Palha é transformada em arte

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Foto: Welligton Macedo

De uma matéria-prima simples, a palha, mãos habilidosas de homens, mulheres e crianças do sertão tiram verdadeiras “obras de arte artesanal” em forma de chapéus, bolsas, esteiras, sandálias, cestas e mais uma infinidade de objetos que encantam exigentes consumidores de todo o País. O enfraquecimento da cultura da carnaúba não fez desaparecer esta prática que passa de geração a geração, especialmente nos municípios da zona norte, como Sobral, Massapê e Santana do Acaraú. Na região, é comum encontrar famílias inteiras tecendo chapéus, bolsas e demais produtos. Porém o artesanato em palha também gera trabalho e renda em cidades como Juazeiro do Norte e Canindé. Na Rua do Horto, em Juazeiro, a tradição é passada de pai para filho. Já em Canindé, é fonte de renda e ocupação para mais de 600 famílias. No município, a Secretaria da Indústria tem um banco de dados que define o perfil do artesão da palha.

Começou a derrubada da palha de carnaúba no Ceará, um trabalho que se estende até janeiro. A atividade gera cerca de 80 mil empregos no norte do Estado. Centenas de homens se embrenham mato adentro de 5 horas às 17 horas derrubando e colhendo as folhas da planta que foi escolhida pelo governo estadual como a árvore-símbolo do Ceará. Claubésio dos Santos Costa, 28 anos, derruba folhas de carnaúba desde garoto, junto com seu pai que é conhecido pelo apelido de “Maricota”. Ele e uma turma de 14 homens foram os primeiros a fazer a colheita este ano. Na quarta-feira passada, estavam no distrito de Aracatiaçu, a 80 km da sede de Sobral. Como um dos mais antigos trabalhadores, Antônio Dejacir Mendes, 40 anos, começou a derrubar folhas de carnaubeiras aos 13 anos. O calor do sol e as marcas de cortes nas mãos não o fazem parar antes das 17 horas. Ele ganha R$ 10,00 por dia pelo serviço. Esta é apenas a primeira etapa de todo o processo. O objetivo de Claubésio é derrubar folhas e olho de 1,5 milhão de carnaúbas até janeiro de 2005. Desta quantia, apenas 200 mil são destinadas à fabricação de chapéus e outros produtos artesanais. Segundo ele, até o dia 15 de agosto outras 15 turmas de várias cidades da zona norte estarão começando a derrubada das folhas.

A palha é uma tradição na fabricação de produtos artesanais. Dela ainda se produz a cera e o pó que é de grande valor comercial. Da família das ceríferas, a carnaúba é uma palmeira de grande beleza e de múltiplos aproveitamentos na cultura do artesanato nordestino. Suas palhas, além de serem utilizadas para cobertura de paredes e divisões de casas rústicas no interior, são responsáveis também pela grande produção de chapéus, esteiras, capachos, vassouras, espanadores, sandálias, surrões, cestas, cordas, bolsas, jogo americano e outras peças artesanais.

É comum encontrar carnaubeiras nas estradas que cortam o interior do Ceará e do Nordeste do Brasil. Dela tudo se aproveita: a raiz é diurética, o tronco serve para a construção de cercas, currais e lenhas, mas é o olho e as folhas da planta que hoje empregam milhares de pessoas na zona norte do Estado, segundo o empresário Antônio Leopoldo Vasconcelos, 40 anos. Ele é ex-bancário e, ao deixar o emprego, montou uma fábrica de industrialização de chapéus há 11 anos em Sobral. Hoje vende para mais de cinco Estados. A palha destinada ao artesanato passa por até dez etapas para chegar na forma dos chapéus vendidos nas lojas e feiras de todo o País.

O empresário é natural de Patriarca, distrito de Sobral, onde cresceu trabalhando dentro dos pequenos galpões na limpeza e engomado dos chapéus de João Batista Gonçalves, 71, atravessador há 49 anos.

É comum encontrar nas calçadas do interior, especialmente em Sobral, Massapé e Santana do Acaraú, famílias inteiras tecendo chapéus e bolsas, uma tradição que passa de geração a geração.

A agricultora Luzia Cipriano Ramos, 49 anos, tece chapéus para uma amiga na calçada de sua casa sempre que sobra um tempinho. Ela disse que não sobrevive do artesanato, faz apenas por tradição familiar. Luzia recebe a palha crua e depois de tecer o chapéu, vende para Gonçalves por R$ 0,15 a unidade. Esta já é a terceira fase da fabricação. Gonçalves e seus cinco funcionários realizam a quarta e quinta fase do processo. No pequeno galpão, eles limpam e engomam até quatro mil unidades por dia. Ele compra em média 70 mil unidades do chapéu bruto por mês. Seus cinco funcionários chegam a limpar e engomar até quatro mil chapéus por dia. Após o final do processo o chapéu e repassado para Leopoldo a R$ 0,18 a unidade. Na fábrica do ex-bancário, seus 11 funcionários se revezam costurando, industrializando, classificando e embalando cerca de 800 unidades por dia. São as quatro fases finais antes do produto chegar nas lojas. A venda vai toda para fora, não fica nada em Sobral. Luzia da Silva, 42, costura chapéus há seis anos, ganhando um salário mínimo pelo serviço. Nelson Marquezan dos Santos e José Osmanir da Silva, ambos de 19 anos, participam da industrialização dos chapéus na fábrica localizada no bairro Sinhá Sabóia. Depois de prontos, os chapéus de Leopoldo são vendidos para lojas do Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e São Paulo, por um preço que varia de R$ 0,28 o mais simples, a R$ 1,50 o mais sofisticado. São 60 modelos ao todo.

As vendas se intensificam no período de festas juninas. Neste ano, o empresário chegou a vender até 500% a mais que o período normal de vendas — 80 mil unidades comercializadas. Ele precisou contratar mais 11 funcionários temporários para atender aos pedidos.

Já na comunidade Lagoa da Cruz, ainda no distrito de Aracatiaçu, um trabalho realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do município, em parceria com o Sebrae, Ceart e o governo do estado desde 1999, conseguiram formar um grupo de 30 artesãs que hoje estão resgatando o artesanato de Sobral, na fabricação de tapetes, porta-pão, bolsas de praia, descanso de panela e jogo americano, tudo é vendido para Fortaleza, Juazeiro do Norte e os estados do Piauí e São Paulo.

Wellington Macedo
sucursal Sobral

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