A dádiva da caatinga nos carnaubais

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A árvore símbolo do Ceará ainda guarda grande significado, mesmo passado o seu apogeu econômico

Limoeiro do Norte / Russas / Itaiçaba. Parte da memória jaguaribana não escorreu pelas águas ou foi levada pelo vento. Está às margens como o elemento mais rico da mata ciliar do Jaguaribe. Onde não era o cultivo agrícola ou a pecuária, a extração de cera de carnaúba tornou-se a maior atividade econômica para cidades do Baixo-Jaguaribe. Do tempo em que vinha dos carnaubais jaguaribanos o principal produto de exportação do Ceará.

Somente nos meses de seca há retirada da palha da carnaúba Foto: Bruno Gomes

Não tem menos de 60 anos qualquer testemunha dos tempos áureos das carnaubeiras, entre 1930 e 1960, como Francisco Gadelha, 74. A maior lembrança dos carnaubais é que ganhou muito dinheiro. "Muito mesmo", enfatiza. Tinha dezenas de hectares na margem direita do Jaguaribe.

Passado o período chuvoso, os meses de seca, no segundo semestre, eram de retirada das palhas de carnaúba, a Copernicia prunifera. Uma vez cortadas, as folhas jovens são estendidas no chão. Passam dias secando ao sol. Num galpão, a folhagem seca é trinchada com uma ferramenta de ferro. Com uma vara, o material é batido até sair um pó branco. Reunido em uma vassoura (feita também da palha), levado ao fogo misturado à água. A calda esverdeada que se forma é colocada em uma prensa de madeira, deixando sair uma cera líquida, colocada em pequenas formas para esfriar.

Desse tempo, nenhuma foto, só alguma mobília antiga na casa de Gadelha. Nem carnaúba, porque são poucas a margear o Jaguaribe no pedaço de terra em que era senhor.

De tudo, um muito

Padre Antônio Thomaz, que viveu entre 1868 e 1941, não viu nada mais "prestante" e amigo do que uma carnaubeira:

"O tronco é o mourão, a trave, a cumeeira, o altar e o leito conjugal; o palmito é o alimento; a raiz, a medicina; a palma é o abano, o chapéu, a esteira, a parede e o teto da casa; a cera é a tocha primitiva, isto é, a luz, a oração, a vigília na noite quieta e pura do homem nordestino. Tudo, na carnaubeira, é prestante e amigo. Nenhuma árvore é mais dadivosa e fecunda. Ela, sozinha, alimenta, abriga, veste, ilumina e consola os agentes. É como uma deusa familiar que a tudo acode. Como o filho da terra, onde nasce, ela se dá toda a quem a cultiva com amor e resguarda com ciúme. Da copa, oscilante e brincalhona, à raiz, séria e profunda, a carnaubeira é um holocausto vegetal, uma oblação da gleba ao homem que a possui".

Nos anos 1930, Limoeiro do Norte já colhia os frutos de fornecedora de cera para exportação. A cidade começou a erguer seus prédios, urbanizar-se e arregimentar lideranças políticas, em nome da Ação Integralista Brasileira, criada para combater o avanço do comunismo no País. Barões da cera, comparável a empresários do agronegócio de hoje, financiavam a política.

Vem da mesma época a transferência da Diocese Católica para Limoeiro, em detrimento de Russas e Aracati, duas cidades maiores, mais antigas e, potencialmente, mais certas de sediar o Palácio do Bispo.

Mas por 200 contos de réis, metade deles obtidos pelas doações dos barões da cera, a sede do bispado foi instalada em Limoeiro do Norte, onde foi erguido o Palácio Episcopal para abrigar dom Aureliano Matos.

De acordo com o historiador José Wellington de Oliveira Machado, construiu-se a partir desses tempos a alcunha de "Princesa do Vale", reconhecida até hoje para a cidade, berço de poetas, escritores e de universidades que recebem alunos de várias cidades da Região.

Entre o gado e o cultivo

Nos anos 1950, Russas detinha 11% da produção nacional e 3% da produção estadual da cera de carnaúba. Quem não vivia na criação de gado para produção de charque ou na produção agrícola, especialmente pelos frequentes intervalos de seca, estava na extração da cera.

A árvore estava presente em outros países da América do Sul e mesmo na África, mas em nenhuma outro ambiente é mais fecunda que na Caatinga, de tempos em tempos inundada pelas águas do Jaguaribe. A crença popular diz que a carnaúba era protetora do rio. A ciência exata diz o mesmo, tendo a árvore também a missão de dificultar o processo de assoreamento dos rios.

Sendo uma das margens do rio, a carnaubeira e tudo o que ela dá é dádiva da Caatinga. Nenhuma vegetação de mata ciliar foi tão importante e tão resistente, em meio à devastação. Mas aos poucos, vai sumindo, das margens e dos cartões-postais, assim como pau-d´arco-amarelo (Tabebuia chrysotricha), angico (Anadenanthera colubrina), aroeira (Astronium urumdeuva), catingueira (Bumelia sartorum), mulungu (Ertryna velutina) e quixabeira (Bumelia Sartorum). Nomes científicos estranhos para a maioria de nós. Depois, até o nome popular é estranho para os mais jovens ribeirinhos, pois não se conhece o que é desaparecido.

Na região jaguaribana, ainda hoje, a carnaubeira entra na maioria das casas e só sai no início do dia para varrer as calçadas de outras folhas secas. As vassouras, trançadas em rodas de artesãs, são o artefato mais presente das carnaubeiras.

Melquíades Júnior
Repórter