Compatriota tramou o crime

Legenda: Alternando sentimentos de frieza e arrependimento, Luís Miguel Melitão Guerreiro, o homem que tramou a chacina dos próprios amigos, permanece na cadeia e até escreveu um livro sobre sua vida
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Depois de apurada investigação, a PF concluiu que o crime foi um latrocínio seguido de ocultação de cadáveres

Diante da Justiça, os criminosos demonstraram frieza ao falar dos assassinatos que haviam praticado. A condenação aconteceu menos de um ano depois fotos: Kid júnior

Eram 15 horas do dia 24 de agosto de 2001, quando uma guarnição do Grupamento de Busca e Salvamento (GBS), do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará, concluía o trabalho de escavação no piso da cozinha da barraca de praia ´Vela Latina´, na Praia do Futuro.

Encerrava-se naquele momento a procura pelos seis empresários portugueses que haviam ´sumido´ 12 dias antes após chegarem a Fortaleza.

Terminavam as buscas às vítimas do crime, mas começava ali um longo trabalho de investigação sobre a chacina que somente foi concluída pela Polícia Federal um mês depois.

No dia 28 de setembro de 2001, uma entrevista coletiva a Imprensa brasileira e aos correspondentes estrangeiros (vários jornalistas europeus vieram à Fortaleza acompanhar o caso) foi concedida pelo então superintendente da PF no Ceará, delegado Wilson Nascimento; e pelo presidente do inquérito que apurou o crime, delegado Cláudio Barros Joventino.

Latrocínio

"O inquérito está concluído e foi enviado à Justiça. Junto ao relatório, solicitamos a transformação da prisão temporária dos acusados em prisão preventiva. A Polícia Federal agora está à disposição da Justiça para realizar novas investigações, caso assim nos seja solicitado", disse Nascimento aos jornalistas.

De acordo com a PF, o crime que vitimou os seis empresários portugueses foi praticado por uma quadrilha cujo chefe era o também português Luís Miguel Melitão Guerreiro, que na época tinha 31 anos de idade. Com ele, agiram seus comparsas Leonardo Sousa dos Santos, o ´Tronco´; Manuel Lourenço Cavalcante, o ´Cláudio´; José Jurandir Pereira Ferreira e Raimundo Martins da Silva Filho.

A dinâmica do crime foi exposta nos autos do inquérito policial, um calhamaço de 402 páginas, onde foram anexados laudos periciais, cadavéricos, depoimentos dos implicados, de testemunhas e informantes. Os cinco homens foram indiciados pelos crimes de latrocínio (roubo seguido de morte), ocultação de cadáver e formação de quadrilha ou bando.

Simulação

Após a chegada dos visitantes no aeroporto, Melitão levou todos em uma Kombi diretamente para a barraca ´Vela Latina´. Prometeu que naquela mesma noite seria realizada uma festa regada a muita bebida e mulheres. Entretanto, a trama já estava montada. Os comparsas dele apareceram repentinamente e simularam um assalto no qual o próprio Melitão foi rendido.

As vítimas foram espancadas, amarradas e passaram a ser mortas em sequência.

O primeiro homem preso, o segurança Leonardo Sousa dos Santos, o ´Tronco´, prestou um longo depoimento na sede da PF em que contou ao delegado Cláudio Joventino detalhadamente como tudo aconteceu.

Leonardo revelou a identidade dos cúmplices. O segundo a ser detido foi José Jurandir Pereira Ferreira. Na casa dele, no bairro Castelo Encantado, a PF encontrou um revólver calibre 38, capacidade para cinco tiros, que foi usado para render e executar as seis vítimas.

Um a um

No depoimento, Leonardo confessou que a trama para matar os portugueses foi montada por Melitão pelo menos, um mês antes da chacina. "Ele nos revelou que o Luís Melitão os convidou 30 dias antes. O buraco onde as vítimas foram enterradas foi cavado na véspera do crime (dia 11 de agosto de 2001, um sábado). Disse, ainda, que Raimundo Martins, outro segurança, rendeu as vítimas com o revólver e, então, um a um, os portugueses foram levados para o cômodo onde estava o buraco e assassinados a tiros, pauladas e facadas", explicou o delegado Joventino. No dia 22 de agosto, Melitão e a mulher foram capturados em Barra do Corda (MA).

