Penitentes entoam cantochão para rogar por chuvas
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Redação
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Pela primeira vez, grupo de penitentes de Porteiras se deixa fotografar durante ritual da Idade Média
Porteiras "Rogai por nós! Oh, Maria! amparo do pecador, pedindo a Deus que nos dê chuva, oh mãe de Deus, por vossa dor!". O cantochão dos penitentes, pedindo chuvas, quebra o silêncio fúnebre do cemitério de Porteiras. No céu, a lua clara sem nenhuma indicação de inverno. Na terra, o legume morre estorricado pelo Sol. Na fé dos penitentes, a esperança de que Deus se compadeça dos pobres, principais vítimas de uma eventual seca. São agricultores de mãos calejadas que carregam no rosto as marcas do sofrimento cotidiano.
Eles não aparecem em público. Nunca foram, até então, fotografados ou filmados. O Diário do Nordeste teve acesso, com exclusividade, ao ritual feito pelo grupo de penitentes dentro de um cemitério, na madrugada de ontem. Eles vagueiam pelos os cemitérios e cruzes das estradas sertanejas, rezando pelas almas. O canto dolente ecoa nas quebradas e grotões dos pés de serra aterrorizando as crianças que àquela hora da noite estão acordadas. São os penitentes de Porteiras, um grupo de camponeses (11 homens e quatro mulheres) que deixam suas casas, na calada da noite, para cumprir a penitência da quaresma que começa na Quarta-Feira de Cinzas e vai até o Domingo de Ramos, abertura da Semana Santa.
A Igreja Católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na Quarta-Feira de Cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma consequência da penitência, diz o padre José Sampaio, vigário de Porteiras. O sacerdote afirma que vem acompanhando o ritual místico dos penitentes, tentando evangelizá-los, respeitando a sua cultura.
Este ano, os penitentes tem mais um motivo para o seu ritual. Pedir a Deus que mande chuva para salvar a pobreza de uma calamidade provocada por uma eventual seca. A penitência, segundo o decurião Cícero Ventura da Silva, tem com objetivo aplacar a ira divina e aliviar as misérias do povo. O decurião lembra uma música de São José que diz: "Meu divino São José, pela cruz que tem na mão, nem de fome, nem de sede, não mate seus filhos, não". Porteiras e Brejo Santo fazem parte de uma das regiões do Cariri mais assoladas pela seca. O milho e o feijão plantados em janeiro estão morrendo por falta de chuvas. A lamentação é geral entre os agricultores.
Padre Ibiapina
O ritual é uma tradição surgida no Cariri durante uma epidemia de cólera, entre 1860 e 1870. O decurião lembra que, quando o Padre Antônio Pereira Ibiapina esteve no Cariri, deixou uma recomendação em forma de verso. "Padre Ibiapina deixou uma árvore plantada, o terço na boca da noite e o ofício de madrugada". O ofício, segundo seu Cícero, é a reza dos penitentes.
Ele diz que a seca não é um castigo de Deus. "Tudo já vem determinada desde o início. A seca faz parte das coisas que obrigatoriamente têm que acontecer", explica. "Estamos rezando para que Deus tenha piedade de nós", complementa.
A manifestação da fé do grupo dos penitentes tem suas raízes no período medieval, nas práticas das irmandades flagelantes que viveram no sul da Itália nos séculos XI e XII. Na região do Cariri, as ordens dos Penitentes surgiram por volta de 1860, época de fome e peste, incentivadas pelo mestre Padre Ibiapina. O médico Napoleão Tavares Neves descreve que "com sua aguçada inteligência e proverbial pragmatismo, Ibiapina logo sentiu que os penitentes eram sempre homens sérios, místicos e de bom procedimento e os estimulou a continuarem suas práticas religiosas.
Eles já não se autoflagelam como antigamente, quando se retalhavam com lâminas de ferro para purgar os pecados. O decurião diz que este sacrifício foi substituído por outras penitências. No entanto, mantêm o mesmo ritual ensinado pelo Padre Ibiapina, um sacerdote que viveu no Cariri, no fim do século 18 e cujo processo de canonização está em andamento no Vaticano.
Antigamente, ninguém, nem mesmo a família, sabia quem participava da confraria secreta que andava à noite nas estradas com o rosto coberto, vestindo roupas medievais, com auto-flagelação, entoando benditos e amedrontando as crianças com o seu cantochão peculiar.
ACERVO HISTÓRICO
Cruz de madeira foi doada pelo Padim
Porteiras O grupo de penitentes é uma tradição mantida há pelo menos quatro gerações. O decurião Cícero Ventura da Silva conta que a cruz de madeira, enfeitada com fitas e medalhas, que é carregada pelo decurião, é uma herança do padre Cícero. De acordo com o decurião, o sacerdote de Juazeiro tomou a cruz de uma mulher penitente que cometeu um "erro". Na tradução sertanejo, "erro" é adultério, um pecado mortal para a moral sertaneja.
