'Mãe, passei'
Uma das coisas mais bonitas dos últimos tempos no Nordeste, especialmente no Ceará, é o orgulho dos estudos e dos bons resultados do ensino público. Isso, sim, é uma ostentação — sem frescura — que vale a pena, vale a foto bem enxerida nas redes sociais, vale o sorriso coletivo.
Nada mais comovente do que essas celebrações da turma toda, durante esse período de listas de aprovados e correrias de matrículas, como li ontem neste bravo Diário. Lá estava, sob o clic da fotógrafa Fabiane de Paula — olha o passarinho! —, a galera da Escola de Ensino Médio Dr. César Cals, de Fortaleza. Mais de 250 aprovações na universidade em 2026. Rapaz, que acontecimento, que vitória.
É de fazer da cacimba dos olhos um Orós inteiro. Sou do tipo que amolece nessas horas. Batizado, casamento, mas principalmente conquistas escolares. Saio banhado de lágrimas em uma formatura. Não tem canudo que suporte o aguaceiro.
Como é bonita a chance e o cumprimento do estudo. Pra todo mundo, universal mesmo. Imagina a oportunidade a quem só poderia se formar em escola pública. De arrepiar. Por isso comemoro sempre aquele momento sagrado do “mãe, passei”, e haja abraço, chororô e amém.
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Hoje, se eu pudesse, faria você também refletir com um discurso na linha do escritor David Foster Wallace. Aquela sua fala como paraninfo de uma turma de formandos americanos do Kenyon College, em 2005, Gambier, Ohio. Ele escreveu uma singularíssima fábula sobre dois peixinhos e a água. Recomendo a leitura. O texto está no livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (editora Companhia das Letras).
Wallace conta, singelamente, o encontro de dois peixes novos que encontram um peixe velho e experiente.
— Bom dia, rapazes, como está a água? — pergunta o veterano.
Os jovens peixinhos olham um para o outro e se espantam:
— Água, que diabé´isso?
Pois é, de tão envolvidos pela água todo dia, o dia inteiro, os peixes ainda adolescentes perdem a capacidade de perceber o óbvio. Simplesmente banalizaram tanto as coisas da rotina que perderam a noção das evidências. A intenção do autor, creio, era passar na nossa cara que de nada adianta se empanzinar de informação e patifarias se perdemos a capacidade de enxergar (e sentir) o óbvio.
Acredito que essa gente jovem reunida jamais ficará anestesiada da sua valiosa realidade. Até a próxima.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.