Vaquejada se modernizou, mas mantém as tradições
Esporte de alto custo, muitas práticas mudaram, mas se mantém, a despeito dos questionamentos
Iguatu. A vaquejada é um esporte de alto custo. Exige cavalos de raça, cujo valor ultrapassa R$ 100 mil, e vaqueiros financiados por empresas do setor agropecuário ou por fazendas (haras). Essa tendência se intensificou a partir da década de 1990 e se consolidou, apesar das dificuldades com a estiagem e a crise financeira. O evento de hoje remonta à cultura nordestina de ocupação sertaneja a partir do ciclo econômico do couro e do gado, mas com padrões totalmente diferentes.
Origem
Na verdade, não se tem um registro preciso da origem da vaquejada. No primeiro quartel do século passado havia disputas nas fazendas ou demonstração de captura de bois. "A ocupação do sertão ocorreu com a criação extensiva, à solta, do gado vacum", explica o advogado e pesquisador Getúlio Oliveira. "Periodicamente o trabalho de apartação era feito por vaqueiros, vestidos em roupas de couro, que enfrentavam a Caatinga, os arbustos e espinhos", completa.
Era preciso separar o gado, apartar bezerros e novilhos, bichos machos e fêmeas. "Com certeza, esse tipo de trabalho deu origem à vaquejada. Os meus pais e avós falavam da corrida pé de mourão (tronco em que se amarram animais) nas fazendas, como demonstração de destreza do vaqueiro e depois como disputa", conta o veterinário Mauro Nogueira.
Segundo Nogueira, o mourão também pode ser entendido como o pé da porteira. "Havia um corredor estreito (jiqui), onde o gado corria e a dupla de vaqueiro acompanhava nas laterais. Vencia o desafio quem derrubasse o boi em uma distância mais curta, mas hoje tem um espaço definido", explica.
Das festas de apartação do gado, da corrida de pé de mourão e dos bolões (pega de boi mais simples), a vaquejada evoluiu e tornou-se um esporte de custo elevado. Não se vê mais vaqueiro trajando vestimentas de couro - chapéu, gibão (jaqueta), peitoral (peça para proteger o tórax) e perneiras (calças). "Eles estão de camiseta, de boné com marcas do haras financiador, montados em um cavalo que às vezes chega a custar mais de R$ 200 mil", diz Nogueira.
Hoje, a vaquejada disputada em grandes parques é um grande acontecimento esportivo. O empresário Francisco Lira, 56, veio de Campina Grande participar da vaquejada de Brejo Santo. É o proprietário da Fazenda São Lucas. "Comecei criança e pratico por esporte por hobby", diz. Ele adquiriu quatro senhas (direito à disputa) por R$ 3 mil.
Negócio
Da origem ligada à lida com o gado nas fazendas, depois por demonstração de habilidade, agora é um grande negócio no Nordeste. "Hoje é um dos negócios que mais movimentam recursos, gera emprego e renda", diz o promotor de vaquejada, em Iguatu, Dudu Bezerra. "Se der muitos participantes, dá lucro, mas a gente faz por amor, por tradição", afirma o empresário. Bezerra estima que haverá 300 duplas inscritas na próxima. "Se não fosse a crise, seriam pelo menos 500 duplas", disse.
Questionamentos
Certos de que a atividade não será proibida no Brasil, vaqueiros seguem participando dos eventos no sertão nordestino. Eles defendem a prática da derrubada de boi por ser cultural e estar integrada à tradição e à história do ciclo econômico do couro e do gado.
O setor quer a regulamentação da atividade e a aplicação de normas de proteção aos animais e aos vaqueiros. Os cinco anos seguidos de seca e a crise econômica que castigam o sertão não foram suficientes para derrubar a prática, mas houve queda estimada em até 30% no número de participantes e nos negócios. Mesmo assim, o calendário anual de vaquejadas é mantido ao longo dos meses, com eventos pequenos, médios e grandes.
