Viagem a Roma repete saga de Padre Cícero
Antônio Vicelmo
sucursal Crato
A peregrinação que os defensores da reabilitação canônica do Padre Cícero fazem à Europa é a repetição de uma cena exibida há mais de um século, quando próprio Padre Cícero, em 1898, foi à Roma reivindicar, junto ao Santo Ofício, o direito de voltar a celebrar missa, confessar e casar. A diferença é que a época é outra. Hoje, a Igreja Católica tem uma visão acolhedora com a religiosidade popular, a caravana é comandada por dom Fernando Panico, um bispo romeiro, corajoso, que abraçou a defesa do Padre Cícero.
Enquanto o sacerdote saiu do Cariri sozinho, com a coragem e a verdade no coração, os “peregrinos da justiça” seguem nos braços do povo, acariciados pelos novos ventos que varreram os preconceitos contra os devotos do “Santo do Povo”, escolhido como “Cearense do Século”.
Há 108 anos, quando Padre Cícero partiu, de navio, do porto do Recife, com destino à Roma, o papa era Leão XIII. Hoje, é Bento XVI que, quando cardeal, pediu ao novo bispo da Diocese do Crato, dom Fernando Panico, um parecer sobre a possibilidade de ser feito um estudo do caso do Padre Cícero. Imediatamente, foi formada uma Comissão de Estudos para o Processo de Reabilitação Histórico-Eclesial do Padre Cícero Romão Batista. A conclusão de pesquisa, inteiramente favorável a reabilitação, é o documento que faltava para a correção de uma injustiça. O Padre Cícero deixou o Cariri dividido. Já os “mensageiros da paz”, que estão a caminho de Roma, deixam o Nordeste unido, de mãos dadas, em torno de seu “Santo Maior”.
Convalescendo de uma virose que o impediu de participar do Congresso Eucarístico, dom Fernando Panico falou, com entusiasmo, sobre apoio recebido dos bispos durante a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, realizada, em Itaici, São Paulo. Um dos bispos do Nordeste lhe entregou um bilhete, agradecendo pela iniciativa. Além dos bispos, 20 deputados da bancada nordeste na Câmara Federal assinaram um documento de apoio. É uma vitória para um bispo que começou praticamente sozinho uma verdadeira guerra santa em defesa da justiça.
Dom Fernando leva na bagagem duas mil páginas de estudos, com alguns documentos inéditos que foram encontrados na Cúria Diocesana. Um desses documentos faz uma revelação importante. Em 1920, o primeiro bispo do Crato, dom Quintino de Oliveira e Silva, ao receber o Decreto do Vaticano excomungando o Padre Cícero, o entregou a decisão papal. Dom Quintino escreveu para Roma, pedindo o perdão do sacerdote. Ao fazer esta revelação, dom Fernando diz entusiasmado: “Agora, o quinto bispo do Crato pede a reabilitação canônica do Padre Cícero”.
Dom Fernando informou que ainda não foi conseguida uma audiência particular com o papa. A embaixadora do Brasil junto ao Vaticano, Vera Machado, está tentando um local privilegiado na audiência pública com o papa, para o governador Lúcio Alcântara e dom Fernando, a fim de que eles tenham condições de cumprimentar Bento XVI.
O Padre Cícero deixou o Cariri dividido. Já os “mensageiros da paz”, que estão a caminho de Roma, deixam o Nordeste unido, de mãos dadas, em torno de seu “Santo Maior”.