45% dos alunos da rede pública no Enem 2019 não acessavam internet; conexão aumenta desempenho

Em 81 dos municípios do Ceará, menos da metade dos estudantes do 3º ano que participaram do exame no ano passado tinha acesso à rede

Legenda: Bárbara cursa o 3º ano do ensino médio e teve que vender o celular para ajudar com as contas em casa. Com isso, passou a ter mais dificuldade para ter aulas remotas
Foto: Foto: Divulgação

A importância - e, além disso, a necessidade - de acesso à internet para se obter uma boa educação ficou evidente com pandemia de Covid-19, quando as aulas passaram a ser online. Porém, antes disso, a influência da conexão para o desempenho de estudantes, principalmente do ensino médio, já existia. Por meio de dados do Enem 2019, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificaram correlação entre o acesso e os resultados: quanto mais alunos conectados, maiores as médias dos municípios cearenses na prova.

De acordo com o estudo "Primeiras Análises - o Enem 2019 sob contexto cearense", elaborado pelo Laboratório de Análise de Dados e Economia da Educação (educLAB), dos 79.204 estudantes pré-universitários da rede pública que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 35.978 declararam não possuir acesso à rede mundial de computadores, o que corresponde a quase metade (45,4%) do total.

O levantamento mostrou ainda que em 81 dos 184 municípios do Ceará, a porcentagem de candidatos com conexão era inferior a 50% - em 11 deles, menos de 10% dos alunos que fizeram Enem contavam com acesso à internet. As médias obtidas pelos estudantes dessas localidades nas cinco provas (linguagens, matemática, ciências humanas, da natureza e redação) variaram de 408 a 498 pontos - bem inferiores à maioria das notas de corte necessárias para ingressar em universidades estaduais ou federais.

As cidades de Altaneira, no sul do Estado, e Guaramiranga, a cerca de 100 km de Fortaleza, aparecem com porcentagens zeradas. Nas duas, 96 alunos do 3º ano do ensino médio da rede pública realizaram o exame - e é da primeira o recorde de menor média do Ceará no Enem 2019: 408 pontos. Os dados utilizados no estudo da UFC são oficiais, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Em Fortaleza, dos 18.462 candidatos dentro do recorte do estudo, 11.671 (63,2%) afirmaram ter acesso à internet quando fizeram o Enem. A média obtida pelos fortalezenses nas cinco provas foi de 499 pontos. A maior nota entre os municípios cearenses foi registrada por Pereiro, que faz divisa com o Rio Grande do Norte, onde os alunos obtiveram média de 520,55 pontos no exame nacional. Por lá, 87% dos 241 pré-universitários que prestaram o Enem declararam estar conectados regularmente à rede mundial de computadores.

Desigualdades

A professora do Curso de Ciências Econômicas da UFC, coordenadora do educLAB e da pesquisa, Alesandra Benevides, pontua que "não existe uma relação de causalidade entre acesso à internet e desempenho", mas há uma forte correlação entre ambos. "O 3º ano é o fechamento, é o ano decisivo, você precisa ter o conhecimento na palma da mão para decidir se ingressa direto no mercado ou na faculdade. Mas muitos municípios não dão essa condição de acesso, e a pandemia está cobrando o preço."

Ana Bárbara Mendes, 17, aprendeu isso da forma mais dura. Ela cursa o último ano escolar na Escola Estadual de Educação Profissional Lysia Pimentel, em Sobral, e precisou contar com a ajuda de professores e da diretoria para seguir nos estudos. "Houve um período em que eu não tinha celular pra enviar as atividades. Devido às dificuldades econômicas em casa, na pandemia, tive que vender pra ajudar. Passei a usar o aparelho do meu namorado", conta a estudante.

Hoje, Bárbara já conseguiu comprar outro aparelho - mas a internet utilizada não é própria. "Ainda estamos num processo financeiro complicado aqui em casa, não temos internet. Mas tive muito apoio da minha diretora de turma. Disse a ela que ia ter momentos que eu não conseguiria enviar as atividades nem assistir às aulas, porque a conexão tava muito ruim. Às vezes, a vizinha não pagava, e eu perdia aula. Mas tive que me virar, e recebi todos os materiais necessários", relata a pré-universitária - que divide a rotina entre os estudos remotos, os cuidados com o irmão pequeno e o sonho de ser psicóloga.

A estudante Gabrielle Holanda, 17, do 3º ano médio do Liceu do Conjunto Ceará, em Fortaleza, se define como "privilegiada" por ter acesso à rede, mesmo que instável. "São raras as vezes que dá problema, e quando dá, não assisto às aulas e perco o conteúdo. Mas tenho colegas que não têm internet em casa nem celular pra acessar. Estudar sem internet, nos dias de hoje, é quase que impossível", opina.

A professora Alesandra Benevides observa que, ano a ano, mais alunos estão conectados nos municípios - mas alerta que o processo ocorre de forma mais lenta entre discentes da rede pública. É também entre eles que a correlação acesso-desempenho perde força. "Porque só o acesso não basta. A internet tem tudo: informação e desinformação. É preciso haver orientação, monitoria, para que esse conteúdo seja bem filtrado e reflitam em desempenho. Os municípios e o Estado devem atentar a isso".

O acesso à internet pelo estudante é, então, um dos fatores para a equidade educacional entre as redes pública e privada - que, para a pesquisadora, ainda está distante de ser conquistada. Conforme o estudo do educLAB, a diferença de desempenho no Enem entre os 10% dos alunos mais pobres e os 10% mais ricos tem diminuído, mas permanece determinante na definição de quem entra ou não na universidade. Em 2013, 122,50 pontos separavam os dois grupos; em 2019, essa diferença caiu para 111,98 pontos - número ainda alto e que pode voltar a crescer.

"Não há dúvidas de que essa diferença pode se alargar no pós-pandemia. É por isso que a política de cotas é tão necessária, porque exige notas de corte um pouco mais baixas para a rede pública. A falta ou acesso precário à internet atinge principalmente os mais vulneráveis, e isso vai ter reflexo não só no desempenho de 2020: o conhecimento é cumulativo, vai levar algum tempo para revertermos essas distorções", lamenta a pesquisadora.

Para Alesandra, as tentativas da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) de chegar aos estudantes, por meio de distribuição de chips de dados móveis e outras ações emergenciais, são válidas, mas é difícil garantir que cheguem a todos. Uma alternativa à internet, então, sobretudo em lugares mais remotos, seria uma volta aos "velhos" tempos: o rádio. "É uma tecnologia antiga e mais simples, que todo mundo tem. Pega os mais vulneráveis, consegue transmitir o conteúdo, embora precise haver uma organização e um suporte. É uma boa", finaliza.

Em nota, a Seduc afirma que "lançou as diretrizes para organizar o trabalho escolar nesse segundo semestre", e aponta "o livro didático como principal ferramenta para as aulas remotas". Em cada escola, conforme a Pasta, "as aulas chegam aos estudantes por meio de tecnologias, material impresso, rádio ou TV". Além disso, a secretaria garante que oferece teleaulas voltadas a todos os níveis, em emissoras públicas locais. Dados sobre frequência e aprendizagem dos alunos nesse contexto serão atualizados ainda neste mês, promete. Na preparação para o Enem, finaliza a Pasta, "haverá ainda aulas em vídeo, materiais estruturados, concurso de redação, aulões, dicas de redação e palestras motivacionais".

 

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