Em três décadas, Ceará teve apenas uma vice-governadora reeleita no cargo
Izolda Cela manteve-se ao lado de Camilo Santana nas eleições de 2014 e 2018.
Com a pré-candidatura a deputada estadual já anunciada, a atual vice-governadora Jade Romero (PT) mantém viva uma tradição entre ocupantes do cargo de deixarem a chapa de reeleição do governador.
Desde que a recondução para cargos do Executivo passou a ser permitida no Brasil, apenas uma vice-governadora manteve-se no posto em mandatos consecutivos no Ceará. Foi Izolda Cela (PSB), que integrou as duas chapas vitoriosas de Camilo Santana (PT), em 2014 e 2018.
O movimento de Jade ocorre sem ruptura política com o governador Elmano de Freitas (PT). Eleita pelo MDB em 2022, ela deixou a legenda em abril deste ano e se filiou ao PT. Agora, deve disputar uma cadeira no Legislativo estadual, enquanto o grupo governista busca um novo nome para compor a chapa majoritária.
Entre os cotados estão a vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar (PSD), e o deputado federal Eunício Oliveira (MDB). O emedebista, contudo, já afirmou que a prioridade da sigla que ele preside no Ceará é conquistar uma vaga no Senado.
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Para a cientista política Mariana Dionísio, professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), a baixa taxa de permanência dos vice-governadores está relacionada à própria função política exercida pelo cargo.
"As vice-governadorias, no geral, são um campo estratégico importante para sinalização de apoio entre partidos, e a pessoa que ocupa o cargo de vice acaba se tornando uma peça útil e necessária, mas não insubstituível", afirma.
"Quem ocupa a vice tem influência sobre nomeações, secretarias e recursos, o que não é pouca coisa (...) mas essa costura de alianças partidárias tem prazo de validade porque o cargo tem pouco poder formal e muito tempo livre para a pessoa repensar a vida política"
A exceção que confirma a regra
Dos sete vice-governadores eleitos no Ceará desde a consolidação da reeleição no País, apenas Izolda Cela permaneceu na mesma posição em uma chapa subsequente. Mariana Dionísio considera que a trajetória da ex-governadora ajuda a ilustrar justamente a excepcionalidade do caso.
"Izolda Cela foi a exceção que confirma a regra. Ficou ao lado de Camilo Santana nas duas gestões e acabou assumindo o governo quando ele renunciou para disputar o Senado, o que tecnicamente encerrou o ciclo dela como vice. Ou seja, ela permaneceu no cargo, mas saiu ‘pela porta da frente’ ao virar governadora", destaca.
A ascensão de Izolda ao comando do Estado, em 2022, marcou um momento decisivo da política cearense. A então governadora passou a ser defendida por petistas e por aliados do senador Cid Gomes (PSB) como candidata natural à reeleição.
Do outro lado, a ala do PDT ligada ao ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) defendia a candidatura do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio. O impasse provocou o rompimento entre PT e PDT e levou Camilo Santana a lançar Elmano de Freitas como candidato ao Governo. Foi essa nova composição de forças que abriu espaço na chapa para o MDB indicar Jade Romero para disputar a Vice-Governadoria.
Uma tradição de mudanças
Considerando o período a partir de 1998, quando a reeleição passou a ser permitida no Brasil, Beni Veras foi o primeiro vice-governador cearense a assumir após a mudança legislativa. Ele compôs a chapa de reeleição do governador Tasso Jereissati (PSDB), que havia sido eleito anteriormente ao lado de Moroni Torgan. O próprio Beni chegou a assumir o Governo do Estado na reta final do mandato, quando Tasso deixou o cargo para disputar o Senado Federal.
Veras não tinha pretensões de concorrer à reeleição. Após assumir, ainda em abril de 2002, ele precisou ser operado às pressas para a retirada de um tumor na próstata. A necessidade de dedicar-se ao tratamento médico afastou o político do rol de cotados para disputar novamente o Governo do Ceará.
O nome escolhido pelo tucanato foi Lúcio Alcântara, que teve como vice-governador Maia Júnior, aliado de primeira ordem de Tasso. Eleito, Lúcio tentou a reeleição em 2006, mas a chapa já não contava com Maia. O então vice deu lugar ao empresário Beto Studart em meio às disputas internas do PSDB, já que Tasso era contrário à recondução de Lúcio.
