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Quanto vale o apoio de um prefeito na disputa pelo Governo do Ceará em 2026?

Na divisão geográfica do voto, fatores como a musculatura dos partidos nos municípios, o peso do eleitorado local e a avaliação dos prefeitos influenciam as estratégias.

Escrito por Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
25 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: Elmano e Ciro têm protagonizado a corrida por lideranças municipais na pré-campanha.
Foto: Fabiane de Paula e Kid Jr./SVM.

A construção de redes de apoio nos municípios tem ocupado boa parte da agenda dos pré-candidatos ao Governo do Ceará. Nas redes sociais, auxiliares de Elmano de Freitas (PT) e de Ciro Gomes (PSDB) – nomes que dominam as pesquisas pré-eleitorais por ora – expõem uma rotina de reuniões com lideranças locais.

Os alvos mais cobiçados são os prefeitos, naturalmente, pelo caráter centralizador de seus cargos e o peso que exercem na escolha dos munícipes. Sob essa perspectiva, Elmano tem vantagem no momento, com mais de 100 gestores no seu entorno. 

Contudo, essa influência não é absoluta. É justamente nos municípios onde o governismo não conseguiu consolidar apoio ou onde existem lideranças políticas independentes que o principal adversário do petista, Ciro Gomes, busca construir novas alianças.

“São essas lideranças que estão na ponta, que atuam e permitem que a candidatura se capilarize, se espalhe por todo o território. Então, na impossibilidade de você ter um prefeito aliado, você busca quem? A oposição, outra liderança naquele município que cumpra esse papel, ainda que não tenha os mesmos recursos que o prefeito teria”, destaca Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

184
Número de municípios do Ceará.

Na divisão da geografia do voto, fatores como a musculatura dos partidos aliados, o peso do eleitorado de cada cidade e as disputas narrativas sobre apoios adicionam mais camadas à discussão.  

Além da estrutura política que os prefeitos oferecem aos candidatos, a melhora da avaliação das administrações municipais também amplia seu peso eleitoral. Segundo pesquisas internas citadas pelo cientista político e diretor técnico do Instituto Opnus, Pedro Barbosa, a média de aprovação das gestões municipais supera atualmente os 70%, o que fortalece a capacidade de transferência de votos nas eleições gerais.

“Há a percepção das pessoas de que a situação em seus municípios, em larga medida, está melhorando. Estão vendo obras acontecendo, equipamentos sendo entregues, políticas públicas sendo aprimoradas a nível municipal, então, naturalmente, os prefeitos tornam-se personagens ainda mais importantes, especialmente se eles compartilharem a percepção positiva que se tem das suas gestões municipais com a estadual”, sintetizou Barbosa.

7 milhões
Número de eleitores do Ceará, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Segundo o especialista, o prefeito atua como um "intérprete" das entregas de governo para a população, sinalizando a quem deve a “paternidade” de diferentes projetos e programas no seu território – sejam eles recentes ou antigos. 

Ter um grande volume de prefeitos bem avaliados no seu entorno pode, inclusive, blindar governadores incumbentes de desgastes com a população, indica Monalisa Torres.

Ela lembra que a avaliação do segundo governo de Cid Gomes, por exemplo, foi inferior à do primeiro governo, mas isso não fez diferença nos pleitos seguintes. Prova disso é que ele elegeu um sucessor em 2014, Camilo Santana (PT), foi alçado para o Senado Federal em 2018 e emplacou dezenas de prefeitos nos últimos anos. 

Essa relação com lideranças locais é uma via de mão dupla, complementa Monalisa: o prefeito precisa dos recursos do Estado para tocar sua gestão e, em contrapartida, atua como cabo eleitoral para o governador em eleições estaduais.

A dinâmica de retroalimentação é um ativo tão importante nas eleições do Ceará que nenhum governador enfrentou resistência significativa de prefeitos desde a redemocratização, mesmo que tenha sido eleito pela oposição. 

“Isso é óbvio; se a pessoa ganha o Governo do Estado, que é eleição majoritária, a tendência é que realmente haja um número maior de prefeitos (do seu lado). Mas o que é interessante é que esse número é sempre muito alto. O PSDB, por exemplo, chegou a ter 90 prefeituras”, complementa.

Histórico de alinhamento no Ceará

Nesses quase 40 anos, o alinhamento de um grande número de prefeitos ao grupo governista contribuiu para que os candidatos apoiados pelo Palácio da Abolição vencessem quase todas as disputas pelo Governo do Estado. A principal exceção foi a eleição de Cid Gomes, em 2006, quando ele derrotou o então governador Lúcio Alcântara.

A tabela a seguir ajuda a ilustrar como a relação entre governadores e prefeitos tem sido uma constante da política cearense nas últimas décadas. Os dados organizados por Monalisa Torres, extraídos da Justiça Eleitoral e cedidos ao PontoPoder:

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Corrida nos municípios

Os partidos que compõem ou tendem a compor o arco de alianças favorável à reeleição de Elmano administram atualmente 172 prefeituras cearenses. Destas, 71 pertencem ao PSB e 47 ao PT, com relações costuradas e sustentadas pelos senadores Cid Gomes e Camilo Santana, respectivamente.

