Noite de São João é a mais sertaneja das festas
Hoje comemora-se a noite de São João, a mais sertaneja de todas as festas. As fogueiras iluminam os terreiros dos sítios e aquecem os corações das sertanejas que alimentam crendices e fazem simpatias, na celebração da colheita com pamonha, canjica, milho verde, pé-de-moleque e carne assada na brasa. Como aconteceu com outras festas de origem pagã, esta também foi adquirindo um sentido religioso introduzido pelo Cristianismo, trazido pela Igreja Católica ao Novo Mundo. A comemoração das festas juninas é, certamente, herança portuguesa no Brasil, acrescida ainda dos costumes franceses que a elas se mesclaram na Europa.
Uma das mais tradicionais festas juninas ocorre na cidade de São João do Jaguaribe, que tem como padroeiro São João Batista. A festa religiosa foi aberta no dia 4 com o hasteamento da bandeira e será encerra amanhã com uma grande procissão. A prefeitura está promovendo festival de quadrilhas, exposição de artes e shows com bandas regionais. Será montada uma fogueira na praça de eventos da cidade. O diretor do Departamento de Cultura do Município, Carlos Chaves, informou que as pousadas estão reservadas para os visitantes que, nesta época do ano, procuram a cidade para curtir o São João tranqüilo e bem sertanejo.
O ciclo das festas juninas gira em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João, e 29 de junho, São Pedro. Durante este período, o País fica, praticamente, tomado por festas. De norte a sul do Brasil comemoram-se os santos juninos, com fogueiras e comidas típicas. Mas é na zona rural que a noite de São João é comemorada com maior intensidade. É a festa da solidariedade, do compadrio e das crendices.
“Santo Antônio disse, São Pedro confirmou. Vamos ser compadres que São João mandou”. Estas palavras ditas em redor da fogueira de São João celebram uma das mais fortes manifestações de solidariedade do sertão. É no calor das fogueiras que os sertanejos se tornam compadres e afilhados. O mesmo ritual é repetido no dia de São Pedro, último santo junino a ser festejado. No juramento, o primeiro a ser invocado então é Pedro e a quadrinha repetida é: “São Pedro dormiu, São João acordô, Vamo sê cumpadre que São Pedro mandô”. Quando é um menino que convida uma pessoa adulta para ser seu padrinho, o juramento é o seguinte: “Eu juro por São João, por São Pedro e São Paulo e todos os santos da corte do céu que o sinhô vai sê meu padrim e eu vô sê seu afilhado que São João mandou”. Saltam a fogueira, repetem a quadrinha, o afilhado repete três vezes: “vai sê meu padrim”, e o padrinho: “vai sê meu afilhado”.
É uma das formas pela qual os moradores das comunidades rurais e dos “bairros”, demonstram a cordialidade, é a escolha do compadre ou do afilhado e padrinho. Verdadeira instituição, paralela a da família, chegando, às vezes, a entrelaçar um número bem maior de membros através do “parentesco pelo coração” do que pelo do sangue. Estabelecem-se, entre os compadres, certos liames mais fortes do que entre parentes. É o compadrio não institucional nascido do desejo do homem simples de criar as suas próprias regras de solidariedade.
Este ano, os agricultores Benedito Torres da Silva, 64 anos, e Damião Pereira da Silva, 68 anos, armaram a fogueira em frente as suas casas no bairro Novo Horizonte, no Crato. É uma lembrança dos velhos tempos, quando ambos moravam no pé da serra do Araripe. Lá o povo era mais solidário. A noite de São João era uma festa com bolo, pamonha e carne assada, recorda Benedito, acrescentando que o costume foi trazido para a rua. Este ano, os dois agriculturas renovaram o compadrio no pé da fogueira. É uma amizade que está consolidada, por meio da banda “Calor da Vila”, da qual eles fazem parte, tocando pandeiro e zabumba. Benedito considera que, antigamente, o povo era mais solidário.
Antônio Vicelmo
sucursal Crato