Ofensiva de Michelle tenta marcar posição no PL e construir grupo político relevante

Ex-primeira-dama quer impor, a partir do Ceará, um lugar na mesa de negociação nacional do bolsonarismo

Escrito por
Inácio Aguiar inacio.aguiar@svm.com.br
Legenda: Em novembro do ano passado, Michelle abriu a crise no PL ao anunciar apoio a Girão
Foto: Fabiane de Paula

A ofensiva de Michelle Bolsonaro (PL) contra o enteado Flávio, pré-candidato à Presidência da República, é ancorada no Ceará, mas tem objetivo nacional. Ao expor, em um longo vídeo, o atrito com o senador, a ex-primeira-dama escolheu deliberadamente o tabuleiro cearense para travar uma disputa que é pela divisão do espólio político de Jair Bolsonaro.

Michelle tem demonstrado que, embora o enteado e o PL no Ceará tenham feito ouvidos moucos para a queixa, não vai desistir de manter sua liderança que se concentra fortemente no segmento evangélico e conservador feminino.

Por que o Ceará? 

O Ceará oferece a Michelle tudo o que ela precisa para marcar posição. Aqui está a aliança mais delicada, do ponto de vista narrativo, do bolsonarismo nesta eleição: o diretório estadual do PL, presidido pelo deputado André Fernandes (PL), declarou apoio à pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo.

O mesmo Ciro que deu diversas declarações contundentes contra Jair Bolsonaro e seu entorno e que, recentemente, em entrevista à Revista Veja, voltou a fazer críticas e comparar Bolsonaro a Lula.

Para Michelle, é o cenário perfeito. Defender "valores" contra o pragmatismo de uma aliança com Ciro é uma posição de baixo custo e alto retorno simbólico junto à base mais fiel.

Michelle acredita que o enfrentamento fará o público feminino e evangélico ficar ao seu lado e contra Flávio. Essa é a aposta. 

O verdadeiro jogo

A ex-primeira-dama está, ao mesmo tempo, defendendo uma bandeira moral, montando um grupo e fincando bandeira no território político. No Ceará, esse grupo tem dois nomes mais fortes: a deputada federal Priscila Costa (PL), que Michelle quer ver candidata ao Senado, e Eduardo Girão (Novo), que ela defende para o governo em lugar de composição com Ciro.

A vaga de Priscila no Senado, por sinal, é o nó da crise local. Pela composição da chapa cirista, restou ao PL uma única indicação. André Fernandes escolheu o próprio pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL). Michelle reagiu com a pergunta que sintetiza a ofensiva: se a aliança com Ciro é tão boa, por que não é a vaga do pai de André que se sacrifica? Por que a mulher é quem cede?

Divisão de espólio

Com Jair Bolsonaro inelegível, o campo político de direita não disputa só a sucessão de Lula, mas sim espólio político do bolsonarismo, e Flávio se move como herdeiro presumido. Ao acusar o enteado de tê-la mandado "ficar fora das decisões", Michelle não responde a uma ofensa pessoal. Ela contesta a hierarquia.

Com o movimento, a ex-primeira-dama tenta evitar ser tratada como figura decorativa. Quer cadeira na mesa, indicação de nomes e time próprio. E escolheu fincar essa bandeira no estado em que o PL resolveu se aliar com alguém que estaria fora da própria cartilha até recentemente.

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