O CEO e cofundador da fintech cearense "meutudo", Márcio Feitoza, afirmou que o gigante Nubank já tentou adquirir a empresa três vezes. Segundo ele, atualmente, o banco digital do Ceará possui 20 milhões de clientes e um portfólio de R$ 22 bilhões.
De acordo com o empresário, o interesse teria surgido quando o "roxinho" decidiu entrar no mercado de crédito consignado, em 2023. As informações foram dadas durante encontro do Grupo de Líderes Empresariais do Estado (Lide), no Hotel Gran Marquise, nessa sexta-feira (24), em Fortaleza.
“Eles identificaram na ‘meutudo’ a única operação capaz de atuar de forma 100% digital, com uma cultura e foco no cliente idênticos aos seus", afirma Feitoza. Conforme o empresário, as ofertas foram recusadas porque a fintech cearense não gostaria de ficar limitada ao consignado.
A empresa cearense já possui autorização do Banco Central para se tornar uma plataforma financeira com todos os serviços de mercado. Ao todo, a "meutudo" possui 700 funcionários entre as sedes de Fortaleza e São Paulo, sendo que a maioria fica no Ceará.
O Diário do Nordeste solicitou ao Nubank mais informações sobre as negociações mencionadas pelo empresário, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. Em caso de retorno, este texto será atualizado.
"Rivalidade estratégica"
Feitoza explicou que a relação com o Nubank é, ao mesmo tempo, "de admiração cultural e de uma rivalidade estratégica crescente".
Segundo o empresário, a fintech cearense detém a inteligência de crédito, mas perde o fluxo transacional, já que 35% dos clientes da "meutudo" recebem seus empréstimos em contas do Nubank.
"Não faz sentido a gente quebrar a jornada do nosso cliente desse jeito", afirmou o executivo, destacando que o objetivo, em menos de três anos, é oferecer conta corrente e investimentos para reter esse público e concorrer diretamente com o Nubank.
Atualmente, a fintech cearense oferece crédito consignado para o INSS, portabilidade, refinanciamento, antecipação do saque-aniversário do FGTS, seguros e cartões de benefício.
Abaixo, os números da "meu tudo" apresentados no evento:
- Clientes: 20 milhões de usuários totais;
- Portfólio (Dez/26): meta de ultrapassar R$ 25 bilhões;
- Originação Líquida: projeção de mais de R$ 20 bilhões em novos créditos no ano;
- Receita Bruta: expectativa de atingir R$ 4,7 bilhões;
- Lucro Líquido: meta de R$ 500 milhões;
- Crescimento: expansão de receita projetada em 2,5x entre 2025 e 2026.
A aliança com o BTG Pactual
Se o Nubank tentou três vezes, o BTG Pactual foi ainda mais persistente: tentou seis vezes comprar a "meutudo", conseguindo concretizar a sociedade apenas na sétima tentativa.
Hoje, o BTG detém 48% da empresa e é o parceiro estratégico que garante o financiamento para a escala da operação. O CEO da "meutudo" explica que, nesse caso, a parceria foi estratégica para ambos, já que "o BTG, gigante no atacado, viu na 'meutudo' o seu caminho para o varejo".
"O BTG é o maior banco de investimento da América Latina, mas a posição dele com relação ao varejo ainda não é uma posição tão relevante. Ele viu na 'meutudo' uma empresa que tem um olhar muito comprometido com relação a clientes", destacou Feitoza.
Como surgiu um banco digital cearense
A trajetória do cearense Márcio Feitoza é indissociável da história de sua família no mercado financeiro do Estado. "Eu basicamente nasci no mercado financeiro", brinca ele, lembrando que seu pai entrou no banco cearense BMC, vendido para o Bradesco em 2007.
Ele começou a trabalhar aos 16 anos na financeira montada pelo pai e viu de perto a evolução do setor. Desde a criação da "meutudo", ele tem como cofundadores o irmão, Marcelo Feitoza, e o amigo Felipe Oquendo.
Feitoza começou sua fala deixando claro que "tem um banco no Ceará, com uma conta de 20 milhões de pessoas e com um olhar muito claro de como extrair eficiência operacional para gerar resultados para a pessoa no final do dia".
Ele também acredita que estar no Ceará é uma vantagem competitiva e defende a competência local. "A gente não deve nada para as empresas do Sul e do Sudeste", afirma.
Para a presidente do Lide Ceará, Emília Buarque, a palestra do empresário foi importante para discutir sobre endividamento no País e possíveis caminhos. "Nós temos aqui uma empresa cearense que traz uma alternativa um pouco mais saudável do que o que tradicionalmente ocorre", afirmou.