Fungo nativo da África pode controlar "Unha do Diabo", praga que ameaça a carnaúba no Ceará

A expectativa dos pesquisadores é que o controle biológico seja aplicado, inicialmente, em três municípios cearenses - Granja, Caucaia e Jaguaruana. Para tal, o governo Federal precisa declarar estado de emergência fitossanitária

Escrito por Rodrigo Rodrigues , rodrigo.rodrigues@svm.com.br
Legenda: A "Unha do Diabo" está mais presente no Estado do Ceará, com uma maior ocorrência nas regiões Litorânea e Sertão Central.
Foto: Samuel Portela

Espécie símbolo do Ceará, as carnaúbas sofrem com uma espécie invasora conhecida como “Unha do Diabo”, o que coloca em risco a biodiversidade da Caatinga e um importante incremento na economia cearense. Para mitigar este impacto, pesquisadores estudam a possibilidade de utilizar o fungo conhecido como ferrugem (Maravalia cryptostegiae), nativo de Madagascar e inimigo natural da praga, como um agente de controle biológico.

Participam do estudo pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual do Ceará (Uece), outras universidades brasileiras e o Centro de Agricultura e Biociência Internacional (CABI), organização da Inglaterra que atua em parceria com as instituições brasileiras. Os municípios cearenses escolhidos, inicialmente, para aplicação do fungo são Granja, Caucaia e Jaguaruana, importantes na cadeia produtiva do Estado.

O professor doutor Oriel Herrera, da Uece, estima que 70% do Ceará seja afetado pela "Unha do Diabo", mas a ocorrência maior se dá nas regiões Litorânea e Sertão Central. No Cariri e fronteira com Piauí, a planta ocorre em proporção menor. Segundo o pesquisador, estas três cidades foram selecionadas por apresentar "maior infestação nos carnaubais", além de serem "grande produtores, com grandes áreas ocupadas e onde muitas palmeiras já morreram".

"Com as medidas que estamos adotando para controlar a espécie invasora, esperamos podermos usá-lo (o fungo) aqui, em locais altamente afetados. Também está sendo levado em consideração outras plantas da Caatinga para que este fungo não venha impactar negativamente".

O professor Rafael Costa, do departamento de Biologia da UFC, também aponta que as três cidades “abrangem um panorama bem grande” do que acontece em outras regiões do Estado, e apresentam uma variação climática constante: Jaguaruana com baixas precipitações; Caucaia com índice mais elevado; e Granja com valores intermediários.

Espécie invasora

Segundo o professor, uma espécie invasora é caracterizada por não pertencer naturalmente a determinado ambiente. “Também precisa ser capaz de se auto-sustentar e alcançar um crescimento expressivo, o que leva a impactos ambientais e econômicos”, explica. No caso da “Unha do Diabo”, o agravante é ser uma espécie trepadeira, que cresce usando outras plantas como suporte e consegue competir com espécies nativas.

A planta é capaz de cobrir por completo as carnaúbas, impedindo a entrada de luz e levando a palmeira à morte. “Com isso, a gente perde a matéria-prima para a cera da carnaúba e também para muitas atividades artesanais, que utilizam a palha da planta. Mas, também, perdemos os serviços ambientais como a manutenção da fauna ou dinâmica de estabilização do solo”, avalia Costa. 

Legenda: A "Unha do Diabo" foi introduzida há cerca de 100 anos e pode causar o sufocamento da carnaúba, impedindo a entrada de luz.
Foto: Samuel Portela

Para ter ideia, com base nas avaliações realizadas pela UFC, se considerarmos a presença de 14 a 95 carnaúbas em 600 m², temos a variação de 1.300 a quase 2 mil plantas invasoras na mesma área. “Nas carnaúbas que estão desenvolvendo um caule (onde a "Unha do Diabo' é mais recorrente), a quantidade de plantas infestadas é superior a 60%”, explica o pesquisador, ressaltando a importante de haver uma ação efetiva de controle.

“Nessas três áreas que avaliamos (Jaguaruana; Caucaia e Granja), há muito poucas carnaúbas na fase inicial de vida, o que já pode ser um reflexo da diminuição de reprodução. Futuramente, poderemos ter poucas carnaúbas adultas”. 

Quais impactos essa ocorrência pode trazer?

  • Perda do controle de erosão; 
  • Perda do controle do fluxo de nutrientes para dentro de rios;
  • Alterações hidrográficas importantes e desequilíbrio ambiental.

Entenda

  • A espécie de fungo (Maravalia cryptostegiae) utilizada é nativa da ilha de Madagascar e ataca especificamente a "Unha do Diabo".
  • Existem fungos ferrugem, da mesma família, também em outros locais - como se fossem primos em países diferentes.
  • Está sendo averiguado, neste momento da pesquisa, qual o melhor "primo" para controle da praga no Ceará, sem prejudicar outras espécies.
  • O princípio do controle biológico é encontrar um inimigo natural que atue especificamente contra determinada espécie.
  • A espécie invasora continua existindo, mas de forma controlada, sem oferecer danos potenciais às espécies nativas.   