A eleição de 2006 marcou a chegada de Cid Gomes ao Governo do Estado. Na chapa vitoriosa, o vice-governador foi o historiador Professor Pinheiro (PT). Quatro anos depois, Cid foi reeleito, mas com Domingos Filho como vice-governador. Já Pinheiro foi eleito deputado estadual naquele ano.
Após a saída de Cid, inicia-se o ciclo de Camilo Santana. Izolda Cela era uma aliada de primeira ordem do grupo político dos Ferreira Gomes e carregava no currículo a gestão da educação de Sobral, considerada uma das principais vitrines administrativas do Ceará. Sua presença na chapa representava parte importante do projeto político que sustentava a candidatura de Camilo.
A vaga de vice para 2026
Segundo Mariana Dionísio, a trajetória dos vice-governadores no Ceará reforça a análise de que, embora a legislação trate o cargo como um mecanismo de sucessão, na prática ele costuma funcionar como instrumento de composição política.
"Na teoria, o vice está ali para assumir o governo se necessário. Na prática, o cargo é usado como instrumento de composição política, com uma pitada de loteria. O design institucional pressupõe que vices estão ali para assumir se necessário, mas a política real usa o cargo como moeda de negociação: você dá a vaga para um partido aliado, equilibra a chapa, captura votos de outra base e mantém uma visibilidade política que não é de se jogar fora"
Para ela, a situação de Jade Romero ilustra esse movimento. Inclusive, a vice-governadora chegou a anunciar filiação ao União Brasil entre a saída do MDB e a chegada ao PT. O movimento fazia parte de uma estratégia para atrair a sigla para a base e manter a aliada no cargo.
"A troca de partido foi estratégica porque o MDB preferia pleitear a vaga de senador para Eunício Oliveira, e as chances de Jade permanecer como vice seriam maiores em outra sigla. Ela tentou se recolocar na chapa, não funcionou, e acabou anunciando pré-candidatura à Assembleia Legislativa", analisa.
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No grupo governista, o futuro da Vice-Governadoria segue indefinido. Gabriella Aguiar, vice-prefeita de Fortaleza, aparece entre os nomes cotados, assim como uma indicação do MDB. O presidente estadual da legenda, Eunício Oliveira, contudo, já afirmou que a prioridade da sigla é conquistar uma vaga no Senado.
E na oposição?
Enquanto os governistas discutem um nome para compor a chapa de Elmano, a oposição já tem a indicação pública — feita pelo pré-candidato Ciro Gomes (PSDB) — do ex-prefeito Roberto Cláudio (União). Porém, a postulação dele ao cargo esbarra em acordos firmados dentro da Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas.
Desde sua criação, a federação é alvo de disputa entre governistas e oposicionistas. O acordo construído nacionalmente garantiu o comando da federação no Ceará à oposição, sob liderança do ex-deputado federal Capitão Wagner, enquanto as presidências estaduais dos partidos ficaram com aliados do governador Elmano.
Dentro desse arranjo, Roberto Cláudio foi apontado como um dos principais nomes para disputar uma vaga de deputado federal.
Em entrevista ao PontoPoder, no último dia 31 de maio, o ex-prefeito afirmou que recebeu um "convite honroso" de Ciro para compor a chapa majoritária. "Não minto que gostaria de participar dessa chapa, porque acho que, se a gente ganhar, vamos construir um ciclo histórico de mudanças para o Ceará", declarou.
Já o deputado federal governista Moses Rodrigues, presidente estadual do União Brasil, reforçou que a candidatura de Roberto Cláudio à Câmara foi um dos compromissos assumidos na construção da federação.
Segundo o parlamentar, a prioridade da Executiva Nacional da União Progressista é ampliar sua bancada na Câmara dos Deputados, e a meta estabelecida para o Ceará é eleger cinco parlamentares federais. Moses acrescentou que a federação não pretende abrir mão de candidaturas competitivas à Câmara em nenhum estado.
"O União Progressista trabalha para eleger aproximadamente 110 deputados federais no Brasil. Queremos ser a maior bancada da Câmara Federal e, em nenhum estado, faremos concessões que prejudiquem nossa chapa federal", concluiu.