É preciso que tudo mude...

A câmara dos deputados dos Estados Unidos aprovou no dia 10/03 um pacote de ajuda aos cidadãos americanos para o enfrentamento da pandemia de covid 19.

Isso inaugura a transição para uma nova forma de relação entre o Estado e a população, superando o modelo Thatcher, na Inglaterra, e Reagan, nos EUA, de cortes de gastos públicos e transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos.

Porém, Joe Biden não está orientando a economia americana para um novo Welfare State (Estado de Bem-Estar). Há uma nova característica. Não se trata de um retorno a uma sociedade onde os ganhos de renda sejam baseados nas rendas obtidas com o trabalho. Nos Estados Unidos, a transformação se dá por meio de complementações de renda. Cheques são destinados às residências.

Direitos trabalhistas e sociais foram esmagados por governos conservadores por 40 anos. Governos dos dois principais partidos americanos, Democrata e Republicano. Não serão reconstruídos os direitos. Mas a renda deverá ser complementada pelo Estado.

Há uma mudança visível nos EUA e na União Europeia. O capitalismo não sobreviverá sem manter a capacidade de consumo. Rendas complementares se tornaram indispensáveis, quando antes eram uma heresia.

Enquanto isso, um estado de bem-estar social está sendo construído na China. As camadas médias em breve serão compostas por 550 milhões de pessoas. E depois por 750 milhões. Números estonteantes. A distribuição de renda chinesa é promovida com a elevação de salários. Um modelo clássico de Welfare State.

O mundo mudou. No Oriente há distribuição de renda e melhoria da qualidade de vida com o crescimento da renda. No Ocidente, há as complementações das rendas familiares. Dois modelos distintos com um mesmo diagnóstico: não há como o capitalismo continuar a existir com a fórmula neoliberal do abandono das populações a sua própria sorte. A luta encarniçada e desigual pela sobrevivência não poderá se manter. O próprio capitalismo sucumbe se tudo for mantido igual.

Parafraseando o magistral Tomasi di Lampedusa por meio de seu personagem, príncipe Salina, em “O Leopardo”, é preciso que tudo mude para que permaneça como está.

Fábio Sobral
Professor de economia da UFC


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