Primeiro dia após fim das operações no edifício Andrea, três imóveis foram vistoriados

Defesa Civil continua as vistorias na segunda-feira (21). Vítimas do desabamento devem ser chamadas para reaver pertences recolhidos dos entulhos

Legenda: Os trabalhadores da Defesa Civil passaram o dia em ação, no local da tragédia, retirando entulhos e pertences de moradores
Foto: Camila Lima

Nas primeiras horas do domingo (20), o comerciante João André Uchôa Gomes observava, em silêncio, o movimento dos caminhões e retroescavadeiras. Dependia desse trabalho para recuperar alguns documentos perdidos após o desabamento do Edifício Andrea, na última terça (15), do qual é sobrevivente. Na tragédia, sete pessoas foram resgatadas com vida e outras nove morreram. O Mercadinho Bom Jesus, onde ele trabalhava há cinco anos, foi um dos locais atingidos.

Às 10h28, instante exato em que o prédio veio abaixo, André estava dentro do estabelecimento comercial. “Vi o edifício quebrando ao meio, aí eu escapei por cima, por uma janela e saí pelas telhas aqui, na outra rua, do lado. Foi muito rápido. Deus que me deu força para subir. A minha sorte foi isso aí, se não, não tinha como escapar”, detalha. Naquele 15 de outubro, o comerciante ficou no local até a madrugada, à espera de notícias dos moradores do Andrea, em sua maioria clientes que cultivou durante o período que vem trabalhando na região.

Nos dias que se sucederam, ele acompanhou de perto as operações do Corpo de Bombeiros no bairro Dionísio Torres. Saía diariamente de casa, no Conjunto Ceará, na esperança de encontrar boas notícias, mas elas não chegaram. Um dia após o encerramento das ações de resgate, André fez o mesmo trajeto. “Tô acompanhando porque não tenho condições de ficar em casa. Eu quero ver, gosto de ver direitinho porque é como se eu viesse trabalhar todo dia”, desabafa ele.

Legenda: No primeiro dia após o fim das operações de resgate, o sobrevivente João André Uchoa foi em busca de respostas e pertences
Foto: Thiago Gadelha

O comerciante foi o primeiro sobrevivente a entrar no local com representantes da Defesa Civil, ainda na manhã de domingo. Lá, ele ficou por 30 minutos, e conseguiu retirar duas carteiras de trabalho, RG, CPF, o documento da moto e algumas roupas. “Tá tudo quebrado, tem só a parede de cima, que pode arriar a qualquer hora. Eu já tava era correndo risco, por isso não deixaram a gente ficar muito tempo”, revela o homem, visivelmente abalado. 

Com a ajuda de voluntários, ele deve retomar as atividades comerciais nesta segunda-feira (20). Uma pessoa cedeu-lhe um ponto na mesma rua do antigo estabelecimento, abonando o aluguel do primeiro mês; e materiais como água e demais produtos também foram doados ao comerciante.

Vistoria

No local da tragédia, 40 agentes da Defesa Civil, 40 representantes da Guarda Municipal e 20 da Polícia Militar auxiliavam no isolamento da área para o recolhimento dos destroços neste domingo. Somente uma vistoria havia sido realizada durante a manhã, numa área “aparentemente não afetada”, segundo um dos trabalhadores. Entre os objetos encontrados nas buscas, um porta-retrato com a foto de uma das vítimas do edifício se destacava.

“A segunda etapa agora é a retirada desse material e, posteriormente, a vistoria de todas as residências que foram interditadas no momento do desabamento. A nossa previsão é que a gente consiga terminar (a retirada de entulhos) na terça-feira (22), mas isso depende também da perícia que está sendo feita nesse momento pela Pefoce”, avalia Luciano Aguinelo, coordenador da Defesa Civil em Fortaleza.

Legenda: Entre os objetos encontrados nas buscas do domingo, um porta-retrato com a foto de uma das vítimas do edifício se destacava
Foto: Thiago Gadelha

Por volta das 16h de ontem, um caminhão carregado de entulho deixou o local. Era o último do dia e os trabalhos de remoção continuarão na manhã de hoje. Outra ação da Defesa Civil agiu diretamente na vistoria de edificações vizinhas ao Andrea. Dos 12 imóveis próximos que constam na lista, três foram visitados durante o domingo. Uma casa situada na esquina das ruas Tomas Acioly com Travessa Hilnete e outras duas residências localizadas na Travessa Benjamim Torres. 

Aguinelo adianta ainda uma possível reunião para esta segunda (21), na qual será vista uma programação de triagem do material resgatado. “Nesse encontro, vamos marcar um local e chamar os moradores, os familiares, para que eles possam reaver seus pertences”, determina.

Moradores do entorno

Próximo dali, a advogada Ylana Pinheiro, 38 anos, passeava com o cachorrinho, ainda abalada com a situação. “Moro aqui no Edifício Itapuã, na Rua Joaquim Nabuco, uma vista infelizmente privilegiada (para o Andrea) que ninguém gostaria de ter”, desabafa a vizinha. “Foi um momento de terror mesmo, por conta que a gente sabia que tinha vítimas fatais”, relata ela, que estava com o pai e a mãe dentro de casa no dia da tragédia.

A advogada, que perdeu conhecidos no desabamento, confessa que já pensou em se mudar. “Por mim, eu ia embora. E várias pessoas do meu prédio já me disseram isso. Por elas, se o apartamento não fosse próprio, sairiam também, pelo trauma, que foi muito grande mesmo”, evidencia.

O vendedor de tapiocas Antônio Alberto da Silva, 57 anos, residente na Travessa Potiguara, bem próxima ao Andrea, aguarda o contato da Defesa Civil para saber se deve ou não continuar morando ali. “Sei que eles vão de casa em casa, então só me resta esperar”, comenta.

Ao olhar para os entulhos, ele carrega a mesma dúvida do comerciante André e da advogada Ylana: como será o amanhã?