Bismarck demonstra preocupação com perdas no turismo e detalha estratégias de Aracati na pandemia

Em entrevista ao Diário do Nordeste, o gestor fala sobre os investimentos na Saúde para tentar atender à população e também dos desafios

Bismarck Maia

Assumindo o segundo mandato consecutivo como prefeito de Aracati, Bismarck Maia (PTB) teve o desafio de fechar o comércio e interditar as praias de um dos destinos turísticos mais procurados do Ceará e proibir aglomerações e festas durante um período sagrado do ano por lá que é o Carnaval.

Os prejuízos para o turismo são enormes. Entretanto, o que fazer para enfrentar a pandemia?  

Em entrevista ao Diário do Nordeste, o gestor fala sobre os investimentos na Saúde para tentar atender à população e também dos desafios. A estratégia dele é garantir investimentos em infraestrutura e tentar atender a necessidades básicas da população como alimentação em meio a um cenário onde o auxílio emergencial ainda é incerteza. 

Bismarck Maia comenta a experiência de ter cancelado um dos mais tradicionais carnavais do Estado – festa responsável por parte considerável da economia, relata as perdas do turismo e até a ameaça aos voos semanais de São Paulo para o município pela companhia Azul.

O prefeito também adota uma postura neutra em relação à política nacional, e diz ter boa relação com o presidente do seu partido, o ex-deputado Roberto Jefferson.

A série "O traçado da gestão" entrevista prefeitos dos maiores municípios cearenses.

Legenda: Bismarck está no segundo mandato consecutivo como prefeito de Aracati
Foto: Thiago Gadelha

Confira a conversa com Bismarck Maia: 

Para todos os prefeitos a pandemia foi certamente o maior desafio do ano passado. O senhor agora assume o segundo mandato consecutivo, e precisou também refazer os planos em 2020. Como foi a gestão em Aracati frente aos percalços da Covid-19? 

Desde o dia 15 de março nós começamos a tomar as providências. Aracati, inclusive, alargou algumas decisões que foram tomadas pelo governador durante aquela crise maior, em julho. E só em setembro, quando a nossa taxa de contágio estava baixa, nós flexibilizamos o fechamento do comércio. As praias também foram fechadas com barreiras sanitárias.   

Fizemos a implantação de 27 leitos especificamente para atendimentos de Covid-19 no Hospital de Aracati. Foram 12 unidades em 15 dias. E depois mais 15 leitos em 45 dias. Tudo isso com recursos próprios. Chegamos durante muito tempo a ficar, percentualmente, como o município que mais testou (para covid-19) no Ceará.  

E o que é pior, essa nova variante que ingressou aqui no Ceará. De repente, a gente se depara com esse novo problema de novo, muito forte, né? Agora, estamos um pouco mais experientes.  

O Carnaval de Aracati é um dos principais do Estado. A cidade se beneficia economicamente com a chegada de turistas, e todo o setor é aquecido. Este ano a prefeitura fez um esforço para que não houvesse festa, nem visitantes. Qual o prejuízo econômico? 

O povo de Aracati deu um exemplo no Carnaval, embora com muita tristeza. Você vê Canoa Quebrada, a praia a noite fechada, os bares fechados, não é fácil pra população. Mas foi um exemplo de compreensão. 

O Carnaval em Aracati é diferente de outros lugares. Além de envolver da criança ao idoso, todo mundo, realmente, sente Carnaval, todo mundo vive Carnaval, todo mundo se integra ao clima do Carnaval.  

Por outro lado, essas mesmas pessoas se agregam à economia. Ou seja, o quem menos faz abre uma abre uma janela na sua casa pra vender sanduíche. Mas (envolve) todo pequeno, médio, grande empresário comerciante, prestador de serviço desde mecânica até qualquer outro tipo de atividade. É impressionante como não só se envolve, como aglutina, como ganha com o Carnaval. Então, é uma receita incomparável. 

O turismo representa uma receita importante na cidade. Com o decreto estadual, bares, restaurantes e barracas de praia tiveram funcionamento reduzido. Qual o efeito disso, na prática? 

O movimento de turistas de Canoa Quebrada (famosa praia do município) é praticamente a metade do movimento de cinco agências bancárias. Isso está parado. E barracas abertas até às 15 horas, quem é que vem de fora? Prejudica muito fortemente o turismo.  

Nós não temos capacidade, a Prefeitura é limitada a gerar bolsa renda, nós não temos uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que aprove emissão de moeda, né? Que aumente o gasto público. Nós não temos emissão de títulos no mercado. 

A Azul Linhas Aéreas mantinha dois voos para Aracati, agora reduziu para apenas um.  

Legenda: Em fevereiro de 2019, o Aeroporto de Canoa Quebrada, em Aracati, recebia o primeiro voo comercial, operado pela Azul Linhas Aéreas
Foto: Fabiane de Paula

Sem passageiro, o avião não pode decolar, é prejuízo. Como que os turistas vão vir para se divertir em um local onde tudo está fechado?  A nossa esperança é a vacina, não tem jeito, devia estar aí há muito tempo. A gente fica mais triste ainda em saber das propostas que haviam aí desde o ano passado para comprar a vacina e não compraram. O Brasil tem uma capacidade de vacinar muito grande. O que chegou em Aracati nós usamos. 

O fim do Auxílio Emergencial deixou muitos prefeitos preocupados. A população vinha de uma renda certa de ao menos R$ 600 e esse repasse foi interrompido. Como a prefeitura lidou com isso? 

