Universidades estaduais cearenses enfrentam desafios para recuperar o calendário acadêmico

Uece, Urca e Uva tentam concluir as atividades o mais breve possível em meio à pandemia da Covid-19

Legenda: Universidade é um das que estão sem aulas presenciais desde março
Foto: José Leomar

Com a pandemia do novo coronavírus, as universidades cearenses tiveram que paralisar as atividades presenciais ainda no início de março. As estaduais, Universidade Estadual do Ceará (Uece), Universidade Regional do Cariri (Urca) e a Universidade do Vale do Acaraú (Uva), adotaram o modelo de ensino remoto para que o calendário acadêmico não ficasse ainda mais atrasado.

Uma das principais reclamações dos alunos das instituições é a falta de acesso à internet, item fundamental para que seja possível participar ativamente das aulas e atividades, devido ao quadro de vulnerabilidade social dos discentes. Um programa do Governo do Estado visa solucionar esse problema por meio de entrega de chips 3G para 8.959 alunos de baixa renda dessas instituições superiores. O Projeto de Lei com pedido de urgência já foi enviado para a Câmara dos Deputados, mas segundo a assessoria da Casa Civil, a votação ainda não foi realizada. "Não é uma coisa que anunciou e já chega", informa.

Os sindicatos de professores das universidades também foram procuradas, mas até o fechamento desta matéria não responderam. Após a publicação desta matéria, o Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) – SindiUVA enviou nota, no dia 25. 

Urca: a universidade do Cariri

A Universidade Regional do Cariri (Urca) já estava com o calendário atrasado quando o ano de 2020 começou. Em três de fevereiro a universidade deu início ao semestre 2019.2, com previsão de término no próximo dia 30 de novembro. Embora o semestre tenha se estendido por quase 9 meses, devido às dificuldades apresentadas por alunos e professores em iniciarem imediatamente o modelo remoto, de acordo com a assessoria da Urca, em nenhum momento, houve a paralisação das atividades, que continuaram de forma heterogênea, principalmente com as aulas remotas e seminários online.

Há variações de datas para alguns cursos e unidades da instituição. Nos campi do Crajubar (Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha), por exemplo, há cursos que só encerram as aulas em janeiro do próximo ano.

Já há colação de grau marcada para janeiro nos cursos de Missão Velha, além de matrículas abertas para o semestre 2020.1, nos dias 26 e 27 de novembro. Em relação a continuidade das aulas remotas, a pró-reitora de Ensino de Graduação, professora Ana Maria Parente, afirma que enquanto não tiver vacina, a Urca segue a orientação do Conselho Nacional e Educação, de continuar com as aulas de forma alternada, inclusive remotas, até o final de 2021, se for necessário, e com muita segurança para os alunos e professores. Tudo vai depender da questão epidemiológica, mas as estratégias de aulas continuam, com o ensino híbrido.

A graduanda de Pedagogia, Rayanne Alves da Silva, concluiria o curso neste ano.Segundo a estudante, “está sendo um desafio e uma busca constante de conseguir concluir esse semestre e conseguir reduzir, mesmo que minimamente, os danos que a Pandemia colocou pra gente, relativo ao nosso ensino, aprendizagem”.

Embora a futura pedagoga aponte que a estrutura tecnológica dos estudantes seja precária, onde não existe uma conexão estável, espaço adequado para estudo ou mesmo a existência de dispositivos remotos para o acesso, ela acredita que “é um desafio para todos, inclusive pra Universidade, já que é uma experiência que é nova pra quem está na administração também. E pelo fato de ser uma experiência nova, os caminhos traçados ainda não são suficientes para amparar os estudantes”.

“Qualquer instituição que esteja enfrentando o ensino remoto ou que venha a enfrentar em outras circunstâncias, deve olhar para os seus alunos, a partir das suas singularidades. Uma educação é feita para a maioria e a maioria na educação pública e na universidade pública, é composta por alunos de classe baixa, da zona rural ou periferia, com poucos aparatos tecnológicos, sem a estrutura que esse tipo de ensino precisa. Então primeiramente, é necessário que essas pessoas tenham asseguradas os direitos básicos para terem esse Ensino”.

Uva: O ensino superior no Vale do Acaraú 

No segundo dia de março, iniciavam as aulas do semestre 2020.1 na Universidade do Vale do Acaraú. A previsão era que ele fosse encerrado no dia 15 de julho deste ano, e o próximo semestre (2020.2) fosse iniciado em sequência, no dia 11 de agosto com término antes do natal (18/12). Todo o quadro acadêmico da Instituição estava devidamente planejado. No entanto, a pandemia do coronavírus atrapalhou os planos de toda a comunidade acadêmica. Com apenas 15 dias de aula, as atividades presenciais da universidade foram interrompidas, sendo retomadas apenas em três de outubro de 2020. E até agora, não se têm previsão de quando o semestre de 2020.2 terminará.

Segundo Fábio Melo, assessor de comunicação da universidade, a pergunta sobre 'como vai ser ano que vem' só será respondida pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da Uva (Cepe). O Conselho não tem data para se reunir, mas será convocado pelo reitor para definir o Calendário Acadêmico de 2020.2 e o que deverá mudar.

2020.1 será de forma remota até o fim do semestre, o que vai acontecer em 2020.2 só após o período que será definido. As atividades acadêmicas de cada semestre são propostas pela Pró-Reitoria de Graduação encaminhadas para o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão que aprova ou faz alteração", explica.

As aulas na instituição são realizadas pelo Sistema Acad6 da UVA, no entanto, os professores podem utilizar qualquer plataforma, mas tudo deve ser registrado no Sistema Acadêmico da instituição. 

