Entrevista: Secretário da Saúde descarta lockdown e detalha negociações de vacinas

Ao Sistema Verdes Mares, o gestor diz que o Ceará tem logística organizada para iniciar a imunização da população e destaca outras medidas do Governo

fotografia
Legenda: Dr. Cabeto ressalta que parceria tecnológica com empresas internacionais pode trazer mais vacinas ao Ceará
Foto: Natinho Rodrigues

O secretário da Saúde do Ceará, Carlos Roberto Martins Sobrinho, o Dr. Cabeto, descarta a possibilidade de um novo lockdown neste momento, apesar do aumento no número de casos de Covid-19 no Estado. Ao Sistema Verdes Mares, o titular da Pasta também destaca as medidas que o Executivo vem adotando para se preparar para o início da imunização. Ele também ressalta a expectativa para que o retorno às aulas presenciais na rede pública ocorra em fevereiro, e detalha diferentes frentes de negociação de vacina para o Ceará. Leia a entrevista:

Qual é o planejamento para a vacinação contra a Covid-19 no Ceará?

O Estado preparou um plano de vacinação que, montando a sua estrutura, terá 210 localidades de distribuição de vacinas. Os refrigeradores estão sendo todos renovados para que a gente possa fazer a estocagem das vacinas. No que se refere a seringas e material de proteção para os profissionais que vão aplicar, isso está absolutamente organizado. Nós temos oito milhões de seringas, com agulhas compatíveis para fazer vacinação de qualquer tipo de vacina que chegue ao Ceará. 

O plano de distribuição e logística também está todo acertado, os profissionais estão treinados. O plano nacional de imunização, que pretende concentrar todas as vacinas disponíveis para o Brasil hoje, pressupõe uma distribuição por percentual de população. Isso incluiria a vacinação de todos os indivíduos na fase 1 de vacinação até o final de fevereiro. Estamos falando dos grupos com idades iguais ou acima de 65 anos, e de profissionais de saúde. Algo em torno de 200 mil pessoas. Seria o plano inicial.

Fora o Plano Nacional, quais são as iniciativas a que o Ceará está aderindo para garantir a vacinação?

O Estado tomou algumas iniciativas que já estavam no Plano de Modernização da Saúde, já estavam no plano de incentivar a questão da economia da saúde. A pandemia apressou algumas medidas que são importantes. 

Entre elas, a parceria tecnológica com empresas internacionais que não estão em parceria com o Estado brasileiro atualmente. Nós entramos em contato, estamos esperando resposta para assinar um memorando inicial, para que essas empresas façam a fase 3 (de testes da vacina) junto com o Ceará, inclusive com a possibilidade de transferência de tecnologia. Ou seja, vacinar mais um grupo no Ceará e, além disso, a possibilidade de incorporar essa tecnologia de produção de vacinas no próprio Estado. 

As outras iniciativas tratam do contato que o Governo do Ceará fez junto com a Pfizer, e junto com a própria Sinovac chinesa, que, uma vez não sendo aportado tudo para o Plano Nacional de Imunização, o Estado do Ceará foi um dos primeiros a assinar um memorando com essa empresa, para que a gente possa adiantar o plano de vacinação do Estado.

A dia de hoje, nós, com a produção que está sendo colocada pela Fiocruz/AstraZeneca, mais a Sinovac, teríamos uma previsão de completar essas 1.740.000 vacinações, ou seja, o dobro disso de doses, até o final de julho.

Teríamos 1,7 milhão de doses até o final de julho?

fotografia
Legenda: Treinamento para a aplicação da vacina já está finalizado, diz Dr. Cabeto
Foto: AFP

Seria essa a proposta do Plano Nacional de Imunização. Nós esperamos que essas outras iniciativas sejam exitosas, para que o Estado possa se antecipar e garantir à sua população uma vacinação em maior escala, para que a gente possa suplantar essa pandemia de forma mais rápida.

O que o Estado tem por fora do Plano Nacional em relação a Coronavac? Vocês pediram uma autorização para um lote emergencial?

Temos um memorando que trata de 1.400.000 doses de CoronaVac para que, se a produção da Sinovac for em grande escala, como estão dizendo na China, para além do que está fornecido ao Plano Nacional de Imunização, se houver disponibilização, temos uma proposta de fazer a aquisição. A mesma quantidade solicitamos à Pfizer.