Neste último fim de semana, ocorreu a vaquejada no Parque Boa Vista, em Milagres, na região do Cariri. Desde 1996, que a atividade é mantida no parque em duas datas anuais. Há 20 dias, ocorreu a tradicional vaquejada de Brejo Santo, município vizinho, uma das maiores do Brasil, com mais de mil vaqueiros.
O Supremo Tribunal Federal (STF) está julgando uma lei de iniciativa do deputado Wellington Landim, aprovada em 2013, que regulamenta a vaquejada no Ceará. A Procuradoria Geral da República ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a norma estadual. Em 2 de junho passado, um pedido de vistas (mais tempo para análise) do ministro Dias Toffoli interrompeu, pela segunda vez seguida, o julgamento da ADI. O STF analisa se a lei do Ceará é constitucional. Até o momento, oito ministros se pronunciaram, sendo quatro de cada lado.
A União Internacional Protetora dos Animais (Uipa) defende a inconstitucionalidade da Lei que regulamenta a vaquejada no Ceará por ser uma atividade "cruel e brutal, causando sofrimento aos bovinos, que são açoitados e sofrem dores ao serem puxados pelo rabo". Os ativistas contra a atividade têm por base o artigo 225 (inciso VII do 1º parágrafo) da Constituição Federal, que veda crueldade contra os animais.
Os ministros e pessoas favoráveis à vaquejada argumentam que a atividade é cultural e desportiva. E teria também amparo no texto constitucional, além do aspecto econômico de geração de emprego e renda.
Os vaqueiros e promotores querem a regulamentação da atividade. "Somos contra qualquer forma de maus tratos e isso já é observado, sem açoites no boi e no cavalo, além do uso do protetor de cauda", frisa o vice-presidente da Associação Brasileira de Vaquejada, Marcos Lima. "Já fizemos ajustes, adoção de normas protetivas", acrescenta.
Humberto José Sobreira Dantas (Beto), promotor da vaquejada no Parque Boa Vista, reforça que os açoites estão proibidos. "Se o vaqueiro bater no boi ou no cavalo é desclassificado. As adaptações foram feitas, estão sendo aperfeiçoadas e todos concordam com a proteção aos animais e aos vaqueiros", diz.
Fiscalização
As vaquejadas são fiscalizadas pela Agência de Defesa Agropecuária (Adagri). "Os animais são bem cuidados e alimentados e não torou uma cauda. Estamos seguindo as normas de proteção e os vaqueiros usam luvas e não podem açoitar os animais e usar esporas afiadas", afirma José (Dedé) Leopoldo, organizador da vaquejada de Brejo Santo.
Há três tipos de competidores: vaqueiros contratados por fazendas, haras (maioria); os que competem por conta própria (estão desaparecendo); e empresários, que disputam por hobby. Nas pistas, há muitos jovens começando. Vitória Lima, 14, tem o apoio do pai e já é esteira (corre ao lado do puxador, segurando a cauda e entregando-a ao vaqueiro).
ENQUETE
Como é o seu envolvimento?
"Sou contratado pelo Haras JH e desde os 15 anos de idade que comecei a praticar a corrida para derrubada de boi, vendo meu avô, meu pai. Rodo todo o Nordeste e acredito que a atividade não será proibida"
Joaquim José Furtado Neto
Vaqueiro
"A gente compete por gostar, por ser da nossa cultura, mas a atividade não dá renda, a não ser que seja uma vaqueirama muito boa. O que predomina atualmente é o vaqueiro contratado por patrão"
Francisco Tavares de Lima
Vaqueiro e fazendeiro de pequeno porte
Programação
18 de Setembro
Vaquejada do Parque Silva Antero - 2016
Parque Silva Antero
Farias Brito - CE
23 a 25 de Setembro
71ª Vaquejada Parque Novilha de Prata - 2016
Parque Novilha de Prata
Itapebussu - CE