"A cruz foi entrega, pelo próprio Padre Cícero, a Antônio Cupira, que morava no sopé da Serra de Porteiras. Este passou para um irmão mais novo, Salustriano Cupira, que morreu em São Paulo e agora está comigo". Ao descrever a trajetória da cruz, seu Cícero garante que enquanto tiver vida, vai cumprir a promessa de carregar este símbolo da cristandade pelo sertão afora.
O professor pesquisador José Cícero, de Aurora, diz que a irmandade, como eles próprios gostam de ser chamados, encarna a um só tempo no seu conteúdo místico: votos de adoração, obediência, oração e penitência. Tudo isso corporificado em ritos estranhos que chegam a beirar o limite do racional, pelos menos, sob a ótica de uma sociedade contemporânea que se acredita viver a plenitude da pós-modernidade.
Porém ele ressalva ser preciso acentuar que toda verdade, seja ela explícita ou subliminar, reside no homem e não no objeto. "Talvez seja esta a compreensão que todos precisam para nunca mais taxar estes seres do devotamento com adjetivos pejorativos, como tem sido a marca dos novos padrões civilizatórios de uma sociedade calcada no imediatismo das relações de resultados. As alcunhas simplistas e apressadas de fanáticos, loucos, beatos, alienados e outras definições do gênero, além de preconceituosas, apenas evidenciam o nível de incompreensão vivenciado pelos povos do presente quando se trata de outros níveis mais sutis de existência", afirma ele.
Apoio municipal
Ao contrário da maioria dos grupos de penitentes, os devotos de Porteiras não dependem da Prefeitura para manter a organização. Com o pouco que ganham, compram a indumentária, a roupa preta com listas brancas e a toca que é colocada na cabeça.
A secretária do Departamento de Cultura de Porteiras, Fábia Gomes Tavares, diz que eles nunca procuraram a Prefeitura para pedirem algum tipo de apoio. "No entanto, nós vamos acompanhá-los mais de perto com o objetivo de manter esta tradição que faz parte da cultura popular e da própria história da cidade que foi visitada por Padre Ibiapina que, além de ter incentivado à penitência, construiu a Igreja Matriz de Porteiras", diz ela.
RESPEITO
"Eles têm uma religiosidade medieval. Com respeito à cultura, levamos o Evangelho"
Padre José Sampaio
Vigário de Porteiras
"É uma tradição que lembra a visita do Pe.Ibiapina às Porteiras. Merece preservar"
Fábia Gomes Tavares
Diretora do Departamento de Cultura de Porteiras
Mais informações
Departamento de Cultura de Porteiras, Rua Mestre Zuca, 16
(88) 3557.1458
(88) 3557.1242/ 3557.1230
ANTÔNIO VICELMO
Repórter
Porteiras "Rogai por nós! Oh, Maria! amparo do pecador, pedindo a Deus que nos dê chuva, oh mãe de Deus, por vossa dor!". O cantochão dos penitentes, pedindo chuvas, quebra o silêncio fúnebre do cemitério de Porteiras. No céu, a lua clara sem nenhuma indicação de inverno. Na terra, o legume morre estorricado pelo Sol. Na fé dos penitentes, a esperança de que Deus se compadeça dos pobres, principais vítimas de uma eventual seca. São agricultores de mãos calejadas que carregam no rosto as marcas do sofrimento cotidiano.
Eles não aparecem em público. Nunca foram, até então, fotografados ou filmados. O Diário do Nordeste teve acesso, com exclusividade, ao ritual feito pelo grupo de penitentes dentro de um cemitério, na madrugada de ontem. Eles vagueiam pelos os cemitérios e cruzes das estradas sertanejas, rezando pelas almas. O canto dolente ecoa nas quebradas e grotões dos pés de serra aterrorizando as crianças que àquela hora da noite estão acordadas. São os penitentes de Porteiras, um grupo de camponeses (11 homens e quatro mulheres) que deixam suas casas, na calada da noite, para cumprir a penitência da quaresma que começa na Quarta-Feira de Cinzas e vai até o Domingo de Ramos, abertura da Semana Santa.
A Igreja Católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na Quarta-Feira de Cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma consequência da penitência, diz o padre José Sampaio, vigário de Porteiras. O sacerdote afirma que vem acompanhando o ritual místico dos penitentes, tentando evangelizá-los, respeitando a sua cultura.
Este ano, os penitentes tem mais um motivo para o seu ritual. Pedir a Deus que mande chuva para salvar a pobreza de uma calamidade provocada por uma eventual seca. A penitência, segundo o decurião Cícero Ventura da Silva, tem com objetivo aplacar a ira divina e aliviar as misérias do povo. O decurião lembra uma música de São José que diz: "Meu divino São José, pela cruz que tem na mão, nem de fome, nem de sede, não mate seus filhos, não". Porteiras e Brejo Santo fazem parte de uma das regiões do Cariri mais assoladas pela seca. O milho e o feijão plantados em janeiro estão morrendo por falta de chuvas. A lamentação é geral entre os agricultores.