Impactos econômicos

Para analisar os impactos também foram realizados questionários nos três municípios que receberão o fungo com os moradores que atuam diretamente nos carnaubais. “Vemos a percepção de que a planta invasora pode causar problemas aos animais, como também intoxicação aos próprios agricultores. Mas também tem o impacto econômico, reduzindo a quantidade de carnaúbas ou aumentando o custo de manter o carnaubal sadio”, avalia o professor. 

Segundo o Sindicato das Indústrias Refinadoras de Cera de Carnaúba no estado do Ceará (Sindcarnaúba), a carnaúba é fundamental para o ciclo econômico do Nordeste. Conforme dados da entidade, a cera da palmeira está em 8º lugar na pauta de exportação cearense, representando mais da metade (55%) da exportação de carnaúba do País. Estima-se que a produção gere mais de 96 mil empregos diretos no Ceará, movimentando 192,5 mi por ano.

Dessa forma, a expansão da “Unha do Diabo” atinge diretamente a renda familiar destas pessoas.

Legenda: Estima-se que a planta invasora conhecida como “Unha do Diabo” já atinja mais de 70% do território cearense. Ela causa a morte da carnaúba, importante espécie presente no Ceará.
Foto: Samuel Portela

Pesquisa

O objetivo da pesquisa é avaliar a viabilidade do fungo como um agente de controle biológico. Atualmente, estão sendo realizadas análises em laboratório, no Reino Unido, com espécies nativas da Caatinga, em dois principais pontos: eficácia no ataque à espécie invasora e comportamento com outras espécies. O professor do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, Robert Barreto, ressalta que os resultados são animadores.

“Os testes constatam que o fungo só ataca a planta invasora e mais nada. Estamos confiantes”, afirma. “Essa espécie (Unha do Diabo) causou um problema gravíssimo na Austrália, nos anos 90. Ela vai ganhando força, é como se fosse uma pandemia. Quando os australianos se deram conta, já havia atingido uma área gigantesca, parecida com a da Caatinga. Estamos assistindo um filme se repetindo aqui, mas a nossa expectativa é que o final seja feliz”.

Cadeira produtiva da carnaúba no Ceará (Sindcarnaúba):

  • R$ 192,5 mi movimentados anualmente
  • 93.300 mil empregos diretos gerados
  • 30 mil hectares de Caatinga preservada
  • 55% das exportações do País são do Ceará
  • 14 parceiros comerciais no Exterior

O laboratório do Reino Unido onde estão sendo feitos os testes é referência mundial em controle sanitário e atuou, também, na inserção do fungo para controle na Austrália. Por questão de segurança, é recomendando que estes procedimentos sejam realizados em outro país. Assim, caso ocorra algum emprevisto, a situação é mais facilmente controlada.

No caso da "Unha do Diabo", por questões climáticas, dificilmente se reproduziria fora de um ambiente controlado, na Inglaterra. 

“A gente não tá inventando a roda”

Barreto ressalta a importante de saber que o procedimento não é incomum. O fungo já foi usado para resolver problemas semelhantes na Austrália. "A gente não tá inventando a roda", destaca. “Pegamos muito da experiência do que deu certo na Austrália, que introduziu o fungo há 20 anos". Países como Nova Zelândia e África do Sul também têm experiências no controle de plantas invasoras. 

"Na experiência australiana, em um ano, já se via a vegetação nativa aparecendo”, avalia Barreto.

Ele ressalta que um relatório com os resultados deve ser encaminhado até o meio do ano que vem. Após isso, a introdução do agente de controle biológico dependerá do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que precisa declarar estado de emergência fitossanitária no Ceará. “Acreditamos que o Ministério verá isso com bons olhos. É uma planta importante (a carnaúba), que precisa ser protegido e que sofre grave risco. A ameaça é real e muito potente”.

“É preciso um relatório bem feito e mostrar que a “Unha do Diabo” não vai sumir completamente, mas vai haver um controle. Vai continuar existindo, mas deixará de ser agressiva”.

Legenda: As três cidades cearenses foram selecionadas por apresentar maior infestação nos carnaubais e serem grande produtores no Estado.
Foto: Samuel Portela

Unha do Diabo

A “Unha do Diabo” também é uma espécie nativa de Madagascar, na África, e cresce em volta do tronco da carnaúba, sufocando a planta e impedindo a absorção de luz solar. Segundo a Associação Caatinga, que atua no município de Crateús, no Ceará, e no estado do Piauí, a praga foi introduzida no Brasil há cerca de 100 anos, provavelmente utilizada para ornamento.

Atualmente, a espécie invasora está presente nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, mas também com vestígios em Pernambuco e se espalhando para outras regiões do País.

Um ponto bastante preocupante é a ocorrência da espécie invasora nos leitos de rios do Ceará. Há registros da "Unha do Diabo" nos leitos dos rios Jaguaribe, Pacoti, Coreaú e Acaraú, por exemplo. Perto dos mananciais, a espécie invasora acaba captando grande quantidade de água e desequilibrando os ecossistemas locais. Além disso, por destruir a mata ciliar, os corpos hídricos ficam mais desprotegidos.

 

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