Como é que nós vamos fechar hoje sem renda auxiliar?  Eu fiquei tão preocupado que, na hora que eu decretei fechamento do comércio, imediatamente mandei comprar estoque de cesta básica. Na certeza ou na presunção que poderia acontecer, inclusive, invasão. É lógico, quem tá com fome quebra o comércio, quebra tudo. Se as lojas de bens alimentícios iam ficar abertas, poderiam ser invadidas.  

O comércio se sustenta pra pagar comida. Então, de repente, isso tudo fecha, todo mundo que nem recebe em folha formal deixa de trabalhar. Isso gera fome.  

Havia algum tipo de programa de transferência de renda antes do Governo Federal implementar o auxílio? 

Eu já tinha um programa especial, chamado “Aracati Não à Miséria”, que prevê cesta básica e material de higiene para aqueles que estão acamados, idosos, pessoas com deficiência. Aumentei o volume de cesta básica, justo por presunção que haveria invasão. Mas veio a ver a renda auxiliar (auxílio emergencial). Ninguém esperava que fosse cobrir 65 milhões de pessoas no Brasil.  Isso deixou uma estabilidade na economia, até emocional, inclusive, na população.  

Enquanto que o Bolsa Família paga lá embaixo (pouco) e paga (apenas) para uma família, no Auxílio Emergencial três, quatro pessoas passaram a receber R$ 600. Isso tem uma acomodação na parte psicológica, na parte emocional, na parte financeira, inclusive, de sustentação.  

Quais as soluções de curto prazo para esse problema? 

A minha preocupação é deixar tudo em dia e fazer investimento. Estou procurando fazer isso com muito sacrifício. Não devia tá fazendo agora no primeiro ano, mas estamos fazendo um sacrifício para não parar as obras estruturantes. Não quero deixar ninguém passar necessidade alimentícia. Pela primeira vez na história do Aracati, pelo menos recente nos últimos anos e nos últimos quatro, não se atrasa a folha de pagamento. Vamos continuar cumprindo.  

Há a possibilidade de um programa de transferência de renda diretamente da prefeitura? 

Estou discutindo isso internamente, mas é uma coisa que eu acho que a gente tem que ter muita responsabilidade. Se você gastar mais do que pode, você manda hoje (um auxilio) para 500 pessoas. E se forem mil (necessitados)? O Governo Federal pensou que ia gastar R$ 6 bilhões, foram R$ 70 bilhões por mês. Quinze bilhões por ano é o custo do Bolsa Família. Nós não temos essa capacidade. São 12 mil pessoas pobres em Aracati, de um total de 75 mil. Não quero deixar faltar água e comida.  

Cada Estado e município têm uma política própria para lidar com a volta às aulas. Como Aracati encarou esse desafio? Quais são as estratégias para sanar os impactos de ter passado tanto tempo sem aula? 

O impacto será muito no socioeducativo, né? Educativo não só de formação, sócio não só no psicológico, no emocional, no relacionamento. Eu acho que esse ano se prevê perdido, nesse ritmo de desconfiança total na chegada das vacinas, eu acho que nós vamos ter uma prejudicialidade muito grande na formação dessas crianças. 

A nossa (aula) remota começou hoje (segunda, 22). O uso de tablets já era programa de governo, eu reformei e construí novas escolas. Como todo e qualquer prédio público — sem nenhuma leitura política —, todos os prédios públicos estavam em situação de necessidade de reformas profundas, algumas delas nem possibilidade de reforma. 

Mesmo sem a pretensão de que cheguem as vacinas suficientes em curto prazo, já dá para planejar uma gestão pós-pandemia? 

Você tem que planejar com cenários diversos. Quem não planeja, não faz nada, eu não administro olhando para os pés. Eu como qualquer bronca pra tomar a decisão hoje se for benéfica no médio e longo prazo. Tomei várias decisões, sobretudo, em ano de eleição. Meu planejamento é continuar investindo, vamos aumentar fortemente no segundo semestre esse investimento.  

Estou viabilizando recursos já sinalizados para investimento no segundo semestre. Isso inclui obras públicas pra gerar emprego. No ano passado quando nós fizemos essa mesma tática em Aracati faltou mão de obra. Ou seja, eu estou poupando, tendo que gastar, mas tem planejamento para recuperação de economia, não tenho dúvida.  

Se eu tivesse vacinas, hoje eu vacinava o idoso que está sofrendo dentro de casa. Mas eu queria também ter vacina para o jovem, que é quem está indo à rua, e se contamina.  

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do seu partido, o PTB, mantém uma relação de certa proximidade com o presidente Jair Bolsonaro. Qual sua relação política a nível federal?  

Legenda: O prefeito em interlocução com a Assembleia Legislativa
Foto: José Leomar

O PTB para mim é o limite do Aracati. Eu não me envolvo em política nacional para não prejudicar o meu município. Aracati e qualquer município do Ceará têm grandes dificuldades. Não é hora. Tem um deputado federal que tá me ajudando muito. 

E no plano estadual eu precisaria ter um deputado estadual, e lutarei pra ter nessa próxima eleição. Agora, minha militância é única e exclusivamente administrar o Aracati. Não quero desavença com ninguém que venha prejudicar o município.  

Sobre o Roberto Jefferson, foi meu colega deputado. Quando fui criar a Comissão de Turismo Oficial, ele me ajudou (na interlocução) com o presidente João Paulo na Câmara e ajudou a criar.  

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