Bárbara de Alencar e bode Ioiô: memória insepulta

Escrito por
Luiz Carlos Diógenes producaodiario@svm.com.br
Escritor
Legenda: Escritor

Fatos vividos estão mortos? Sim, quando pulverizados pela bomba tóxica do memoricídio. Restam soterrados no tempo ido, sem vínculos de reminiscência. Não, quando embalsamados pelas ligas de lembranças recorrentes. Tornam-se corpos abertos às visitas contínuas, físicas e metafísicas, no teatro de suas existências. Embalsamar a história que não deve ser esquecida, atualiza o passado alumiando o incerto porvir. 

Bode Ioîô é um exemplo típico de defunto vivo. Sobrevivente das secas que flagelaram o sertão cearense, couro e osso, escapou do machado. Ainda revira o barro dos fatos vividos. Fortaleza concedeu-lhe cidadania, há mais de cem anos. Metido nas bodanças citadinas, mestre na irreverência acanalhada do populacho, alimentadas do faccionismo político ao pão literário, muito pode ainda ensinar. 

O olhar curioso de quem o visita, no Museu do Ceará, penetra tanto na alma moleque de um povo quanto nos fundamentos histórico-culturais de uma cidade. Bárbara de Alencar também é chave para compreender o passado cearense. Insubmissa ao mandonismo monárquico e machista, é exemplo de revolucionária rediviva, a cobrar o devido embalsamento na memória popular. Inspira, ainda, a luta permanente à formação de uma nova mentalidade, ao remexer os subterrâneos do patriarcado cristalizado. Por seu vanguardismo feminista, ativismo cultural, retidão moral, liberdade política, idealismo republicano, é pedagógica história, passada, a ensinar ao presente. 

Ideias eternas, que balançam no trapézio entre emancipação e dignidade humanas, aureolam a alma embalsamada de quem as reuniu em um corpo vivo de memória. Bárbara vagou por cárceres nordestinos, deixou rastros entre Fortaleza, Recife e Salvador, há mais de duzentos anos, com os filhos, prestigiosos. Todos réus por crime de lesa-majestade, antes ainda da Confederação do Equador. 

Bode Ioiô e Bárbara apontam o caminho da mudança, evolutiva, de paradigmas científicos e sociais. Além dos meros fatos, de ontem, cômicos ou trágicos, seus feitos exemplares e simbólicos, suscitam a igualdade ético-política, entre seres vivos, de hoje. Escapando do machado ou da forca, ambos embalsamam o tempo histórico. 

Luiz Carlos Diógenes é escritor

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