Chapada do Araripe está entre o protesto ou o deserto

Escrito por
Xico Sá producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 12:28)
Foto: Arquivo Pessoal/PH

Foi ali no caminho de Luiz Gonzaga, no rumo da descida de Exu para o Crato, que o Movimento Salve a Chapada do Araripe deu o seu primeiro grito do ano, no sábado (24). O fole roncou em nome da causa mais urgente. É grito agora ou deserto logo mais.

Uma das áreas de proteção ambiental mais devastadas do país, a região vive uma nova ameaça — nem tão nova assim — de grupos pesados do agronegócio. Com latifúndios prontinhos para o cultivo da soja, a “caixa d´água do sertão”, como é definida a chapada, corre perigo.

Oásis de umidade que junta as terras do Ceará, Pernambuco e Piauí, o fim da mata seria um desastre para o Nordeste. Quase uma atualíssima Guerra dos Bárbaros (1683–1713), aquela que dizimou os Kariris e outros povos indígenas das nossas bandas.

É protesto ou deserto.

A chapada de Padre Cícero, beato Zé Lourenço, Bárbara de Alencar,

Gonzagão, Elói Teles, Patativa do Assaré, Espedito Seleiro, Abidoral Jamacuru, Rosemberg Cariry, Ronaldo Correia de Brito (Rio sangue), Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde — ave memória! — corre do fogo, corre do monstro, corre perigo.

Como dizem os estudiosos da crise climática, a “caixa d´água do sertão” é um coletivo daquelas fantásticas máquinas de esfriamento global que não podemos nos dar ao luxo burro de destruí-la.

Daqui a pouco, não sobrará nem a trilha do Menininho, lá no sítio de Mané Coco. É protesto ou deserto. O que seria um desastre não apenas para o Cariri, não apenas para o Nordeste, mas para o Brasil, para a humanidade.

Pelo “Mistério das 13 Portas no Castelo Encantado da Ponte Fantástica", caríssimo José Flávio Vieira, é agora ou nunca mais.

Permita-me um sermãozinho apocalíptico, nem que seja por 15 minutos, mas precisamos da oratória dos beatos e conselheiros nessa hora.

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Precisamos repetir aqui, perdão pela insistência, a cartilha do pioneiro da causa. O profeta Cícero Romão Batista espalhava mandamentos de defesa do meio ambiente há quase cem anos, em um tempo em que nem se pronunciava a palavra ecologia. Fiquem com os preceitos verdes do santo popular do Nordeste:

1 - Não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau.

2 - Não toque fogo no roçado nem na caatinga.

3 - Não cace mais e deixe os bichos viverem.

4 - Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer.

5 - Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.

6 - Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva.

7 - Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta.

8 - Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.

9 - Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca.

10 - Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá o que comer. Mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.

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