Divisão entre integrantes de 'não facção' e grupo carioca chega aos centros socioeducativos do Ceará

A reportagem apurou que quase 5% das unidades são ocupadas atualmente por pessoas que se intitulam como "da massa"

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br

Segurança
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Legenda: A divisão já percebida nas ruas do Ceará e que motiva crimes, como a Chacina da Sapiranga, agora também é vista dentro dos centros socioeducativos que abrigam adolescentes em conflito com a lei.
Foto: Emanoela Campelo de Melo

Integrar uma facção, aparentemente, não é mais posição de privilégio dentro do 'mundo do crime'. Nos últimos meses, autoridades passaram a perceber que muitos suspeitos quando localizados e detidos dizem pertencer a uma massa e até mesmo se negam a estar próximo, trancafiado junto a um membro de determinado grupo já conhecido.

A divisão já percebida nas ruas do Ceará e que motiva crimes, como a Chacina da Sapiranga, agora também é vista dentro dos centros socioeducativos que abrigam adolescentes em conflito com a lei. O juiz Manuel Clístenes, titular da 5ª Vara da Infância e Juventude de Fortaleza, afirma que até o momento apenas 5% dos equipamentos são ocupados pelos que se autodenominam da "massa".

Pela atual situação de não haver excedente populacional nas unidades devido à exigência do Supremo Tribunal Federal (STF), é possível manter permanecer com a divisão dos internos, conforme afinidade. Membros das facções correspondentes e desta 'não facção' ficam separados dentro dos prédios, e assim se evitam conflitos.

No entanto, com a crescente da adesão dos suspeitos que dizem ser da massa existe a preocupação para as possíveis situações de confrontos. "É como se fosse uma volta ao tempo ao se intitular da massa. O que podemos identificar é que a maioria deles saem de uma facção criminosa carioca e se desvinculam. Então, pertenciam a um grupo e agora querem algum tipo de liberdade", explica Manuel Clístenes.

O magistrado destaca que o movimento surge como um "tipo de revolta" contra regras rigorosas impostas dentro dos grupos armados fundados há décadas. Conforme apuração da 5ª Vara da Infância e Juventude de Fortaleza, em cada um dos espaços administrados pela Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas) há de três a seis jovens nesse perfil.

"Precisamos observar se este é um movimento de libertação ou se é um novo grupo se formando. Acho difícil as facções perderem total o poder delas, mas o que vai acontecer ainda é uma incógnita. De qualquer forma precisamos dizer que este movimento não é pacífico"
Juiz
Manuel Clístenes


TROCA DE LÍDERES

A maior parte dos que dizem não pertencer a facção específica vêm da Grande Messejana e da Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza. Em ambos os territórios foi preciso substituir lideranças dos grupos armados, após prisões de membros do alto escalão das organizações ou até mesmo mortes durante confrontos protagonizados entre rivais.

"O que acontece dentro dos centros socioeducativos é reflexo do que há nas ruas. Os territórios dos que se dizem da massa ao serem entrevistados quando entram nas unidades coincidem com os territórios onde têm mais homicídios, mais confrontos", esclarece o titular da 5ª Vara da Infância e Juventude de Fortaleza.

A Seas se posicionou por nota informando não ter registro da presença de organização criminosa denominada "Massa" nos centros socioeducativos.

Conforme a Superintendência, atualmente, "os centros socioeducativos contam com metodologia de Práticas Restaurativas, Círculos de Paz e Gerenciamento de Conflitos para diminuir a influência das organizações nas unidades socioeducativas".


CHACINA DA SAPIRANGA

O crime mais recente e com larga repercussão envolvendo massa e membros da facção de origem carioca nas ruas foi a Chacina da Sapiranga. Cinco pessoas morreram e pelo menos outras seis ficaram feridas no massacre registrado na madrugada do último Natal.

A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso a documentos que apontam um homem conhecido como 'Etim' membro da facção em questão ordenou a matança. 'Etim' teria "rasgado a camisa", como os faccionados denominam ato de traição ao grupo, e decidido tomar o território do Campo do Alecrim.

Ao lado de outro envolvido, identificado como Raí César Silva chegaram ao campo, que é conhecido também como Campo da Leda, em posse de armamento de grosso calibre, ameaçaram populares e seguraram aqueles que queriam assassinar.

O principal alvo da ação era Israel da Silva Andrade. Conforme testemunhas, 'Rael' foi morto porque dominava a região da Sapiranga e precisava ser retirado do caminho por aqueles que estavam prestes a aderir a 'Massa'. Na última semana, o Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou 23 homens por participação na chacina.