Ausência de políticas de preservação ameaça casarões históricos

Imóveis erguidos nos séculos passados, em cidades do Cariri cearense, podem ruir devido a falta de manutenção. Sem políticas adequadas, os prédios que ajudam a contar a história do desenvolvimento local estão abandonados

Crato
Legenda: Casarões ajudam a contar como as localidades do interior cearense se desenvolveram ao longos dos anos. Os imóveis mostram que economia local se baseava nas plantações de cana-de-açúcar.
Foto: Antonio Rodrigues

No Sítio Bebida Nova, zona rural do Crato, ainda permanece de pé uma das construções mais imponentes do Município: o casarão da família Esmeraldo, construído entre as décadas de 1870 e 1880 por Antônio Esmeraldo da Silva. Sua localização confere uma privilegiada visão do vale do Cariri, o que auxiliava na proteção contra possíveis invasores ou ataques de famílias rivais. Assim como este casarão, outros imóveis na zona rural permanecem em pé, contando a história da região. Porém, sem políticas de preservação ou educação patrimonial, sofrem com ação do tempo e estão ameaçados de ruir enquanto outros já começaram a cair.

O Engenho da Lagoa Encantada, que foi um dos maiores da região, hoje é um dos casarões que desmoronam. Criado no século XIX, pelo coronel José Rodrigues Monteiro, o engenho abrigou a primeira experiência da mecanização da lavoura de açúcar no Cariri, utilizando-se um trator com grade de disco, sulcador e cultivador, que ainda podem ser vistos ao lado das ruínas. Além disso, foi pioneiro na técnica de cultivo a curva de nível e irrigação feita por meio de inundação.

Diante do risco desses prédios históricos desaparecerem em definitivo, o historiador Roberto Júnior percorreu a zona rural de vários municípios do Cariri, como Crato, Barbalha, Jardim, Missão Velha e Barro, fazendo um inventário particular destes bens.

"Eles representam muito, até porque a matriz de desenvolvimento do Brasil é agrária. Os ricos latifundiários gastavam suas maiores fortunas nas construções. No caso de chefes políticos, tinha toda uma questão de desenvolvimento arquitetônico, não somente da casa grande, mas da chamada 'casa dos cabras', dos funcionários e moradores".

O arquiteto Waldemar Farias acredita que estes imóveis que ainda permanecem de pé falam de um passado onde a economia local se baseava nas plantações de cana-de-açúcar. No caso das fazendas de Crato, Farias destaca o tamanho, e alguns adornos nas platibandas e molduras nas janelas lembrando edificações em estilo neoclássico.

"(As casas) eram assentadas sobre uma base elevada e de planta que lembram as casas urbanas da época onde se encontravam salas de visitas, corredor central, quartos distribuídos ao longo desses corredores, uma sala de jantar, sótão para armazenagem de mantimentos em cima do corredor central e por fim uma cozinha", detalha.

O arquiteto soma cinco exemplares dessas casas. Algumas apresentam bom estado de conservação, outras, no entanto, não estão bem preservados. "Estão fechados e outros simplesmente abandonados", descreve Roberto. Ele explica que a maioria desses imóveis abandonados estão na zona rural pois, diferente da área urbana, os sítios possuíam margem de terra para outras construções. "Com terreno sobrando, muitas vezes o novo proprietário optava por fazer a casa sede em outro local e usava aquele imóvel antigo como depósito ou deixa abandonado", completa Roberto.

Perpetuação

Para mantê-los bem conservados, Waldemar Farias reforça que, apesar de existir políticas de preservação de âmbito nacional através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o interesse para um tombamento tem que partir da população e do poder público local. "Acredito que políticas de preservação no âmbito municipal sempre serão bem vindas e poderão contribuir para a perpetuação do nosso patrimônio cultural", analisa.

É neste aspecto que há um certo entrave, pois, Roberto acredita que a comunidade tem pouco sentimento de pertencimento junto a estes prédios, sobretudo os mais jovens. Para tentar reverter "essa mentalidade", o historiador organiza expedições para apresentar estes imóveis à população. Apesar do esforço, ele reconhece que não é o bastante para garantir a preservação. "O que mais preocupa é que pouquíssimas cidades possuem política de patrimônio em âmbito municipal".

Projeto mira avanços

Recém-empossado como secretário de Cultura de Crato, Amadeu de Freitas antecipa que há uma ideia para transformar o Casarão dos Esmeraldo em um equipamento cultural. Para isso, o Município teria que adquirir o imóvel, algo que já vem sendo discutido pela gestão.

"Será um espaço com exposição permanente, um museu que tenha na figura do Sérvulo Esmeraldo (artista plástico) diversos atrativos voltado à gastronomia", imagina. Quanto aos outros casarões erguidos no Município, está sendo criado um eixo de Política de Memória para promover ações voltadas a preservação destes locais.

O secretário de Cultura de Barbalha, Isaac Luna, disse que, por ter assumido há apenas duas semanas, ainda está concluindo a montagem da sua equipe, mas antecipou que criará um Núcleo de Patrimônio para garantir os processos de tombamento e inventário dos bens imóveis do Município. "Já temos canal aberto com Centro Pró-Memória e a Escola de Saberes de Barbalha", antecipou.

A equipe de reportagem do Sistema Verdes Mares tentou contato com as secretarias de Cultura de Jardim e Barro, mas não obteve retorno. Já em Missão Velha, a eleição ainda está sob judice e a presidente da Câmara, Dona Nazinha (MDB), que assumiu interinamente, aguarda a decisão da Justiça para definir como se dará a política patrimonial de sua cidade.

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