Bolsonaro diz desconhecer hospitais lotados e afirma que medidas estaduais não cairão em seu colo

A nova rodada de críticas ocorre apenas dois dias depois de Bolsonaro ter feito um apelo por união em rede nacional de rádio e televisão, com o objetivo de coordenar esforços no enfrentamento da doença

Legenda: Pesquisa aponta que 59% são contra e 37% a favor da renúncia de Bolsonaro em meio à pandemia
Foto: Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a minimizar a pandemia do novo coronavírus nesta quinta-feira (2), quando disse "desconhecer qualquer hospital que esteja lotado" e afirmou que as consequências econômicas das medidas de isolamento social tomadas pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não vão cair em seu colo.

A nova rodada de críticas ocorre apenas dois dias depois de Bolsonaro ter feito um apelo por união em rede nacional de rádio e televisão, com o objetivo de coordenar esforços no enfrentamento da doença.

"Eu desconheço qualquer hospital que esteja lotado. Desconheço. Muito pelo contrário. Tem um hospital no Rio de Janeiro, um tal de Gazolla [Hospital Municipal Ronaldo Gazolla​], que se não me engano tem 200 leitos. Só tem 12 ocupados até agora", afirmou o presidente na tarde desta quinta a um grupo de apoiadores que o esperava na entrada do Palácio da Alvorada.

"Então não é isso tudo que estão pintando. Até porque no Brasil a temperatura é diferente, tem muita coisa diferente aqui."

Na conversa, o presidente novamente criticou governadores e disse que problemas ocasionados pela paralisação da economia em São Paulo, como queda na arrecadação estadual, não vão cair em seu colo.

"Tem uma ponte que foi destruída, que é a roda da economia, o desemprego proporcionado por alguns governadores. Deixar bem claro: alguns governadores. Porque daqui a pouco vai a imprensa falar que eu estou atacando governador. Em especial [o] de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Se eu não me engano, Rio Grande do Sul prorrogou [isolamento social] por mais 30 dias", queixou-se o presidente.

Nesta quinta, o presidente também afirmou no Twitter que "quando falamos em união, nos referimos aos que querem o melhor para o Brasil e para os brasileiros, não uma aliança com quem quase o destruiu por completo".

Doria e o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), foram os principais destinatários dos ataques do presidente nesta quinta.

"Esse Carlos Moisés, pelo amor de Deus! Mais um que se elegeu com meu nome", disse Bolsonaro, numa crítica a medidas de fechamento do comércio e de isolamento social.

O governador catarinense rebateu dizendo que "não é hora de discurso político".

"Estamos falando da preservação de vidas. Estamos falando de retomada de atividades com critérios técnicos e colocando a vida em primeiro lugar, a exemplo do que fizemos ontem [quarta, 1°]", disse. "Liberamos com regras rígidas o segmento da construção civil. É isso que estamos fazendo."

Sobre Doria, um dos seus principais antagonistas, Bolsonaro disse que o tucano "acabou com o comércio de São Paulo" e agora quer ajuda federal para resolver o problema da queda de arrecadação.

Ele argumentou que as ações tomadas por Doria, por serem excessivas, se converteram num "veneno".

"Acabou ICMS, vai ter dificuldade para pagar a folha agora, com toda certeza, nos próximos um ou dois meses. E [Doria] quer agora vir pra cima de mim. Tem que se responsabilizar pelo que fez. Ele tem que ter uma fórmula agora de começar a desfazer o que ele fez de excesso há pouco tempo. Não vai cair no meu colo essa responsabilidade. Desde o começo, eu estou apanhando dele e mais alguns exatamente por falar isso", concluiu.

Na manhã desta quinta-feira, Bolsonaro já havia divulgado um vídeo em suas redes sociais no qual uma bolsonarista critica os governadores e a imprensa.
A mulher, que se apresentou como professora particular, apela para que o mandatário ponha "militares na rua" para encerrar medidas restritivas adotadas por governadores.

"Não tem condições de a gente viver nessa situação. Vai faltar coisa para os meus filhos dentro da minha casa. Estou aqui pedindo para o senhor: põe esses militares na rua, põe para esse governador [do Distrito Federal], [que] já decretou de novo mais um mês sem aula, sem nada".

Ela se referiu ao governador Ibaneis Rocha (MDB), que, nesta segunda-feira (1), prorrogou medidas de isolamento social no DF. Em seu depoimento, a mulher também criticou os governadores que adotaram ações restritivas.

"Esses governadores querem o quê? Todo mundo tem a casa deles, o dinheiro deles. E eu não tenho nada. A gente tem o senhor. É isso que a gente tem. Acordo cedo, não durmo, preocupada com a minha vida. E milhares de pessoas estão assim".

Ela também atacou a imprensa: "Eu sou mãe de família, sou separada, tenho meus filhos. Vim ontem [quarta], estou aqui hoje e venho pedir para o sr. Porque a imprensa não ajuda a gente, a imprensa faz é acabar com a nossa vida. Eles não passam necessidade, estão aí só para falar mentira, para acabar com a vida do povo. Não sabem a necessidade de cada um", declarou.

Ao final da declaração da simpatizante, Bolsonaro disse que ela fala "por milhões de pessoas".

Nesta semana, o presidente havia sinalizado moderação com um discurso que falava em pacto nacional frente ao "maior desafio da nossa geração".

"Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade", declarou na terça-feira (31).

Uma semana antes, o presidente foi alvo de pesadas críticas após um pronunciamento em que menosprezou a gravidade da pandemia, atacou governadores pelas medidas de isolamento social, às quais chamou de "política de terra arrasada", e culpou a imprensa pela crise do coronavírus.

A moderação sinalizada no discurso de terça-feira, no entanto, durou pouco. Já na manhã de quarta-feira (1º) Bolsonaro voltou a criticar governadores e medidas de isolamento.

O presidente chegou a compartilhar um vídeo em que um homem aparece na Ceasa (Central de Abastecimento) de Belo Horizonte e relata uma situação de desabastecimento. Isso foi desmentido pela Ceasa, e Bolsonaro teve de pedir desculpas por ter feito a publicação sem checar.

"Foi publicado em minhas redes sociais um vídeo que não condiz com a realidade para com o Ceasa/MG. Minhas sinceras desculpas pelo erro", escreveu.

Depois que o desmentido começou a circular nas redes sociais, o presidente também apagou a publicação original que havia feito no Twitter, no Instagram e Facebook.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, o histórico de radicalização de Bolsonaro e publicações feitas por ele em suas redes com ataques a governadores fizeram com que líderes políticos nos estados e no Legislativo encarassem com ceticismo o chamado por união feito pelo presidente em seu último pronunciamento.