Na tarde do dia 24, os corpos acabaram descobertos na barraca de praia. Chamou a atenção dos policiais, bombeiros e peritos, a forma como os criminosos esconderam os mortos. Eles cavaram um buraco de aproximadamente dois metros de profundidade, colocaram o primeiro cadáver, despejaram uma camada de areia e fixaram uma laje de concreto. O processo se repetiu até que os seis corpos fossem ocultados. Depois, colocaram mais uma camada grossa de cimento e, para terminar, pintaram o piso com tinta verde.

PROCESSO

Melitão acabou condenado a 150 anos

"Sou um monstro!" As palavras foram proferidas por Luís Miguel Melitão Guerreiro um dia após a descoberta dos corpos dos seis compatriotas. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, quando era levado pela PF ao Instituto Médico Legal para ser submetido a exame de corpo de delito, o mentor da chacina afirmou ter se arrependido do que fez.

Nas semanas seguintes ao crime, porém, Melitão oscilou seu comportamento. Ora mostrava-se envolvido por um sentimento de remorso e depressão, noutros apresentava um quadro de muita frieza ao falar com as autoridades sobre a trama que articulou para matar os amigos.

Dinheiro e joias

Mas, no decorrer das investigações, a PF descobriu que ele agiu unicamente com o intuito de roubar o dinheiro das vítimas. Terminadas as execuções, passou a sacar dinheiro e fazer compras com os cartões de crédito dos mortos. Para isso, durante o crime havia obrigado os empresários a fornecer as senhas dos cartões. Chegou a comprar joias para a mulher. Sua intenção era fugir do Brasil através da Guiana Francesa.

Das mãos da Polícia Federal, o caso foi parar na Justiça Comum. No dia 21 de setembro de 2001, os promotores de Justiça José Valdo Silva e Teodoro Silva Santos, que representavam o Ministério Público junto à Quarta Vara Criminal de Fortaleza, ofereceram a denúncia contra os assassinos.

Latrocínio, concurso de pessoas, concurso material, ocultação de cadáver e formação de quadrilha foram os crimes pelos quais os cinco homens foram denunciados formalmente a Justiça.

Julgamento

Ao ser interrogado na tarde do dia 25 de setembro de 2001, perante a juíza de Direito, Rosilene Ferreira Tabosa Facundo, Melitão negou participação no crime e chegou a dizer que sequer conhecia os portugueses mortos. Sua atitude foi seguida pelos demais acusados do sêxtuplo homicídio. Mas, ao ser reinquirido no dia 29 de novembro do mesmo ano, voltou atrás e confessou o delito. No dia 21 de fevereiro de 2002, saiu a sentença. Melitão acabou recebendo uma condenação de 150 anos de cadeia (25 por cada vítima). Ele e seus comparsas estão até hoje atrás das grades.

JORNALISMO

Diário foi a Portugal cobrir os funerais

"O sentimento de perda ficou demarcado na hora de dizer adeus..."

O trecho acima iniciou a reportagem publicada pelo Diário do Nordeste na edição do dia 1º de setembro de 2001, em que o jornalista Ildefonso Rodrigues, diretor-editor do jornal, narrava os momentos de dor dos familiares dos seis cidadãos portugueses mortos no Ceará.

Rodrigues viajou a Portugal em companhia do editor de Fotografia, Eduardo Queiroz, para, de forma exclusiva, fazer a cobertura do sepultamento dos empresários assassinados.

O Diário foi o único jornal brasileiro a mandar uma equipe à Europa para cobrir os funerais das vítimas. A viagem dos jornalistas foi feita na mesma aeronave (voo 1535 da TAP) que transportou os caixões com os corpos dos empresários.

Cobertura

Na tarde do dia 31 de agosto, centenas de pessoas foram aos cemitérios das cidades portuguesas de Barreiro, Seixal, Montijo e Ambiúl, em Pombal, acompanhar os enterros. A Reportagem do dia 1º de setembro mostrou ´in loco´ os funerais.

O CASO

11/08/2001
Os seis empresários portugueses embarcam em Lisboa, em voo da TAP, com destino a Fortaleza

12/08/2001 Os empresários desembarcam no Ceará, são levados para a barraca ´Vela Latina, na Praia do Futuro, mortos e seus corpos ocultados

13/08/2001 O sumiço das vítimas leva a Polícia Federal a iniciar a investigação sobre o caso

22/08/2001 A PF captura Luís Miguel Melitão e a mulher dele na cidade de Barra do Corda, no Maranhão

24/08/2001 Os corpos são encontrados na barraca ´Vela Latina´

31/08/2001 Os empresários são sepultados em Portugal

FERNANDO RIBEIRO
EDITOR DE POLÍCIA
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