74% das crianças de até 9 anos, acompanhadas pelo SUS no Ceará, fazem menos de 3 refeições por dia

Situação se agravou em relação ao último ano e monitoramento aponta que 9,5 mil crianças de até 9 anos estão abaixo do peso em 2021

Criança
Legenda: Falta de nutrientes compromete desenvolvimento físico e cognitivo
Foto: Fabiane de Paula

Um gole de café e pedaços de pão disfarçam a fome cotidiana dos 4 filhos de Tâmara Silva, de 24 anos, que está desempregada. “Todo dia eu acordo sem saber o que fazer, eles pedem merenda e eu não tenho. Comem quando vão para o colégio, mas quando chegam infelizmente não tem”, lamenta. A falta de comida na mesa fica evidente na perda de peso - realidade compartilhada por muitos cearenses.

São 10.802 crianças cearenses entre 2 e 9 anos acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde (APS), como postos de saúde, até o registro mais recente. Ao todo, 8.033 pequenos, ou 74%, não fizeram as 3 principais alimentações do dia.

Os dados são Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, e correspondem à situação alimentar e nutricional de pessoas atendidas apenas na APS do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 2021, das 4.763 crianças de 2 a 4 anos acompanhadas, 29% (1.381) têm o hábito de fazer, no mínimo, 3 refeições diárias. Isso significa que 3.382 delas nem mesmo comeram a quantidade básica. O monitoramento de 6.039 pequenos de 5 a 9 anos mostra que o índice é de 23% (1.388), ou seja, 4.651 comeram menos do que 3 vezes por dia.

Criança
Legenda: Crianças monitoradas em unidades básicas de saúde são avaliadas quanto ao peso

O cenário grave foi intensificado em relação ao último ano. Em 2020, foram monitoradas 7.827 crianças entre 2 e 9 anos em que 3.566 não fizeram 3 refeições no dia, o que corresponde a 45.56% do grupo.

Em todo o ano, foram acompanhadas 3.975 crianças de 2 a 4 anos e 50% (1.987) delas tinham o hábito de realizar 3 refeições diárias. Entre aquelas de 5 a 9 anos, 3.852 crianças acompanhadas, só 59% (2.272) se alimentaram em 3 momentos do dia.

Quando tem comida, Tâmara Silva usa fogão à lenha para alimentar os filhos em um contexto de desemprego e aluguel atrasado. Isso impacta no desenvolvimento e “prejudica bastante, porque se adulto só falta não aguentar (a fome), avalie umas crianças dessas”, como reflete a mãe.

Infelizmente, eu me culpo por causa disso, porque eu não posso trabalhar, o pai deles não me ajuda e fica difícil para mim cuidar de quatro filhos sozinha
Tâmara Silva
Mãe

Cotidiano de fome prejudica o futuro

"A alimentação é um dos pilares do desenvolvimento da criança, para manter a saúde como um todo, então a gente tem essa preocupação antes até de a criança ser gerada", explica a médica pediatra, Vanuza Chagas.

O aleitamento materno garante as proteínas e nutrientes determinantes para a formação cognitiva e física dos bebês. “Quando feito o desmame precoce também pode gerar consequências para a criança de deficiências de micronutrientes e de desnutrição", frisa.

No mesmo dia, ao contrário do que acontece na família da Tâmara, as crianças devem ter acesso a seis refeições com alimentos variados. “Produtos lácteos, carne, frango, peixe, isso é importante para equilibrar o crescimento da criança e ajudar no desenvolvimento neurológico", acrescenta a especialista.

Reflexos no corpo e na mente

A recicladora Ana Cleide, de 48 anos, viu a neta começar a vomitar depois de comer frutas estragadas, quando precisou passar 15 dias internada. São três netos e dois filhos no núcleo familiar com uma certeza: "criança quer comer, não quer saber de onde vai sair".

Devido à situação da família, Ana voltou ao esforço pela renda duas semanas após fazer cirurgia nos olhos. “Fica muito difícil, porque eu e minha filha não temos ajuda de ninguém, a gente depende da nossa reciclagem, vamos todo dia com chuva ou com sol”, explica.

Os netos receberam cestas com alimentos durante o período sem aulas presenciais, mas não é suficiente para manter as refeições no mês. "As vezes eu deito com meu filho de 10 anos, ele olha para mim e diz 'eu tô com fome, minha barriga está roncando'. Eu sem nada, digo que amanhã vou comprar pão", conta.

Falta até para produtos mais baratos como ovo e carne de hambúrguer. Com a barriga vazia, os prejuízos são observados também na escola. "Meu filho de 10 anos é atrasado no estudo, porque eu acho que seja fraqueza, mas ele é uma benção de Deus".

Conhecer o cenário

“O monitoramento de indicadores de saúde infantil, bem como os de segurança alimentar e nutricional, são importantes para subsidiar os gestores com informações tempestivas sobre a operação e os efeitos dos programas de desenvolvimento infantil”, explica a economista Raquel Sales.

A assessora técnica da diretoria de estudos sociais do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) contextualiza que o baixo peso por falta de alimento pode ser reduzido com políticas públicas.

“A ingestão calórica insuficiente é mais comum entre as crianças muito pobres e isto demanda políticas de transferência de renda às famílias para aumentarem a renda para comprar comida”, destaca.

Alimentos e renda

No Ceará, o programa Mais Nutrição beneficiou cerca de 40 mil pessoas com a doação de, aproximadamente, 850 toneladas de alimentos “in natura”, polpas e mix de preparo de alimentos.

Foram atendidos cerca de 16 mil crianças e adolescentes no programa que faz parte do Mais Infância, mantido pelo Governo do Estado. O público faz parte de 91 entidades sociais de Fortaleza, Caucaia e Maracanaú.

Na iniciativa, o Cartão Mais Infância deve atender por volta de 150 mil mães com filhos na primeira infância, com investimento de R$ 141 milhões, em 2021. A transferência de renda mensal, no valor de R$ 100, é para famílias com crianças de 0 a 5 anos e 11 meses em situação de vulnerabilidade.

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