“Esse ano foi bastante difícil, não só pra Universidade, mas pra sociedade inteira”, analisa a estudante de Ciências Sociais, Maraya Melo. A decisão da Uva de suspender as atividades presenciais foi “bastante acertada”, relata a graduanda, pois foi logo no início do isolamento social em Sobral . “Foram intensos debates sobre como seria o retorno às atividades letivas, já que somos uma universidade do interior do Ceará que atende mais de 40 cidades interioranas da região Norte do Estado do Ceará, em que muitos municípios e distritos sequer os estudantes têm acesso à internet”, descreve.

Conforme avalia Maraya, embora a iniciativa da instituição tenha sido positiva, o retorno das atividades no dia 3 de novembro foi precipitado. A também presidente do Diretório Central dos Estudantes, relata que o movimento estudantil cobrou do Governo do Estado para que fornecessem uma estrutura para o retorno das atividades. 

“Cobramos através da reitoria e pró-reitorias da UVA, cobramos através da SECITECE, em reunião com o secretário Inácio Arruda, e até em intervenções presenciais, com faixas e divulgação na mídia, para que pudéssemos ser ouvidos. Depois de muita luta, foi anunciado que seriam distribuídos chips para os estudantes, apesar de insuficientes para se pensar um retorno remoto, era uma resposta e uma tentativa de inclusão. O mais grave de tudo é que as atividades letivas retornaram no dia 03 de novembro, e o Governo do Estado não deu nenhuma garantia de inclusão aos estudantes que não tem acesso à internet e equipamentos, até os chips que iriam ser distribuídos seguem sem previsão”, explica.

 

Uece: a instituição com sede na Capital Cearense

O semestre da Universidade Estadual do Ceará (Uece) começou no dia 19 de outubro deste ano com previsão de término no dia 27 de fevereiro. Assim como as outras instituições dessa matéria, o funcionamento da universidade foi afetado devido a pandemia. Mas segundo a pró-reitora de Graduação, a professora Mônica Cavaignac, para retomar as aulas de forma remota, primeiramente os professores passaram por uma série de cursos e formações. A pró-reitora explica que houve uma semana de integração com os estudantes, para introduzi-los no modelo remoto e nas plataformas que a Uece utilizaria. Em relação àqueles estudantes que não conseguiram fazer o semestre, eles podem fazer o trancamento do curso.

Quando questionados a data de início do semestre 2020.2, a única certeza é que será em abril de 2021. Segundo Mônica, “ainda não existe previsão se será remoto ou presencial, porque isso vai depender dos decretos governamentais e das nossas condições efetivas de retorno às atividades presenciais, previsão de como será o próximo semestre, a gente decidiu todo esse por meio de resoluções, a resolução que disciplinou o semestre”, explica.

Guilherme Cavalcante, estudante de História, relata que o ano na Uece foi bem complicado, pois quando a pandemia começou a instituição estava terminando um semestre e que foi finalizado com atividades a distância. O estudante reclama que houve uma demora de resposta da instituição sobre o retorno das atividades, “a Uece resolveu voltar com sistema ead sem consultar as condições dos seus estudantes e ignorando as condições sócio-econômicas desses. O nosso calendário já estava atrasado devido a greves que aconteceram anos atrás e isso faz com que a universidade volte dessa maneira, sem dar o suporte necessário a boa parte dos discentes que não possuem as condições, e ignoram completamente as exigências do movimento estudantil que já havia se manifestado contrário a volta forçada pelo sistema ead”, explica.

O graduando em história enxerga esse retorno às atividades “de forma excludente e que acentua as desigualdades presentes na universidade”. Segundo Guilherme, os estudantes que não tem condições ficam “a mercê de receber um chip que foi prometido e até agora não foi entregue, mesmo o semestre já tendo começado. Já aconteceu de eu deixar de ter aula porque a conexão do professor tava ruim e ele não conseguia dar aula. Sempre vejo os relatos de pessoas que não tinham conexão wifi em casa e só conseguiam assistir aula indo na casa da namorada ou do amigo”.

Embora desmotivado com a situação vivenciada pelo ensino superior das universidades cearenses, Guilherme aponta que

“as universidades devem desenvolver e reforçar as políticas de assistência estudantil para garantir a permanência dos estudantes ao longo da graduação, o que infelizmente não está acontecendo com a Uece”.

 

Grupo de Trabalho 

Por meio de nota, enviada à redação no dia 25 de novembro, o Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) – SindiUVA informa que as entidades sindicais docentes das universidades estaduais cearenses (SindiUVA, SindUECE e SindURCA), reunidas no Fórum das Três, juntamente com as representações estudantis, que compõem o Grupo de Trabalho de Educação do Fórum Ceará Pela Vida, têm atuado pela inclusão de todos os estudantes, "em diálogo constante com o governo do estado pela aquisição de equipamentos e pela oferta de internet estável para o desenvolvimento de atividades não presenciais, além de assistência estudantil emergencial, além da garantia dos protocolos de segurança sanitária para as atividades presenciais".

O Sindicato informou ainda que, em parceria com o Diretório Central dos Estudantes da UVA, promoveu, em julho, o Seminário Ninguém Fica Para Trás, "quando houve quatro dias de debates para a construção de caminhos seguros e democráticos para o retorno das atividades, com a elaboração de propostas para que a universidade possa ter um funcionamento seguro e com a inclusão sociodigital dos técnicos administrativos, estudantes e docentes". Entretanto, admite as dificuldades dos alunos e professores e cita que isso tem resultado em evasão dos discentes.

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Redação 25 de Janeiro de 2021