oito. Só hoje foram cinco", citava, em referência aos veículos pretos, cinzas e verdes que estacionavam de ré para recolher a saudade de tanta gente.

Leveza

Para Vitor, no entanto, a saudade se encerraria em poucos minutos. O adolescente, acompanhado da mãe, aguardava a alta médica do pai, de 39 anos, após mais de 10 dias em tratamento para Covid-19. A ligação do hospital com a notícia da melhora do quadro clínico foi, claro, motivo de emoção em casa. Lá fora, a energia das expressões não mentia, ansiava pelo reencontro. Esticou o braço quando o identificou atrás da vidraça fumê, numa cadeira de rodas. A porta se abriu, mas não houve abraço. Falaram-se por gestos. Apesar da evolução, o guerreiro ainda estava debilitado. Caminharam devagar até carro e, simplesmente, saíram.

O vai e vem de esperança e desânimo, alegria e tristeza, vida e morte, faz daquele mundo um carrossel de emoções, atestado pelo vigilante Alex, responsável por fazer a primeira recepção a familiares aflitos. Atende, escuta, explica, gesticula, entrega o número para ligar, escuta mais, lamenta e se despede. Rotina exaustiva para quem, além de preocupar-se com a própria saúde, é a retaguarda da retaguarda.

Viu comigo a saída triunfal da Dona Florzinha, pela porta da frente, minutos antes da chegada da ambulância do Seu Floriano, entubado, pela porta do lado. Que o amigo de nome inventado também resista e desabroche, com sorriso nos lábios, e palmas da vizinha de janela alta.



Redação 04 de Junho de 2020