Padre Ibiapina
O ritual é uma tradição surgida no Cariri durante uma epidemia de cólera, entre 1860 e 1870. O decurião lembra que, quando o Padre Antônio Pereira Ibiapina esteve no Cariri, deixou uma recomendação em forma de verso. "Padre Ibiapina deixou uma árvore plantada, o terço na boca da noite e o ofício de madrugada". O ofício, segundo seu Cícero, é a reza dos penitentes.
Ele diz que a seca não é um castigo de Deus. "Tudo já vem determinada desde o início. A seca faz parte das coisas que obrigatoriamente têm que acontecer", explica. "Estamos rezando para que Deus tenha piedade de nós", complementa.
A manifestação da fé do grupo dos penitentes tem suas raízes no período medieval, nas práticas das irmandades flagelantes que viveram no sul da Itália nos séculos XI e XII. Na região do Cariri, as ordens dos Penitentes surgiram por volta de 1860, época de fome e peste, incentivadas pelo mestre Padre Ibiapina. O médico Napoleão Tavares Neves descreve que "com sua aguçada inteligência e proverbial pragmatismo, Ibiapina logo sentiu que os penitentes eram sempre homens sérios, místicos e de bom procedimento e os estimulou a continuarem suas práticas religiosas.
Eles já não se autoflagelam como antigamente, quando se retalhavam com lâminas de ferro para purgar os pecados. O decurião diz que este sacrifício foi substituído por outras penitências. No entanto, mantêm o mesmo ritual ensinado pelo Padre Ibiapina, um sacerdote que viveu no Cariri, no fim do século 18 e cujo processo de canonização está em andamento no Vaticano.
Antigamente, ninguém, nem mesmo a família, sabia quem participava da confraria secreta que andava à noite nas estradas com o rosto coberto, vestindo roupas medievais, com auto-flagelação, entoando benditos e amedrontando as crianças com o seu cantochão peculiar.
ACERVO HISTÓRICO
Cruz de madeira foi doada pelo Padim
Porteiras O grupo de penitentes é uma tradição mantida há pelo menos quatro gerações. O decurião Cícero Ventura da Silva conta que a cruz de madeira, enfeitada com fitas e medalhas, que é carregada pelo decurião, é uma herança do padre Cícero. De acordo com o decurião, o sacerdote de Juazeiro tomou a cruz de uma mulher penitente que cometeu um "erro". Na tradução sertanejo, "erro" é adultério, um pecado mortal para a moral sertaneja.
"A cruz foi entrega, pelo próprio Padre Cícero, a Antônio Cupira, que morava no sopé da Serra de Porteiras. Este passou para um irmão mais novo, Salustriano Cupira, que morreu em São Paulo e agora está comigo". Ao descrever a trajetória da cruz, seu Cícero garante que enquanto tiver vida, vai cumprir a promessa de carregar este símbolo da cristandade pelo sertão afora.
O professor pesquisador José Cícero, de Aurora, diz que a irmandade, como eles próprios gostam de ser chamados, encarna a um só tempo no seu conteúdo místico: votos de adoração, obediência, oração e penitência. Tudo isso corporificado em ritos estranhos que chegam a beirar o limite do racional, pelos menos, sob a ótica de uma sociedade contemporânea que se acredita viver a plenitude da pós-modernidade.
Porém ele ressalva ser preciso acentuar que toda verdade, seja ela explícita ou subliminar, reside no homem e não no objeto. "Talvez seja esta a compreensão que todos precisam para nunca mais taxar estes seres do devotamento com adjetivos pejorativos, como tem sido a marca dos novos padrões civilizatórios de uma sociedade calcada no imediatismo das relações de resultados. As alcunhas simplistas e apressadas de fanáticos, loucos, beatos, alienados e outras definições do gênero, além de preconceituosas, apenas evidenciam o nível de incompreensão vivenciado pelos povos do presente quando se trata de outros níveis mais sutis de existência", afirma ele.
Apoio municipal
Ao contrário da maioria dos grupos de penitentes, os devotos de Porteiras não dependem da Prefeitura para manter a organização. Com o pouco que ganham, compram a indumentária, a roupa preta com listas brancas e a toca que é colocada na cabeça.
A secretária do Departamento de Cultura de Porteiras, Fábia Gomes Tavares, diz que eles nunca procuraram a Prefeitura para pedirem algum tipo de apoio. "No entanto, nós vamos acompanhá-los mais de perto com o objetivo de manter esta tradição que faz parte da cultura popular e da própria história da cidade que foi visitada por Padre Ibiapina que, além de ter incentivado à penitência, construiu a Igreja Matriz de Porteiras", diz ela.
RESPEITO
"Eles têm uma religiosidade medieval. Com respeito à cultura, levamos o Evangelho"
Padre José Sampaio
Vigário de Porteiras
"É uma tradição que lembra a visita do Pe.Ibiapina às Porteiras. Merece preservar"
Fábia Gomes Tavares
Diretora do Departamento de Cultura de Porteiras
Mais informações
Departamento de Cultura de Porteiras, Rua Mestre Zuca, 16
(88) 3557.1458
(88) 3557.1242/ 3557.1230
ANTÔNIO VICELMO
Repórter