Hábito do Brasil Colônia é mantido em engenho

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O engenho, em Solonópole, foi implantado em 1934, pelo patriarca da família, o agricultor Raimundo Carvalho

Solonópole. O grito de aboio do tangerino ecoa no Sítio Veneza, localizado a 4 quilômetros da sede do Distrito de São José, zona rural do município de Solonópole, no Sertão Central. É o sinal para a dupla de boi começar a puxar a moenda, triturar a cana-de-açúcar e extrair a garapa. A moagem com tração animal, mantida pela família Carvalho, é a única do Ceará que segue um modelo original da época do Brasil Colônia, do ciclo açucareiro.

O engenho foi implantado em 1934, pelo patriarca da família, o agricultor e carpinteiro, Raimundo Ricardino de Carvalho, mais conhecido por Raimundo Leandro. Até hoje, a família mantém a tradição e preserva um pouco da história da colonização brasileira. A energia elétrica chegou ao local em 1999, mas a moenda continua puxada a tração animal.

Resistência

O Engenho dos Carvalhos é uma resistência não apenas por manter o modelo de tração, mas por estar funcionando todos os anos. Nas duas últimas décadas, praticamente desapareceram do cenário do sertão cearense, as moagens de cana-de-açúcar. A atividade foi abandonada por inviabilidade econômica.

Ritmo intenso

No Sítio Veneza, o ritmo de trabalho é intenso desde o último dia 22 de setembro, quando os trabalhos de moagem começaram. As atividades prosseguem até o próximo dia 9 de outubro.

“A gente começa à meia-noite e trabalha direto até as 4 horas da tarde, quando vai jantar e dormir”, diz Raimundo Nonato Coelho, 56 anos, neto do fundador. No dia seguinte, começa tudo novamente, mas ninguém reclama do cansaço.

O clima é de festa e a movimentação é mais intensa no fim de semana, quando os moradores da região visitam o engenho para experimentar e comprar rapadura, batida, alfenim, o tradicional mel e saborear a garapa da cana-de-açúcar.

Vem gente de perto e de longe. “Há 21 anos que não visitava o Ceará, mas neste ano voltei para matar a saudade da minha infância que passei aqui no Sítio Veneza”, contou Manoel Mairton Maia, que mora em São Paulo. “Fico alegre em ver a tradição da família sendo mantida”, disse.

Atividades

Neste ano, as boas chuvas favoreceram a produção da cana-de-açúcar na região. O plantio ocupa uma área de dois hectares e é dividido entre cinco irmãos. O trabalho é feito por 11 pessoas e cada um segue atividades diferentes, desde o corte até a produção da rapadura.

Raimundo Nonato de Carvalho trabalha na colocação da cana na moenda e reveza tangendo a junta de bois mansos, que é o serviço principal de Epitácio Coelho.

Outros abastecem a moenda e há aqueles que recolhem o bagaço. Sobre a coberta do engenho, trabalham o mestre, José Eudo do Carmo, responsável em dar o ponto no mel fervido, e o ajudante ou contramestre, Jean Coelho.

Carmo começou como ajudante em 1988. “Aprendi com os mestres Alcides e Valderi”, contou. Agora ele tem a obrigação de ensinar o serviço para Jean Coelho, integrante da família, que fazia o serviço de cortar e carregar a cana. Há três anos tomou gosto e quer continuar a tradição. “Ainda não aprendi a dar o ponto, mas chego lá”, acredita.

A dona-de-casa, Mirtes Coelho, a sobrinha, Eurília, e também a nora, Marília, trabalham puxando alfenim até chegar no ponto certo. Para o doce ficar bem feito é necessário a massa clarear e, antes de endurecer, adquirir por mãos hábeis, formatos variados de cachos.

Enquete
Por que ainda realizar este tipo de moagem?

Raimundo Nonato Coelho
Agricultor
'A gente tem o gosto de fazer este trabalho e, com isso, manter a tradição, mas, na verdade, não dá lucro.'

Epitácio Coelho
Tangerino
'Tanger os bois é um serviço cansativo, no entanto, dá prazer em continuar com essa história.'

José Eudo do Carmo
Mestre
'Para saber dar o ponto do mel é preciso muita atenção e cuidado, mas só se aprende com a experiência.'

Mirtes Coelho
Dona-de-casa
'Com o trabalho, tenho lembrança dos meus avós e essa moagem me dá muita saudade da minha infância.'

Manoel Mairton Maia
Empresário
'Há 21 anos que não retornava ao Ceará, mas neste ano a saudade bateu forte e vim rever a moagem.'

INTERESSE

Irmãos querem manter tradição

Solonópole. O sinal de que a tradição não vai se acabar está na disposição e no interesse dos irmãos Jonas e Carlos Coelho. “Eles dormem com uma lanterna de lado e pedem para colocar o despertador e acordar na madrugada”, comenta a mãe, Erivone. “Pela manhã estão na escola, mas passam a tarde na moagem”, conta. Desde os 3 anos de idade que Jonas ajudava o avô, Raimundo Nonato Coelho, a tanger a dupla de boi.

A produção diária na moagem dos Carvalhos é reduzida. Em média, chega a 40 rapaduras, 15 batidas, 20 unidades de alfenim e 50 litros de mel. A comercialização é feita entre os moradores dos sítios vizinhos. A rapadura é vendida por R$ 1,00 e a peça do alfenim, por R$ 5,00. O litro de mel custa R$ 2,00 e a batida em pé é vendida por R$ 10,00.

O engenho é pequeno. Dispõe de um depósito de mel, três caldeiras e o tacho de bronze que é o final do cozimento da garapa. Para cada produto, há um tempo certo de aquecimento. O de fabricação de rapadura é o mais demorado. “O doce da rapadura depende da qualidade da terra, da cana-de-açúcar. O nosso produto é gostoso, temperado, feito com carinho”. explica Raimundo.

Honório Barbosa
Repórter