A experiência aliada à eficiência: como a Inteligência Artificial pode redefinir o setor automotivo?

Escrito por
Rodrigo Pereira producaodiario@svm.com.br
Rodrigo Pereira é engenheiro mecatrônico
Legenda: Rodrigo Pereira é engenheiro mecatrônico

O setor automotivo está diante de uma encruzilhada histórica. De um lado, consumidores cada vez mais digitais, exigentes e confusos diante da multiplicidade de modelos de compra, como assinatura, carro conectado e customizações digitais. Do outro, uma indústria que ainda busca clareza sobre como equilibrar tradição, inovação e eficiência.

Nesse cenário, a Inteligência Artificial (IA), além de ser uma ferramenta tecnológica, também pode ser a engrenagem capaz de alinhar dados, processos e estratégias de negócio para sustentar a transformação que já começou.

Um relatório recente da Automotive Business sobre tendências do setor feito a partir de dados da indústria revela um cenário curioso: cerca de 35% das empresas ainda não enxergam necessidade imediata em investir na experiência de compra digital, 34% planejam iniciativas futuras e apenas 30% já operam nesse modelo. A principal barreira apontada é a preferência do consumidor pela interação presencial (53%).

Esses dados expõem um paradoxo: a tecnologia está disponível, mas a mudança cultural é profunda e lenta. A preferência pelo físico muitas vezes se deve à confusão do próprio consumidor diante de tantas novidades, o que o leva a buscar a segurança da loja física. Ou seja, não se trata de uma simples transição do 100% físico para o 100% digital.

É nesse ponto que a IA pode atuar de forma decisiva. Antes de entregar experiências personalizadas e futuristas, é preciso reforçar os alicerces da eficiência. Muitas empresas ainda subutilizam o que chamamos de "IA clássica", com soluções já testadas em outros setores que podem gerar ganhos imediatos de eficiência e receita. Ações como previsão de demanda, otimização de estoques, manutenção preditiva e gestão inteligente da cadeia de suprimentos são exemplos práticos.

É preciso ter um olhar pragmático e sair do modismo da IA para conectá-la à estratégia do negócio. Sem essa base de eficiência, qualquer promessa de jornada digital integrada se torna insustentável.

O maior ativo das montadoras não é apenas sua capacidade de produção, mas o profundo conhecimento que possuem sobre seus consumidores. No entanto, um desafio crítico é que muitas montadoras não têm o know-how necessário para transformar esses dados em inteligência aplicada. A empresa que conseguir usar esses ativos para entender as diferenças de seus clientes sairá na frente.

Transformar dados em inteligência significa antecipar necessidades e qualificar os leads para os vendedores, preparando-os para um atendimento "figital", que combina o físico e o digital, muito mais eficaz. Ferramentas de IA Generativa, por exemplo, podem aumentar o engajamento do consumidor com o lojista antes mesmo da visita, fazendo com que ele chegue ao showroom já sabendo o que quer.

A IA também abre portas para redesenhar o modelo de negócio. Um dos maiores desafios é atender as expectativas do consumidor, que está cada vez mais exigente, de olho nas marcas, procurando algo mais compatível com o seu estilo, entre outros. Incluindo a personalização que o veículo oferece, seja pelo lado de design, color & trim, ou seja por personalização no painel de instrumentos ou central multimidia.

Nesse sentido, a IA pode ajudar a equilibrar o desejo do consumidor e a viabilidade industrial, atuando desde o pré-venda, por meio de chats conversacionais e assistentes inteligentes que tiram dúvidas e orientam o cliente antes mesmo de chegar à loja. Assim, ele já chega mais direcionado e usa o espaço físico para vivenciar o produto, fazer o test drive e concluir a negociação.

O futuro da mobilidade será figital. Não se trata de escolher entre o showroom físico e o e-commerce, mas de integrá-los de forma inteligente. A IA é o elo que permite costurar essa transição de maneira pragmática, conectando a eficiência operacional à entrega de valor para o cliente.

Executivos e empresas que entenderem essa lógica irão liderar uma transformação que vai além da venda de veículos. Trata-se de redesenhar modelos de negócio e preparar fábricas e concessionárias para um futuro onde os dados são o combustível mais valioso. O caminho a ser trilhado é longo e há um mundo a ser explorado, desde a monetização de serviços digitais até a digitalização da oficina, com mecânicos trabalhando com Realidade Virtual.

O risco de não agir é imenso: organizações podem ficar presas a modelos tradicionais, enquanto novos competidores, mais ágeis e orientados por dados, ocupam o espaço. O setor automotivo não pode se dar ao luxo de esperar. A hora de transformar eficiência em experiência, com a IA como engrenagem central, é agora.

 Rodrigo Pereira é engenheiro mecatrônico

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