Cresce número de eleitores que escolhem não votar nas eleições

Em Fortaleza e Caucaia, municípios com segundo turno no Ceará, o número de abstenção e de votos brancos e nulos aumentou entre o primeiro e o segundo turno; comportamento segue tendência de pleitos anteriores

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Legenda: Corrupção, pandemia e campanhas com ataques afastam eleitorado das urnas
Foto: Camila Lima

No segundo turno das eleições municipais, muitos eleitores cearenses optaram por não escolher nenhuma das candidaturas à disposição em Fortaleza ou Caucaia. Entre a votação do último domingo (29) e a do primeiro turno, no dia 15 de novembro, houve um crescimento da abstenção e do número de votos brancos e nulos. O aumento segue uma tendência que já vinha sendo observada em disputas eleitorais anteriores.

Na Capital, mais de 1,8 milhão de eleitores estavam aptos a votar em 2020. No segundo turno, mais de 414 mil escolheram não ir às urnas. Na comparação, foram mais de 17 mil eleitores faltosos de diferença entre os dois dias de votação desta eleição. Os votos brancos e nulos, por outro lado, diminuíram. Enquanto mais de 112 mil votaram branco ou nulo no segundo turno, foram mais de 142 mil votos deste tipo no primeiro turno.

Em Caucaia, a abstenção também foi alta. Dentre os 222 mil eleitores aptos a votar, 18,6% escolheram não ir às urnas nesse segundo turno - um total de 41,3 mil pessoas. Apesar disso, a cidade da Região Metropolitana ainda teve o segundo menor índice de abstenção do Brasil. Já no primeiro turno, 14,8% dos eleitores não compareceram às urnas da Justiça Eleitoral.

Assim como em Fortaleza, a quantidade de votos brancos e nulos diminui entre o primeiro (10,53%) e o segundo turno (9,48%). O crescimento também é nítido quando se estabelece relação com 2016. Se compararmos apenas o segundo turno, a abstenção em Fortaleza cresceu de 18,6% (2016) para 22,7% (2020). Em Caucaia, os eleitores faltosos, por outro lado, diminuíram. Em 2016, eles representavam 20% do eleitorado, enquanto em 2020 eram de 18,6%.

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Desinteresse

O crescimento dos eleitores que se abstém ou anulam o voto não surpreende. Especialistas explicam que essa é uma tendência que vem sendo observada desde disputas anteriores. A pandemia de Covid-19 e os riscos de contágio pelo vírus contribuíram para esse aumento, mas, segundo a professora de Teoria Crítica da Universidade Estadual do Ceará, Monalisa Torres, não é suficiente para explicar essa menor participação dos eleitores nas eleições de 2020.

"Isso reflete o desgaste da política. A falta de representatividade que os eleitores têm é um sentimento que já vinha em uma crescente", explica. A questão é maior em municípios de médio e grande porte - casos de Fortaleza e Caucaia.

Pesquisadora do Laboratório de Estudos de Política, Eleições e Mídia, Paula Vieira, completa: "As cidades maiores são o foco do debate do antissistema. No interior, as pessoas tendem a acompanhar a vida política de maneira mais próxima", diferencia a socióloga. "E esse sentimento de antipatia pela política e pelo sistema político acaba se refletindo nas eleições, que são uma marca muito forte desse sistema", completa.

A pandemia também impactou na participação do eleitorado, aponta Monalisa Torres. E não apenas pelos riscos envolvidos em sair de casa para votar no primeiro e segundo turno. A decisão de limitar o tamanho dos atos de campanha que pudessem causar aglomeração - que depois viriam a ser proibidas definitivamente pela Justiça Eleitoral - prejudicou o engajamento do eleitor na disputa.

"A campanha acabou não sendo percebida pelo eleitor. Então, diferentemente de eleições anteriores, em que o eleitor médio se engajava muito mais, não houve um engajamento. O que acaba aumentando esse desgaste com a política", argumenta a docente.

Ataques

As pesquisadoras indicam ainda outra questão que influenciou o crescimento dos eleitores ausentes ou que anulou o voto entre os dois turnos dessa eleição.

Em Fortaleza, as especialistas indicam que a campanha dos dois candidatos que concorriam no segundo turno acabou sendo mais de ataques aos adversários do que de propostas para a cidade.

"O componente da polarização ficou muito presente. Como foi uma campanha do ataque e do voto útil, alguns eleitores não se identificaram com as candidaturas. Quem usa esse expediente (do ataque) acaba afastando o eleitor", aponta Torres.

Com a eleição municipal sendo o momento de discutir problemas mais próximos da cidade, muitos ataques e poucas propostas também desestimulam o eleitor. "Era necessário focar mais nos problemas da cidade. O eleitor sentiu falta disso, principalmente no segundo turno. Foi uma campanha que falou menos sobre a cidade e mais sobre os padrinhos", criticou.

Os ataques acabam prejudicando o sentimento do eleitor de se sentir prejudicado por uma das candidaturas, um problema que vem ocorrendo desde disputas anteriores. "Então, o eleitor acaba usando desse recurso institucional (ao se abster ou anular o voto) para dizer que não é nenhum dos dois, que não quer nenhuma coisa ou outra", acrescenta Paula Vieira.

Caucaia

No município da Região Metropolitana, os acontecimentos da véspera da eleição também impactaram na decisão dos eleitores de participar menos do segundo turno, afirma Monalisa Torres.

Abordagens da Polícia Civil resultaram na apreensão de cerca de R$ 600 mil por suspeita de crime eleitoral em Caucaia. Cinco pessoas foram detidas na manhã do último sábado (28), véspera da eleição, no bairro Parque Potira, inclusive secretários da gestão municipal e o irmão do atual prefeito, candidato à reeleição, Naumi Amorim (PSD).

Além disso, também foram feitas apreensões com o assessor de uma deputada estadual na noite da sexta-feira (27) e com um servidor público de Caucaia. Os casos seguem sendo investigados pela Polícia Federal. Além do impacto do desgaste com a política e das consequências da pandemia para a campanha eleitoral, o episódio é analisado como relevante para a influência do comportamento dos eleitores da cidade. Vitor Valim (Pros) venceu a disputa eleitoral por uma diferença de pouco mais de 3,5 mil votos - valor bem menor do que a soma de abstenção e de votos brancos e nulos.

"Em Caucaia, junta isso tudo. No segundo turno, teve algumas questões na véspera das eleições que foram muito significativas. Além da apreensão da PF envolvendo pessoas ligadas ao prefeito, a avaliação da atual gestão é apenas regular. Isso acaba desestimulando o eleitor a se envolver numa campanha", completa.

A solução para tentar atrair esse eleitor que está distante, portanto, passa por uma aproximação das lideranças políticas da sociedade, consideram as pesquisadoras. "A política tem ficado com uma imagem negativa, porque criou-se um imaginário da política institucional como lugar de corrupção. É preciso que as pessoas eleitas tentem mudar isso", projeta Vieira.

Justificativa

Quem não foi votar, pode justificar o voto até 60 dias após o dia da votação. A justificativa pode ser feita no aplicativo E-Título. Além disso, os eleitores também podem acessar o sistema Justifica pela internet. O acesso é pela página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Presencial

Os eleitores que não quiserem usar a internet podem preencher o Requerimento de Justificativa Eleitoral (pós-eleição), disponível no site do TSE, e entregar em qualquer zona eleitoral ou enviar pelos Correios ao juiz da zona eleitoral na qual for inscrito.

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