Apesar desse potencial de apoio, o número de prefeitos que já participaram de reuniões políticas com o grupo governista é menor. Até a última semana, a relação estava consolidada com 113 prefeituras, segundo o próprio Camilo, coordenador político da campanha de Elmano. 

“Hoje, quarta-feira pela manhã, estou aqui no meu gabinete em Fortaleza, já recebi 113 prefeitos e prefeitas do Ceará, fora deputados e deputadas. Quero agradecer aos prefeitos que vieram do interior do Estado, percorrendo quilômetros e quilômetros, mostrando o compromisso que eles têm com o projeto do Elmano e do presidente Lula”, disse o senador petista na última quarta-feira (17). 

O próprio Elmano reconhece o caráter estratégico da relação com os municípios, destacando ações articuladas com os prefeitos “dedicados e trabalhadores”.

“Evidentemente, pode ter um ou outro que não tem essa mesma condição, mas a ampla maioria são homens e mulheres com espírito público, e isso é pré-requisito para as coisas acontecerem e terem o resultado que a gente gostaria que tivesse”, disse, durante o XIV Seminário dos Gestores Públicos, na última semana.

Já Ciro, atualmente, tem o apoio público de cinco prefeitos: de Juazeiro do Norte (Gledson Bezerra, do Podemos), de Acarape (Edilberto Beserra, do PSB), de Massapê (Ozires Pontes, do PSDB), de Iguatu (Roberto Filho, do PSDB) e de Parambu (Rômulo Noronha, do Solidariedade). 

Em paralelo, o pré-candidato tem atraído outros expoentes locais, como vereadores e ex-prefeitos. Junto aos deputados estaduais Felipe Mota (União), Lucinildo Frota (PL), Antônio Henrique (PSDB) e Cláudio Pinho (PSDB), Ciro teve encontros com lideranças de 17 municípios na última semana, como São Gonçalo do Amarante, Brejo Santo e Maracanaú. 

Um dos principais representantes do municipalismo cirista, Gledson Bezerra minimiza o impacto do volume diminuto de prefeitos na campanha. 

“A força do Ciro é muito orgânica. É parecido com o que eu vivi aqui. Quando fui candidato a prefeito de Juazeiro, as pessoas olhavam para o outro palanque e viam todas as lideranças juntas, ex-prefeitos, deputados estaduais, federais, enfim. Mas era uma vontade que vinha muito do povo, de dentro para fora. Então eu acho que o Ciro ganha ponto por isso”, avalia.

Por outro lado, para a governista Ana Afif (PSB), prefeita de Cascavel, a atuação direta dos gestores municipais será um diferencial na campanha. Apesar de estreante no comando do Poder Executivo, a política destaca o papel estratégico que novos líderes devem desempenhar nessas eleições.

“Quem fica no dia a dia dos municípios, na ponta, perto do povo, são os prefeitos. São deputados estaduais, deputados federais. A gente já tem uma aproximação muito boa com o governo, mas aproxima ainda mais diante dessa atuação para definir o futuro do Ceará. A gente fica feliz que, nessa leva de prefeitos novos, a gente tenha uma boa capacidade de mobilização, de aproximação com o povo”, pontuou.

Maracanaú é caso emblemático

Um exemplo recente de como essa disputa por lideranças municipais tem se desenrolado ocorreu em Maracanaú, quarto maior colégio eleitoral do Estado. Ciro Gomes e o prefeito Roberto Pessoa (União) se encontraram durante a tradicional festa de São João da cidade, e o episódio repercutiu. 

Para o ex-ministro, o momento representou a retomada do diálogo entre dois ex-adversários, que se “afastaram sem romper” por atritos em relação à tributação na época em que Ciro era governador. O pré-candidato classificou Pessoa como “unanimidade entre a classe política do Ceará”, que “já merece estar fora do mundanismo das disputas menores”.

Ao apostar na aproximação, avalia Pedro Barbosa, a oposição tenta demonstrar que é possível "furar a influência do governo" sobre os prefeitos. Pesam os fatos, ainda, de Maracanaú abrigar o 4º maior eleitorado do Estado e ter uma gestão bem avaliada.

“Disputar o apoio do prefeito de uma cidade de grande porte como Maracanaú é muito importante para qualquer candidatura. Ele usa isso não somente como um ativo eleitoral, mas como um ativo político, como se dissesse aos outros prefeitos: ‘Olha, o pessoal já tá querendo vir pro meu lado, hein? E aí, você vem também? Vamos conversar’”, explica Barbosa.

Entretanto, após a repercussão, o próprio grupo de Roberto Pessoa explicitou que o seu apoio é reservado à reeleição de Elmano. O governismo, então, usou o ato para reafirmar sua unidade.

“Ou seja, é uma disputa de narrativas. Um vai tentar dizer que está aproximando e outro vai dizer que isso não é nada demais”, complementou o cientista político. 

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