É bom lembrar que o Ceará, em parceria com a UFC (Universidade Federal do Ceará), tem capacidade para estocagem de freezers a –70 e –80 graus, para usar também a vacina da Pfizer, que inclui uma logística muito mais complexa.

Tudo isso depende das decisões do Governo Federal também? 

Sem dúvida. Todos os estados estão dentro do Programa Nacional de Imunização. É muito importante que as pessoas saibam que é da legislação, obrigação do Governo Federal, suprir os Estados dessas vacinas, inclusive dos insumos. No Ceará, estamos, sim, colaborando com esse plano, mas, evidentemente, cada estado deve procurar ajudar e até adiantar, como no caso da aquisição das seringas, infraestrutura, do plano de logística e até da aquisição.

A gente viu recentemente alguns prefeitos do Ceará indo a São Paulo. É possível essas compras pelos municípios também? 

É pouco provável que isso aconteça. A prioridade é o Plano Nacional de Imunização, para que a gente mantenha essa uniformidade. Para isso, é muito importante que o Ministério coloque de forma clara, para que a população entenda como isso vai acontecer, a priorização da vacina. É importante lembrar que é fundamental aderir ao Plano de Vacinação. A vacina é a forma mais importante de mantermos a economia aberta, de resguardar a vida das pessoas, de terminarmos com essa pandemia. Portanto, fortalecer essas ações de produção, de aquisição, da logística adequada e da população aderir a isso, é fundamental.

É possível que as aulas voltem em fevereiro? 

Nós entendemos que essa é uma das atividades mais importantes para o Estado, principalmente na rede pública, inclusive para que a gente impeça maiores riscos de abandono do ensino, riscos sociais para essa população. Está dentro do plano da gente disponibilizar infraestrutura de testagem, como a gente fez nas escolas já abertas, para que agora em fevereiro, uma vez acordado pelos municípios (comece a implementação do Programa de Reabertura das Escolas). Vamos ter uma reunião na semana que vem para que esse Programa de Reabertura das Escolas aconteça. Já estava liberado isso naquela fase de flexibilização, nós não temos nenhuma intenção de voltar atrás nisso.

Para isso, o Estado está fazendo esses decretos semanalmente para garantir que nós tenhamos tudo sob segurança. 

Foi solicitado pelos professores das redes municipal e estadual que os professores fossem adiantados no Plano de Vacinação. É uma discussão nacional, mas tudo que for necessário e possível para incluir nos grupos prioritários, o Estado vai fazer.

O senhor concorda que tem de haver um novo lockdown? Como é a visão do Estado sobre isso? 

O Ceará tem uma realidade epidemiológica diferente dos outros estados. É preciso particularizar isso. Estamos vendo estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, que me parecem que, numa primeira etapa, tiveram pandemias muito menos graves, um número de contaminados menor e, talvez, a taxa de pessoas imunizadas muito menor. 

O Ceará tem uma realidade em que o número de testagens é maior proporcionalmente à população. Então os nossos números mostram que é possível fazer medidas de forma pontual com mais eficiência. O fato de o Estado semanalmente se reunir com a comissão técnica e tomar decisões em cima disso tem propiciado a gente não estabelecer lockdown precoce. 

Evidentemente, para que isso tudo dê certo, é fundamental que aquelas pessoas que estão fazendo aglomeração em ambientes fechados, entendam que, para garantir o funcionamento da economia, para que a gente possa abrir as escolas... Estou falando principalmente para aqueles que têm menos de 40 anos, que podem infectar pessoas de maior risco, e fazer um quadro epidemiológico diferente no Ceará. 

O Estado tem, sim, ascensão do número de casos restritos, principalmente em Fortaleza, na Regional 2. Não é proporcional ao aumento da mortalidade, mas entendo que o (Miguel) Nicolelis (que em entrevista ao Sistema Verdes Mares declarou que, na falta de uma vacina e outras terapias, o lockdown é “a única medida possível para evitar o colapso do sistema de saúde”) trata de uma forma global. Acho que, em relação ao Ceará, isso é um pouco precoce. Não dá para falar em lockdown nesse momento. 

Quero receber conteúdos exclusivos sobre política